Maria Eduarda, Antônio Pereira e Morena Luz

Aquela lista infeliz não tinha fim. A loira mantinha seus óculos escuros sobre o cabelo, mal acreditando que tinha que passar o resto da manhã ali, recebendo os almofadinhas que estavam embarcando naquela viagem com ela. Respirou fundo. Eram os ossos do ofício.

Sua família era dona de uma grande agência turismo, com filiais em todo o país e centenas de pacotes para todo o mundo. Aquele, porém, era um dos pacotes, dos que eles ofereceram, mais requintados do ano, um de seus cruzeiros fora solicitado para um montante de metidinhos arquitetos, designers, engenheiros civis e todos esses ridículos construtores e decoradores de arranha-céus, destruindo a paisagem das cidades brasileiras.

Ela tinha reclamado um pouco de ser colocada para vigiar todos os âmbitos daquela viagem, mas como a filha caçula e a única que se formara em turismo propriamente dito, ela não tivera muita escolha. Seus pais já tinham certa idade, seu irmão mais velho cuidava das finanças da empresa, o segundo mais velho era o presidente e a irmã acima dela era diretora de marketing. E, para Maria Eduarda, sobrara viajar por aí, da maneira que ela bem entendia. Ela adorava, claro. Curtir o sol em um mês e, no seguinte, esquiar. Era maravilhoso, mas ela gostava de pegar excursões de adolescentes de quinze anos para a Disney ou de universitários para a Europa. Eram suas favoritas, de longe, e muito mais divertidas.

Agora ela estava presa com um monte de gente tediosa, em uma viagem de quase um mês para o Caribe, dentro da porcaria de um barco, de onde ela não conseguiria fugir nem se tentasse; não era lá uma nadadora muito boa em profundidades cruzadas por navios-cruzeiro.

Odiou seu irmão por tê-la convencido a fazer aquela viagem. Para o Caribe, ele disse. Você ama o Caribe. Vai ser divertido, ele disse. E estava começando terrivelmente mal.

Alejandro lhe dissera que haveria muita gente da idade dela e que ela poderia conhecer alguém interessante e ela considerara aquilo com cuidado. Poderia até acontecer, mas ela gostava da sua vida de solteira desimpedida. Mas ela poderia ser uma solteira desimpedida entre arquitetos também, por que não?

Se iludira. Quarentões e cinquentões estavam em uma leva bem grande por ali. Alguns até deixaram-na com nojo. Maria Eduarda sabia muito bem o que era: uma mulher bonita de vinte e três anos, no auge da sua formosidade e fogo. Não gastaria sua beleza jovem com carecas barrigudos de cinquenta; se fossem o Brad Pitt, pelo menos...

Na metade da manhã, ela estava convencida que se enfiara na maior furada de toda a sua vida. Porque além da maioria ser bem mais velha que ela, quase ninguém abaixo dos trinta, o cara que tinham contratado para gerenciar todas as atividades e eventos que ocorreriam para desentediar toda aquela gente chata (ou seja, completamente impossível) era um maluco incorrigível.

Passara toda a tarde do dia anterior perseguindo-na, fazendo perguntas totalmente chatas, como quantos quartos tinham no cruzeiro, quantas salas tediosas ele poderia usar e todas essas coisas técnicas que ela não sabia nada. Maria Eduarda era uma guia da diversão, não dos velhos chatos e viciados em trabalho.

O problema era: além de ser um maníaco obsessivo, Felipe era gato demais. Às vezes, ele ficava falando de todas as coisas chatas que ele teria que fazer e que ela possivelmente deveria ajudá-lo, Maria Eduarda só ficava encarando o corpo de Felipe, imaginando que loucuras eles não poderiam fazer se ele perdesse o controle só por cinco minutos. Tinha algo entre os dreads e a barba mal-feita do homem que deixava o meio de suas pernas em uma festa quase imparável.

E só tinha problemas para a pobre Maria Eduarda. Porque, de alguma forma, ela entendia que Felipe era quase inalcançável, toda aquela neura que ele tinha de fazer tudo da maneira mais perfeccionista possível e o seu maldito profissionalismo nunca que iriam permiti-la tirar proveito de sua parceria, enquanto estivessem lado a lado como responsáveis daquela viagem, seria assim que ele a veria. Nada mais.

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