Parte 1

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Quando eu era criança, minha mãe sempre me contava histórias para dormir. As minhas prediletas eram as de fadas, seres alados que brilhavam e tinham uma conexão única com a natureza, capazes de montar em unicórnios e diminuir de tamanho para poderem voar mais rapidamente por entre as árvores das florestas.

Quando entrei na adolescência e deixei de acreditar em fadas, Papai Noel e coelhinho da páscoa, sofri um enorme baque; ela contou-me que éramos bruxas.

Dizer a uma adolescente que ela é uma bruxa, é o mesmo que dizer que é uma aberração. Achei, por um momento, que fosse ficar corcunda e com uma enorme verruga na ponta do nariz, mesmo minha mãe não apresentando nenhuma dessas características. Lembro-me de que chorei horrores, enquanto ela tentava explicar-me que isso não nos aconteceria. Então, comecei a aprender sobre o nosso mundo; eu ia à escola como todos os jovens da minha idade, mas tinha aulas à tarde com minha avó Bela.

Ela era uma mulher incrível. Batalhadora, amorosa, sincera e nos defendia com unhas e dentes, contudo, era sempre justa. Se eu estivesse errada, recebia uma bronca severa quando chegava em casa, mas isso não diminuía o amor que eu sentia por ela, só aumentava a admiração. Durante as aulas, aprendia sobre ervas, árvores, flores e animais. Passeávamos todos os finais de semana em lugares especiais, fazíamos trilhas, caminhadas em meio as florestas e reservas ambientais. Aprendi também, com ela, sobre as várias espécies que compunham nosso "mundo" e onde se encontravam. Há bruxas, como nós, que vivem entre os humanos. Afinal, apenas a magia nos diferencia. Existem, também, lobisomens que tentam se misturar pelo mundo, mas minha avó disse-me que é bem complicado, pois em noite de lua cheia, eles não conseguem se controlar. Ela também falou sobre vampiros e suas características, todavia, disse ser uma espécie praticamente extinta. Além desses, tem seres que dificilmente eu verei um dia, como anões e elfos, que vivem apenas na Islândia. Depois que chegamos de uma de nossas viagens, uma que fizemos para a praia e da qual lembro com muito carinho, pois foi a primeira vez em que fiz uma poção com água do mar e conchas, houve um final de semana em que minha avó e minha mãe estavam diferentes; pareciam sérias e preocupadas. Eu sabia que o principal Sabá das bruxas estava se aproximando, seria a primeira vez em que eu celebraria o Samhain. Já entendia a importância do ritual, mas não esperava receber uma notícia tão inquietante.

— Ane, venha aqui um pouco! — minha mãe chamou. Sua expressão era de alguém que não estava para brincadeiras ou piadas. — Antes de repassar o ritual, eu e sua avó queremos conversar com você. — Ela sentou-se no sofá e desligou a televisão.

Sabia que quando ela me chamava assim, era coisa séria.

— Nós sabemos, minha querida, que você gostava muito das fadas quando era criança e sofreu muito quando descobriu que era uma bruxa — minha avó Bela sentou-se ao meu lado.

As duas eram muito parecidas. Morenas, de olhos castanhos e de estatura mediana. Exatamente como eu.

— Então, esperamos muito para contar o que realmente são as fadas — minha mãe completou.

— As fadas, meu bem, não são seres bonzinhos como você acreditava quando criança — minha avó disse, olhando-me com preocupação. — Elas são, na verdade, seres horripilantes que dependem do sangue de outros para se manterem vivas e eternas.

— Como assim, vó? A senhora está me falando que as fadas são tipo... vampiros? — perguntei, achando graça, mas ela continuou séria.

— Mais ou menos, minha querida. Vou te contar como tudo começou.

— Há muitos anos, quando os vampiros começaram a representar um verdadeiro perigo para os humanos, nós bruxas, nos reunimos com os outros seres mágicos e foi decidido que eles tinham que ser contidos. — Ela passou as mãos nos cabelos, como se recordasse do ocorrido. — Os lobisomens foram liberados para matá-los, se fossem encontrados matando seres humanos. Nós tínhamos o dever de contê-los. Essa guerra durou anos e nem sabemos se restou algum vampiro vivo para contar a história. — Respirou fundo antes de continuar.

— Acontece que as fadas resolveram ajudar e muitas foram mortas, dando assim o poder de andar sob a luz do sol ao vampiro que bebesse de seu sangue. Resultado: as fadas se tornaram o principal alvo dos vampiros. Até o momento em que as fadas resolveram revidar e, no meio da batalha, uma fada mordeu e sugou o sangue de um vampiro."

— Mas enfim — minha mãe a interrompeu, respirando fundo, como quem está impaciente. — Elas descobriram que o sangue de outros seres mágicos as deixam mais fortes e também faz com que vivam muito mais.

— Sério? — perguntei pasma.

Aquilo foi outro "baque". Os seres que eu sempre acreditava serem lindos e fofinhos, eram maquiavélicos.

— Sério, e isso fez com que nascessem as fadas da lua — Bela completou, segurando minha mão e sorrindo docemente. — Nós temos fé que ainda exista uma pequena aldeia de fadas do sol escondida em algum lugar. Há alguns anos, recebemos uma notícia de que algumas fadas originais ainda viviam escondidas no meio da floresta Amazônica, mas nunca as encontramos.

— Por isso a senhora viajou para a Amazônia? — perguntei. Eu me recordava que, há três anos, ela tinha ido para lá com a desculpa de que precisava de ervas raras.

— Sim. Foi por isso. — Concordou com a cabeça, sorrindo.

— Então, fadas da lua são más e fadas do sol são boas? — perguntei, tentando digerir aquela informação.

— Sim, é assim que ficaram sendo chamadas depois do ocorrido.

— Mas por que a fada mordeu o vampiro? Não faz sentido! — Franzi o cenho tentando entender o que levaria alguém a morder outra pessoa. Mesmo que estivéssemos falando de seres sobrenaturais, ainda eram pessoas.

— Contam que elas estavam perdendo a batalha, muitas já haviam morrido e que uma fada em questão se irritou e resolveu fazer com que o vampiro provasse de seu próprio veneno. Fadas não são evoluídas como nós, meu amor, elas vivem longe dos humanos e não aceitam a tecnologia. Suas casas são nas árvores, sua iluminação ainda é o fogo e elas caçam para sobreviver. Isso faz com que elas tenham presas maiores, como as de animais.

— Então, se nós bebêssemos sangue, seríamos imortais? — perguntei, sentindo repulsa com a ideia.

— Creio que sim, mas também seríamos escravas do sangue. O poder corrói a mente e a alma, minha filha — minha mãe respondeu, olhando de canto para minha avó. — E ficaríamos corcundas e criaríamos verrugas.

— Que horror! E por que estão me contando isso agora?

— Porque elas ameaçam o Samhain — minha mãe respondeu. — Nunca as fadas da lua ameaçaram um sabá, mas elas provaram sangue bruxo, agora sabem o poder que carregamos e em nenhuma outra data os bruxos se unem como no Samhain.

Apesar de ser minha primeira vez, todos os outros sabás e esbás, que comemoramos, são feitos em casa. A única vez que iríamos sair, era para o Samhain.

— Por isso a sua preparação será diferente — minha mãe concluiu. 



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