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Não procurei o Pablo no dia seguinte e nem no dia depois desse. Em vez disso, prolonguei as minhas visitas à avó Marga. Ela parecia um pouco mais debilitada a cada dia. Certa vez, Marga não acordou na primeira vez em que a chamei, me proporcionando um susto de proporções homéricas, só para abrir os olhos no segundo seguinte.

            Neste dia em especial, percebi que as flores estavam murchando, mostrando que Marga não se levantou para regá-las, como sempre fez. Conjurei novas flores no lugar, tomando cuidado para que ela não me visse quebrando o nosso acordo.

            Fiz sopa e a servi. Marga segurava a colher de um jeito estranho e tremia muito, mas conseguia se alimentar sem ajuda. Ao lado da cama, era possível apreciar uma pintura dela e do meu avô (falecido há muito tempo).

Não cheguei a conhecê-lo e me peguei imaginando que tipo de história eles viveram:          

            — Como ele era? — perguntei.

            — Quem?

            — O meu avô, seu marido... como ele era?

            Ela encarou a pintura com um ar nostálgico:

            — Ele era deliciosamente humano, como deve ser. Com todos os seus defeitos e qualidades.

            Nós duas passamos longos minutos admirando o quadro, eu o imaginando e Marga recordando.

            — Você o entendia? Quero dizer... você o entendia por inteiro?

            Ela riu.

            — Não. Certamente que não. Eu gostava assim, acredito que de alguma forma, o amor está ligado ao esforço em tentar entender o outro. E não no sucesso.

            Depois de dois minutos de silêncio:

            — As pessoas deveriam nascer com um livro explicando como devemos lidar com elas — falei.

            — Eu odiaria isso. A vida seria terrivelmente correta dessa forma — Marga respondeu. Rimos juntas.

            Tendo em mente o que Marga me falou, resolvi procurar Pablo e dizer que sinto muito, que fui uma boba e que me esforçarei para compreendê-lo melhor. Quando cheguei à portaria da mansão, quem me atendeu foi Isabel.

            — Oi, Melissa. Não sei se você se importa, mas essa não é uma boa hora para o Pablo te atender. Ele chegou em um ponto extremamente crucial do trabalho dele com a máquina e pode ser que você o distraia. Desculpa! Você entende, né?

            Respirei fundo.

Contei até dez:

            — Isabel, se eu fosse um pouco mais sarcástica forçaria uma risada na sua frente. Como não sou dada a essas coisas, simplesmente vou passar — e entrei na casa.

            Realmente encontrei Pablo trabalhando, com uma aparência não muito normal. Sua barba estava por fazer e seu cabelo despenteado e meio sujo. Estava sentado no chão apertando o maior parafuso que já vi na minha vida. Não reparou quando entrei, como acontece normalmente quando o encontro trabalhando.

            — Pablo — chamei.

            Ele levou um susto e demorou alguns segundos para me encontrar.

            — Ah, oi, Melissa. Tudo bem? — como se nada tivesse acontecido.

            — Tudo — respondi me sentando ao seu lado. Não gostei do cheiro que senti. — Eu acho... eu queria pedir desculpas. Você quer conversar sobre o que aconteceu?

MAIS LEVE QUE O AR (HISTÓRIA COMPLETA)Onde as histórias ganham vida. Descobre agora