Três - Alice

Começar do início

Ele se parecia muito com Quentin: Penetrantes olhos azuis, cabelos grisalhos que provavelmente tinham sido louros um dia, e uma barba perfeitamente aparada no rosto. Era bem esbelto para um rei e devia ter sido muito bonito quando mais novo. A rainha Anna, ao seu lado, sorria conforme Quentin e eu entrávamos no aposento de braços dados.

Ao lado deles, meus pais pareciam mergulhados em uma piscina de orgulho. Achei que minha mãe fosse chorar, o que era deprimente. Quer dizer, aquela não era uma conquista minha. Eu tinha simplesmente sido entregue de bandeja à casa dos Augustini, o que poderia acontecer com qualquer uma. Não queria que tivessem orgulho de mim por causa disso.

Mas é claro que o que eu queria não importava para aqueles dois.

Sorri para o rei e a rainha, que sorriram de volta e apontaram a cadeira na qual eu deveria me sentar. Quentin se adiantou e a puxou para mim, um perfeito cavalheiro. Todos me acompanharam enquanto eu me sentava e, segundos depois, os empregados começaram a cercar a grade mesa, colocando comida em nossos pratos, vinho em nossos copos. O Rei Charles pegou sua taça dourada e a levantou. Nós o imitamos.

- À união das casas Augustini e Chantin. – ele disse, sua voz reverberando pela sala de jantar. – Que Quentin e Alice sejam abençoados pelos deuses e tragam um grande e glorioso futuro às Terras Encantadas.

- Saúde! – o restante de nós entoou antes de beber um gole do vinho que, preciso admitir, era muito bom. Meus pais não me deixavam consumir bebidas alcoólicas, é claro, mas isso não me impedia que eu soubesse o gosto exato de todas que havia em nosso castelo. Ser amiga de uma das serventes da cozinha tinha lá suas vantagens.

Nós começamos a jantar e os adultos conversavam sobre muitas coisas diferentes, me perguntando alguma coisa uma vez ou outra. Normalmente as perguntas eram sobre minhas expectativas em relação ao casamento, e eu sempre respondia que estava muito feliz com Quentin, obrigada. Mentir, quando se vive dentro da realeza, é praticamente uma lei sagrada de sobrevivência.

- Isso é ótimo – a rainha Anna disse com um sorriso radiante, ordenando que colocassem mais vinho em minha taça. – Espero ter muitos netinhos em breve.

Quase engasguei com o que estava na minha boca. Ela tinha ficado maluca? Já tinha se esquecido da minha idade? Idade que, aliás, não era nem o suficiente para casar e agora ela já esperava que eu tivesse filhos?

Mas era só o que me faltava.

Meu pai me fuzilou com o olhar do outro lado da mesa, mas o que eu podia fazer? Eu não era um brinquedinho que ele podia usar e abusar quando bem entendesse.

Retribuí o olhar fulminante e virei o resto de vinho da taça de uma vez só. Talvez ficar bêbada fosse uma excelente ideia – e única forma de aguentar aquele jantar sem xingar ninguém. Ou não, mas sinceramente, eu não me importava.

Quando pousei a taça de volta na mesa, senti alguém se aproximando do meu lado esquerdo e, quando me virei, um empregado – um dos que nos reverenciou quando descemos as escadas – estava curvado perto de mim. Ele tinha a pele cor de caramelo e grandes olhos castanhos. Não tinha sido minha intenção encará-lo, mas a verdade era que ele era uma gracinha. Meio sem graça, ele sorriu.

- Mais vinho, senhorita?

Assenti, deixando de encará-lo, e me deparei com Quentin nos observando. Uma expressão raivosa estampava seu rosto, os lábios estavam comprimidos em uma linha fina. O rapaz que me serviu o vinho fez outra reverência antes de se afastar e, naquele momento, Quentin chamou um dos guardas que estavam posicionados ao longo da sala com um aceno de mãos.

Mesmo sem saber o que estava prestes a acontecer, senti meu corpo desconfortável. A dureza nos olhos de Quentin era intimidadora demais e parecia extremamente deslocada em seu roto angelical.

O guarda se aproximou e Quentin cochichou alguma coisa para ele. Imediatamente, os olhos do homem se fixaram no empregado que tinha me servido e, assim que foi liberado, o guarda caminhou até o garoto, agarrando-o pelo braço e tirando-o dali à força.

Assustada, percorri os olhos pelos adultos à mesa, mas eles continuavam a conversar como se nada houvesse acontecido. Talvez uma interrupção como aquela não fosse nada fora do comum, mas era difícil saber.

Olhei para Quentin em busca de uma explicação, mas ele simplesmente sorriu de um jeito afetado e, sem se preocupar se alguém estava vendo ou não, levou o indicador ao pescoço, passando-o pela pele como se fosse uma faca. Depois, levou o mesmo dedo aos lábios, como se me pedisse segredo.

Senti meu estômago embrulhar e engoli em seco. Eu realmente esperava que fosse apenas uma brincadeira de mau gosto, mas era impossível ter certeza. Eu mal conhecia aquele cara, não era verdade? Ele podia muito bem ser um completo psicopata, um príncipe tirano que mandaria matar qualquer um que o olhasse torto quando fosse rei.

E eu estava prestes a me casar com ele.

Nauseada, larguei a comida no prato e afastei a taça de vinho.

- Se me permitem, - disse, tentando manter a voz firme. – estou satisfeita. Vou tomar um ar do lado de fora.

Meus pais me lançaram mais um olhar assassino, mas eu não me importava. Eles não tinham visto o que eu tinha visto, então podiam pensar o que quisessem. Eu simplesmente não queria ficar no mesmo cômodo que Quentin, de preferência nunca mais.

Me levantei sem nem esperar que puxassem a cadeira para mim e, meio perdida, comecei a andar pelos corredores do castelo. Eu não sabia onde estava, nem onde estava indo, mas só queria encontrar a saída mais próxima para não me sentir tão sufocada. A imagem de Quentin passando o indicador pelo pescoço com um sorriso afetado nos lábios ainda estava gravada em minha cabeça, muito viva e assustadora para que eu pudesse esquecer.

Não consigo me lembrar de por quantas portas passei, ou por quantos corredores andei, mas, assim que avistei uma varanda, senti um alívio percorrer todo meu corpo. Eu já estava quase lá, sentindo a brisa fresca daquela noite, quando alguém me puxou pelo braço e, antes que eu pudesse gritar, uma mão tapou minha boca.

- O que você pensa que está fazendo – a voz fria de Quentin sussurrou em meus ouvidos, rastejando feito uma cobra. – saindo do jantar desse jeito, princesa?

Eu ficaria muito feliz em responder, mas sua mão não liberou minha boca. Muito pelo contrário, ele me apertou ainda mais, fazendo meus ossos doerem.

- Quando a família Augustini dá um jantar, espera-se que os convidados participem dele. – ele continuou, calmo e controlado. – Agora nós vamos voltar para lá juntos e felizes, como se você já estivesse se sentindo muito melhor. O futuro do seu reino está aqui, princesa. Você sabe quanto meu pai pagou pela sua mão? Muito mais do que você é capaz de imaginar. Se, por um acaso, esse casamento não acontecer, vou ficar muito aborrecido, porque você é realmente mais bonita do que eu esperava. – ele encostou o rosto no meu, roçando os lábios por meu pescoço. – E acho que você já percebeu o que acontece com aqueles que me aborrecem.

Senti um calafrio percorrer por meu corpo, mas me mantive calma. Eu estava com medo, é claro, mas não ia deixar que ele percebesse. Como disse, eu tinha uma habilidade nata para mentiras.

- Estamos entendidos? – ele perguntou mais uma vez e, quando assenti, minha boca foi liberada. – Ótimo, é assim que eu gosto das coisas.

Quentin estendeu o braço para que eu o segurasse e assim eu o fiz. Por fim, coloquei um sorriso no rosto conforme voltávamos para a sala de jantar, mesmo que todas as células do meu corpo estivessem gritando para que eu fugisse dali.

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