49. A Essência da Minha Noite

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Ela pegou no telemóvel cinzento e passou-lhe o dedo levemente, observando atentamente o ecrã. Sorriu e virou o seu olhar brilhante para mim.

- Nem sabes, a Dalila convidou-me para sair com ela amanhã! - exclamou. - Ah, desculpa, se calhar é melhor não... - disse, pousando o telemóvel na mesa, começando a despentear o cabelo com a mão, atrofiada.

- Melhor não porquê? - interroguei, observando os seus gestos.

- Oh, porque sei que tu não gostaste muito da outra noite e não deves querer que eu me dê com eles ou isso... - explicou num tom baixo, enquanto tentava apanhar as palavras na sua cabeça.

- Hey, eu gostei da outra noite. Não estava tão aberto à experiência como tu e sim, tive ciúmes, mas gostei. Foi algo diferente, foi algo bom, foi algo que tu apreciaste e gostaste verdadeiramente e isso é o que importa. Estás á vontade para estar com a Lila amanhã, ela é simpática, até gostei dela... É boa pessoa. - expliquei.

- A sério? Não te importas, Davi? - perguntou, com um ligeiro medo...

- Claro que não, Michele... A sério. - acrescentei, num tom seguro e de conforto.

Ela pousou a mão esquerda em cima da minha, cobrindo-a. Olhou-me sorridente e beijou-me.

- Vamos voltar? - perguntou, ao afastar-se.

- Vamos. - respondi, levantando-me, à espera que a donzela saísse da sua cadeira para eu poder pegar na sua mão suave, pequena, fina e necessária à minha existência.

Saímos da pequena taberna e uma rajada de vento enrolou-se à nossa volta. Michele começara a tremer e eu abracei-a. Andámos rápido pela calçada de pedra escura. Michele baloiçava-se debaixo do meu braço esquerdo, com a pele arrepiada e os lábios pálidos a soltarem pequenos gemidos de frio. 

Olhei para o céu. Poucas estrelas apareciam. Muitas ainda se escondiam, mas não mais do que o normal. Aquela zona era recatada e as luzes eram fracas. Tremeluziam. Permitiam que se visse algo da verdadeira essência da noite. O único brilho verdadeiro era o acima das nossas cabeças... Bem acima. Pequenos pontos brilhantes e gloriosos e uma Lua esbatida. Parecia tudo tão fixo e longíquo. A única coisa que andava connosco eram as nuvens, o ar... Acompanhavam-nos no nosso caminho... Mas eu queria o brilho da noite. Eu queria o brilho... Eu tinha o brilho. Eu tinha dois pontos brilhantes, gloriosos e fixos comigo. E esses pontos brilhantes, gloriosos e fixos andavam comigo. Acompanhavam-me.  

- Sabias que és a minha estrela? Que eu poderia passar a noite toda a apreciar-te? A noite toda... Todas as noites todas que eu teria até ao resto de toda a minha vida. Tu és a minha estrela. O meu céu Michele, tu és o meu céu. E eu quero ter-te para o resto da minha sombria vida.

Ela olhou-me lá de baixo. Os dois pontos brilhantes, gloriosos e fixos encontraram-se com os meus dois brilhantes, não tão gloriosos e fixos pontos. A luz era ainda mais intensa. Michele encontrava-se pálida e tal como as luzes da rua, tremeluzia, mas brilhava... Brilhava mais do que tudo o resto. E eu amava-a. Amava-a tanto.

Uma lágrima caíu do seu olho direito e eu apanhei-a. O meu dedo molhado começara a esfriar na sua cara já fria. 

- Porque estás a chorar?

Ela sorriu. Um sorriso tão simples, tão belo e tão momentâneo:

- Porque te amo, Davi. Porque eu amo-te. Eu amo-te tanto... Tanto. - confessou, baixinho, enrolando a sua face no meu dedo. Outra lágrima caíra.

Elevei o seu rosto e confessei:

- Eu também te amo, Michele. Eu amo-te. Eu amo-te tanto... Tanto... Tanto.

Ela voltou ao seu sorriso simples e eu tive pena dos seus lábios esbatidos. Beijei-a, envolvi-a no meu abraço e tornei-a na minha noite cintilante.

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