I - O Lar do Arquimago

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 Mesmo depois de saudá-lo formalmente, o menino olhou para o estranho à sua frente num misto de receio e curiosidade, mas suportou seu olhar perturbador com surpreendente naturalidade. Os olhos negros e sem pupilas que o fitavam eram esquisitos, inicialmente opacos e inexpressivos, mas repentinamente emitiram um brilho sutil, e o canto esquerdo dos lábios do homem se curvou num arremedo de sorriso enquanto ele puxava para trás o grande capuz, libertando do confinamento os seus cabelos negros, que eram curtos e espevitados.

– Então você é o garoto que decidiu aprender magia? Você tem um espírito forte – disse o estranho na Língua Comum, mas não fez sua própria apresentação. Sua voz era suave, baixa e soava de forma um tanto lenta e arrastada, como alguém que fala com escárnio e transbordando desprezo.

Sem dar resposta, o menino virou o rosto e olhou para sua mãe; ela sorriu e afagou os cabelos dele. – Aglarion, este é meu velho amigo Kyehntw'arthal. Como você sabe, ele é o mais poderoso arquimago vivo, tendo conhecimento e poderes além da imaginação – a elfa falou num tom suave, também falando em Comum.

Aglarion voltou novamente a atenção para o estranho. Este definitivamente não era um elfo; embora fosse semelhante a um, a extensão pontiaguda de suas orelhas era claramente menor, as linhas de seu rosto eram mais angulosas e suas feições traziam marcas de miscigenação. Kyehntw'arthal era um meio-humano, como o menino já sabia, mas nunca antes se deparara com um mestiço, que se tornava ainda mais peculiar devido às suas vestimentas excêntricas: ele trajava um longo e elaborado manto azul muito escuro, sobre a qual havia uma espécie de armação de couro batido de coloração negra que protegia seu peito e pernas, e da qual se projetavam duas largas ombreiras, que junto ao pescoço se elevavam e o protegiam como se fosse um gorjal de armadura. Das ombreiras pendiam fitas de couro que pareciam ondular suavemente mesmo na ausência de vento, e culminavam em argolas de prata. Tanto o manto quanto a armação em couro e as fitas eram trabalhados com ricos arabescos prateados. Na mão direita ele trazia um longo cajado, um bastão de madeira que parecia feito de um galho vulgar e irregular, mas cuja extremidade se desdobrava como ramos cruelmente retorcidos e dotados de espinhos, uma visão peculiar e um tanto perturbadora.

– Você é menor do que eu imaginava – murmurou Aglarion. O topo da cabeça do meio-humano não alcançava sequer os ombros de sua mãe, o que acabava com grande parte da imponência de seu visual.

– Oh – arrastou o arquimago, arregalando os olhos com falsa surpresa. – Pelo menos já deve ter ouvido algumas histórias sobre mim. As boas, eu espero.

Mais uma vez o menino voltou o olhar para sua mãe e, inflando a bochecha esquerda num gesto inconsciente que sempre fazia quando se sentia em desagrado, ele a fitou de modo suplicante. – Não posso mesmo ser um guerreiro...? – ele murmurou de tal forma que aquelas palavras pareciam feri-lo.

A elfa se ajoelhou e, com um sorriso triste em seus lábios, afagou a face do filho. – Infelizmente não – ela falou num tom sereno. – O caminho do guerreiro não é para você, meu amor, já há muitos ciclos que conversamos sobre isso. Mas não é necessário que você se torne um guerreiro, ou mago, ou adote qualquer outro ofício; eu prefiro ter você comigo. Você não precisa ir, meu querido. Em minha opinião, nem deve.

O menino elfo, que em comparação com os padrões humanos não teria mais do que nove ou dez ciclos de idade, fitou intensamente os olhos de sua mãe. – Entendo – ele murmurou com notável tristeza. – Se é assim, então eu vou partir com Kyehn~saren.

– Tem certeza, minha criança? – o sorriso da elfa pareceu ainda mais triste, enquanto ela segurava as mãos dele. – O treinamento não será nada fácil.

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