A vida de Carolina estava voltando aos eixos pouco a pouco. Ela estava tendo algumas matérias bem legais na faculdade e seu grupo de colegas tinha parado de olhar esquisito para ela, primeiro por ter conseguido um estágio em uma das melhores empresas da cidade e depois por todo o lance dos prêmios, da viagem e também do desaparecimento de Gustavo e Morena. Na realidade, ela acabou virando uma espécie de celebridade menor no campus que estudava. Todos queriam saber detalhes do ocorrido e também sobre as pessoas que ela tinha conhecido no navio, então suas manhãs estavam bem melhores naquele ponto.

Também tinha conseguido convencer seu chefe a deixar ela voltar ao trabalho, não que seus dias com o guia turístico fossem ruins, na verdade eles continuavam se encontrando quase todos os dias depois do trabalho, mas ela gostava mesmo de ser útil. Mesmo assim, eles não quiseram encaixá-la em um projeto ainda, apesar da equipe responsável por ela já estivesse atenta a uma nova situação, então Carolina estava passando suas tardes servindo café, arrumando papéis e atendendo telefones. Nada útil para sua faculdade de engenharia civil, mas eles só estavam testando se ela já estava emocionalmente bem e ela estava achando bem interessante a forma com que a Vyga estava reagindo aquele caso, que nem tinha vitimado diretamente aos seus funcionários.

Carolina só tinha um pequeno problema que ainda não sabia como resolver. Sabia o que fazer, mas não como.

Maurício, o guia turístico, mandava mensagens para ela várias vezes ao dia, entre seus passeios guiados e quando as pessoas estavam prestando atenção em qualquer outra coisa que não fosse nele. Sempre tinha uma piadinha pronta em suas mãos, as vezes sobre os turistas, as vezes sobre as coisas do museu ou dos pontos turísticos que trabalhavam e ele a fazia rir basicamente o tempo todo; em algum momento daquela tarde, ele deixara ela entender que estavam namorando. Na verdade, ele já tinha perguntado duas vezes sobre organizarem um jantar para que ele pudesse conhecer seus pais e Carolina, dia após dia, se sentia cada vez mais mal por ainda se corresponder com Felipe. Não que tivesse qualquer interesse em Felipe mais, não queria ter um romance de ponte aérea, por mais legal que o homem fosse, mas por ainda estar presa naquela situação. Então, naquela tarde, ela se trancou no banheiro do escritório e mandou uma série de mensagens para Maurício, explicando sobre Felipe e ainda printou algumas das conversas com o organizador de eventos para que ele tomasse ciência. Maurício, apesar de compreensivo com o nervosismo de Carolina quanto a cortar o interesse do homem, pareceu um pouco chateado em suas respostas.

"Você faz o que quiser, Carolina" ele respondeu depois que ela disse que não sabia o que fazer para que Felipe entendesse que ela não estava mais interessada. E Carolina sabia que aquela frase significava que era melhor ela fazer algo logo porque ele estava chateado.

"Vou falar com ele hoje. Prometo" mandou para ele, tentando acalmar a situação, mas com o coração em mil pedaços de pânico por não saber como terminaria aquela situação sem magoar o homem.

Na cidade jardim, no centro de propulsão de tudo o que acontecia sobre o processo de sumiço de Gustavo e Morena, Felipe aguardava em um hotel barato para ser liberado para retornar para a sua cidade e para sua mãe. Estava mais nervoso que o normal, confuso e irritadiço. Apesar dos dois passageiros terem sido encontrados com vida, a UBAU e a Marinho Corporações estavam processando a UZP e a MagaEventos pelo acidente e a polícia, movida pelo dinheiro das duas empresas e a atenção da mídia, estava animada em encontrar um culpado por toda aquela situação. Felipe lhes fornecera um Judas com cuidado, construindo uma história bem consistente e esperando para que Maria Eduarda fosse responsabilizada pelo crime de omissão de socorro ou qualquer coisa assim da qual ele não compreendia. Assim que fosse liberado para sair da cidade, ele tinha o plano de ir em São Paulo ver Carolina, antes de retornar para a sua mãe e ver porque ela não entrava em contato com ele.

Carolina andava um pouco distante, mas ele imaginava que a garota estava de volta ao trabalho e, por isso, responsável como era, não tinha lá muito tempo para gastar com ele. Ele compreendia e estava feliz por encontrar alguém que também fosse assim porque muitos de seus relacionamentos haviam terminado porque ele dava mais atenção ao seu trabalho que aos seus namoros. Sendo Carolina assim também, ela não iria se importar quando ele começasse a demorar a respondê-la porque ela também fazia isso.

Bom, agora ela era a sua única opção, visto que Natália, além de virar as costas e jogar ele para os lobos, tinha deixado claro que não o queria por perto nem por um segundo.

Ele foi surpreendido pelo seu telefone celular tocando no final da tarde. Pensou, primeiramente, que deveria ser a polícia convocando-o para mais um depoimento no dia posterior, mas arregalou os olhos de surpresa feliz ao se deparar como nome de Carolina no visor.

— Oi, linda! — Ele atendeu, animado.

Na cidade mais populosa do país, Carolina sentia que ia morrer de nervoso. Jamais tivera que terminar um relacionamento e todos os filmes de romance que assistira não a ajudara em nada. Para piorar, Felipe tinha que estar todo solícito e todo carinhoso? Como ela fazia aquilo?

Ao sem embolar com as palavras e não encontrar nenhuma o suficiente para tratar a situação com gentileza, acabou soltando as mais frias e piores que poderia encontrar:

— Eu conheci outra pessoa — disse. E aí percebeu que tinha feito besteira e tentando corrigir. — Você é muito legal, mas mora longe... Achei que estávamos juntos só no período da viagem, não sabia que você queria algo além disso... Você inclusive meio que desapareceu nos últimos dias de viagem, eu achei... Achei que era só aquilo. E aí eu conheci outra pessoa.

Felipe sentia que tinha levado um soco no estômago. Não só pelas palavras que Carolina estava lhe dizendo, destruindo seus planos e tudo que ele havia pensado sobre os dois, mas porque, na TV, ele viu uma equipe de reportagem acompanhando Maria Eduarda e Lucas entrando em uma delegacia.

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