Não me perguntem por que eu fiz aquilo, pois nem eu mesma sei. Achei que estivesse ficando maluca quando, por mera brincadeira, fiz o que a voz me disse. Apenas pensei que estava seca e, quando abri os olhos, meu Deus! Será que eu estava perdendo a noção? Minha roupa parecia estar mais seca do que o próprio deserto do Saara!

Não tive tempo para ficar pensando em como aquilo aconteceu, pois a buzina irritante do ônibus que me levava para a escola começou a soar, mandando-me entrar.

– Entra logo, menina! – gritou o motorista.

Entrei obrigada dentro do ônibus. Detestava ver a cara dos garotos me olhando torto enquanto eu passava, dirigindo-me para o fundo. Os que estavam sozinhos no banco jogavam sua mochila ao lado só para que não me sentasse ao lado deles. Quem disse que eu precisava me sentar com alguém? Eu era autossuficiente, não precisava que eles fossem meus amigos.

– Olha só como ela é esquisita. – Uma garota, que mais parecia uma imitação barata da Barbie, sussurrou para a amiga que estava sentada ao seu lado.

A menina, que perecia uma xerox da primeira, apenas concordou com a cabeça.

Sentei no último banco do ônibus. Sozinha. Isolada. Já nem me importava mais. Fora Richard, não tinha amigos; ninguém que se preocupasse comigo. Era estranha demais para eles se darem ao trabalho de me dirigir a palavra, a não ser para me perguntar de qual circo eu tinha fugido ou qual tipo de pessoa-aberração tinha olhos lilases.

Quando eu era criança, alguns até achavam a cor dos meus olhos legal; outras, assim como eu, queriam saber porquê. Ah, claro! Com exceção da Linda, que sempre me tratou mal, e aposto que continuaria assim se meus olhos fossem castanhos, verdes, azuis ou cor de laranja. O problema dela nunca foi com a cor deles e sim com o quanto Richard e eu éramos próximos. Mas sabia, infelizmente, que aos olhos dele eu estava longe de ser algum tipo de concorrente para ela. Enfim, foi quando começou a maldita puberdade que tudo piorou. A garota de olhos estranhos passou a ser sinônimo de coisas estranhas, e não só a Linda e o grupinho de amigas dela, como todo o resto do universo passou a me excluir.

Admito, queria poder fugir dali e me esconder no lugar mais isolado que encontrasse. Mas infelizmente não podia fazer aquilo. Tinha que ir àquela droga de escola escutar o professor falar e ver os alunos que viravam a cara assim que eu passava perto deles.

A porta se abriu e, felizmente, a chuva já tinha passado. Como sempre, fui a última a descer. A entrada do colégio estava repleta de alunos com seus rostos bonitos e olhos de cores normais.

Meu coração disparou quando vi o grupinho de Richard conversando debaixo de um ipê roxo todo florido. Não fui louca de me aproximar dele. Ele, como sempre, estava rodeado pelos garotos do time e abraçado à sua namorada, a Miss Perfeição, que estava super vulgar usando uma minissaia jeans e a blusa do uniforme amarrada, deixando um pedaço da barriga aparecendo.

Bem que aquela garota podia se molhar toda, pensei.

Deus do Céu! O que estava acontecendo comigo naquele dia? Um vento fez o ipê balançar, derramando a maior cortina de água em cima da Linda. Só dela, nem chegou a molhar o Richard.

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