Prólogo

48 2 5
                                    

Quarto de hotel

Kabala encarou a faca à sua frente, pronta para fazer o que tinha que fazer.

Ia doer, ela sabia, mas o seu coração quebrado é quem falava naquele momento.

Ela olhou no relógio.

6H25 da manhã.

O seu marido, Javier, não tardaria à chegar na empresa depois de uma noite agitada que ele teve e que ela, sua esposa apaixonada, mãe exemplar e dama-de-ferro de carreira e CEO da empresa de curadoria que investigava a farmacêutica, não deveria saber.

Kabala segurou a faca que tinha nas mãos e encostou o gume frio contra a lingerie preta de rendas enfiando sem querer a ponta da faca numa das rendas.

— Saco! — Fez ela, os gestos mais estabanados quanto a respiração de touro que ela reservava apenas para os que detestava mais. — Como eu faço para tirar... essa... porcaria?

Conforme ela tentava desenrolar a faca, mais a renda da sua calcinha desfiava. A cena era hilária para quem visse de fora, como eu fazia pela festinha que ela esquecia de cobrir com a cortina. Kabala era uma moça bonita, a ausência de cria preservara as curvas do seu corpinho, um pouco tosco pousado sobre aqueles escarpins pretos foscos.

— Aah, Kabala, se eu pudesse, juro que vinha te ajudar.

Ela se endireitou.

Os seus seios estavam eretos e firmes sobre o arame do sutiã, mas a sua mão tremia.

Ela olhou para baixo. No chão, o rastro de pétalas de rosa indo da porta do elevador direto na sua sala até o sofá serviria bem ao que ela queria fazer. Pela última vez.

Eu a vi caminhar até a sua mesa de diretora e abrir a primeira gaveta.

Escondeu a faca e tornou a fecha-la.

Tudo estava em seu lugar.

Só faltava esperar.

A empresa estava fechada àquela hora da noite e Kabala sabia que ninguém iria incomodá-los durante a sua tarefa.

As seis e meia precisas, a corda do elevador se acionou.

Uma luz acendeu no piso abaixo.

Javier chegaria a qualquer momento. Era por aquele momento que eu estava ali. Apenas para filmar aquele momento que prometia. Kabala não tinha dito muita coisa, mas a coisa prometia.

Eu a vi fechar os olhos, provavelmente se recordando dos bons momentos com aquele que ela se aprontava para ferrar. Ao passo em que a lembrança do homem começou a invadiu a cabeça da CEO curadora, ela bateu na própria cara para acordar do sonho. Kabal deu as costas para a janela por onde eu espiava. Eu agora via que a sua calcinha de renda tinha desfiado no nível da bunda. Montada sobre os escarpins pretos, equipada de uma tala e de algemas, Kabala pensava que daria a Javier uma noite em tanto. Com certeza, se não tivesse aquele ar ridículo de bunda exposta. Caminhou até as janelas de vidro que iam do chão até o teto. Com um único movimento, a mulher fechou com forças as cortinas. Não queria correr o risco de que alguém a visse daquele jeito.

Ok, eu acho que teria que aguardar até que ela resolvesse compartilhar o espetáculo comigo e com o restante da imprensa. Mesmo assim, as cenas que eu tinha filmado atestavam da sua presença ali, certamente serviriam para algo se algum dia aquela CEO se mostrasse hostil comigo ou com alguém que eu conhecia. Acho que poucas eram as pessoas que tinham filmado a grande dama-de-ferro e CEO Kabala, a contadora justiceira, que apanhava toda empresa no pulo, primeiro debatendo-se com uma faca e depois com a lingerie de rendinha furada bem na bunda.

Mandala e Kabala - Chegou a vez da CEOOnde as histórias ganham vida. Descobre agora