– Richard, você está no segundo ano. Já deveria saber fazer os seus trabalhos sozinho.

– Ah, Belle, por favor, me ajude! – Ele pediu com uma voz que quase me fez derreter bem ali na sua frente. – Você é a minha melhor amiga.

Eu tinha que aprender a resistir. Do contrário, logo, logo Richard saberia o quanto eu era doida por ele.

– Tudo bem! Eu te ajudo, R.

– Sabia que você não ia me deixar na mão. – Ele jogou os cadernos sobre a minha cama e se sentou ao meu lado.

Precisei de uma tremenda concentração para ajudá-lo a fazer o trabalho sem desmaiar com o forte perfume do seu corpo, que invadia o meu interior.

– O que você sabe sobre a Segunda Guerra Mundial?

Ele olhou fundo nos meus olhos e sussurrou:

– Nada.

– Cara, o que você está fazendo no segundo ano?

– Sou o principal atacante do time de futebol, lembra?

– Acho que sim.

Nossa, aquilo ia longe. O garoto mal sabia o significado da palavra História, quanto mais quem era Hitler.

Coloquei a mão sobre a boca para bocejar.

A lua já iluminava lá fora quando terminamos o trabalho. Demorei, mas consegui colocar o mínimo de História básica na cabeça dele.

Alguém bateu na porta.

– Posso entrar, meninos? – A voz doce de minha mãe soou atrás da porta.

– Claro, senhora Hendrix. – Richard foi educado como sempre.

– Interrompo alguma coisa, crianças? – Ela perguntou enquanto entrava no quarto, carregando uma bandeja cheia de comida.

– Não, mãe! – Lancei um olhar zangado para ela.

Minha mãe era bonita, ao contrário de mim. Tinha um corpo maravilhosamente curvilíneo, pele clara, cabelos castanhos e olhos verdes.

– Pensei que talvez as crianças pudessem estar com fome.

– Estamos. Mas pode deixar ali. – Apontei para a mesinha de cabeceira.

– Richard! – Uma voz estrondosa ecoou no apartamento ao lado.

– Desculpe, senhora, mas não posso ficar para comer. Minha mãe já deve estar furiosa por eu estar fora de casa há tanto tempo. – Os olhos dele se curvaram, tristes.

Coitado do Richard, ele tinha que aguentar a maior barra. Sua mãe era alcoólatra e seu pai quase nunca parava em casa. Certo dia ele me disse que acreditava que o cara tinha outra família e que só aparecia de vez em nunca para posar de bom moço pra vizinhança. Aos dezesseis anos, Richard era o homem da casa. Ele trabalhava meio turno para colocar comida na mesa, pois sua mãe torrava em bebidas tudo o que ganhava trabalhando como doméstica. E o sujeito, aquele que deveria tomar conta dele, nunca trazia dinheiro para casa, a não ser o que mandava para pagar a escola de Richard.

– Richard! – A mulher voltou a berrar.

Ele se aproximou de mim, levantou a minha franja e deu um beijo em minha testa.

– Obrigado por ter me ajudado, Annabelle! – Richard sorriu para mim.

– De nada! – suspirei, ainda tonta pelo beijo.

– Adeus, senhora Hendrix. Até amanhã na escola, Annabelle.

– Eu não sei se vou voltar lá.

Eu mais do que detestava a escola. Tem noção do que é ir para um lugar onde todos olham torto para você, só porque você é estranha?

– Não ligue para eles – disse Richard, ao perceber o estado em que fiquei quando falou em escola.

– Para você é fácil falar.

– Então, use óculos de sol.

– Vou pensar na ideia.

– Richard!

– Tenho que ir. Espero te ver amanhã.

Tá bom que eu ia voltar para aquele lugar... Nem morta! Podia muito bem estudar em casa e ver o meu querido Richard pela janela do quarto.

– Vocês dois estão... – Ela parou de falar assim que viu a minha cara.

Ela sabia que não. Nunca. Infelizmente, ele nunca seria meu. Ele jamais namoraria com a garota esquisita. Aquela que se veste mal, atrai problemas e ainda por cima tem os olhos roxos.


Magia - Trilogia Mística vol 1Leia esta história GRATUITAMENTE!