Capítulo 9

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          O silêncio reinava durante a noite. O céu estrelado podia ser visto com clareza naquela cidadezinha do interior, mesmo de dentro do caminhão em que estávamos. Diferente das metrópoles do país, era um lugar humilde e com pouca tecnologia. Os cidadãos não se envolviam muito com estranhos, e era de difícil acesso. Um lugar adorável para se isolar, realmente... E também era o esconderijo perfeito para os nossos alvos manterem sua operação.

          — Majestade — falou Iara, minha melhor Cavaleira, quebrando o silêncio do veículo —, como capitã da Cavalaria, reitero que sua presença aqui não é necessária.

          — Está uma noite linda, não é? Passar as férias aqui deve ser uma experiência e tanto — respondi, terminando de ajeitar o bracelete no braço que ainda era de carne e osso.

          — É, mas... v-você poderia me responder de forma séria, senhor? Isso não é algo que precise da sua atenção. Eu e minha equipe podemos cuidar da operação sem qualquer problema.

          Com a peça dourada no lugar, conectei-a ao meu ID, e a armadura se ativou. Luzes laranja se acenderam por toda parte, destacando ainda mais o metal dourado que cobria cerca de 65% dela. Uma capa holográfica da mesma cor das luzes se projetou em minhas costas, tomando uma forma tão opaca que ninguém diria que aquele tecido não era real. Me levantei de onde estava sentado e me aproximei de uma caixa, pegando um pequeno bastão e acoplando-o na minha cintura.

          — Realmente, esta noite está perfeita para relaxar...

          Uma mentira que contava para mim mesmo. Como eu, o rei, poderia relaxar naquele momento? Muitas coisas rondavam a minha cabeça: contratos, seguranças, meus filhos que já não via há meses... Ah, e sem contar a maldita droga que havia aparecido aqui e ali em conflitos de magos. Uma "pílula mágica", como chamavam, que conseguia aumentar drasticamente a potência dos poderes de um indivíduo. A consequência depois que o efeito passava? Quase 100% certo de que o alvo morreria por drenagem de mana e força vital...

          Esse era o motivo da minha equipe pessoal, a elite da elite entre os magos do Brasil, estar num fim de mundo no interior de Santa Catarina. Para cortar o problema pela raiz, a Inteligência Nacional procurou a origem da droga. Semanas de investigação, contatos subornados e alguns delinquentes presos levaram a Cavalaria até aquela cidade.

          — Iara, nós já lutamos juntos em quantas missões?

          — Contando os trabalhos para o Conselho, dezesseis vezes, senhor.

          — Então você sabe que não sou um homem de negócios. — Meus olhos foram para fora do caminhão e me deparei com o mesmo das outras inúmeras vezes que chequei. Um completo vazio que fazia eu me questionar se aquele era realmente o lugar certo. Parecia até uma cidade fantasma. — Ficar com o rabo numa poltrona esperando notícias suas tem mais chance de me matar do que bater de frente com esses traficantes.

          — Ainda desaprovo a ideia, senhor, mas se você insiste... Eduardo, alguma movimentação do alvo?

          — Seguinte, pelas fichas, os suspeitos são experientes no ramo. — Um rapaz de trinta e poucos anos com um grande cabelo crespo e amarrado teclava sem parar. Seus olhos, vidrados no computador, refletiam as inúmeras informações que passavam pela tela. — E segundo a informante, tem um comprador procurando por eles esta noite. Essa vai ser a nossa melhor chance de efetuar a prisão e pegar ambos de uma vez.

          — Certo. — A mulher com o curto cabelo avermelhado se virou para o resto da pequena equipe que estava no caminhão. — Atenção, todos sabem do plano. Foi confirmado que a cidade toda faz parte da quadrilha, então não tenham medo de usar magia. Assim que eles se mostrarem, nós avançamos e os prendemos. Dessa vez, o rei estará conosco. Protejam-no a qualquer custo, entenderam?

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