Capítulo III

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Já se passava uma semana desde que chegara na cidade. Nesses dias quase não saiu de casa. Preferiu terminar alguns trabalhos já começados e pegar mais, o máximo que conseguiu com os poucos contatos que havia feito na faculdade. Ocupava-se revisando alguns textos e escrevendo outros para que fossem assinados por estranhos. Ganhava algum dinheiro e ocupava a cabeça.

Tia Mercê sempre entrava no quarto com chá ou café e alguns dos seus famosos biscoitinhos caseiros, desses que derretem na boca. Quando Clarinha chegava do colégio ia correndo chamar a irmã para contar alguma história boba antes do almoço, mas naquele dia não foi. Quando deu pela falta da irmã a tia já entrava pela porta apressada.

_ Ligaram da escola. Maria Clara se machucou!

Sem pensar muito pegou a chave da caminhonete velha que ninguém entendia como ainda funcionava. Tia Mercê entrou pela lado do passageiro e seguiram fazendo  barulho naquela lata velha por dois quarteirões até o colégio.

Entram escola a dentro o mais rápido que as pernas de Mercedez conseguiram. Chegaram em uma sala sem janelas com uma plaquinha escrito "enfermaria" na porta. Tinha um armário de remédios, uma maca e um cheiro péssimo de álcool. Maria Clara estava com o pé para cima enquanto uma senhora de cara engraçada terminava de dar alguns pontos na parte de baixo. Parecia que já tinha sangrado bastante, mas a cara serena da garota dizia que o pior já tinha passado.

_ Como isso aconteceu?!

_ Eu tô bem mana, não se preocupa.

A senhora de cara engraçada perguntou se tia Mercê era a mãe, e pediu que a acompanhasse até a sala da diretora. Laura ficou com a irmã tentando imaginar como que raios ela teria cortado o pé daquela maneira.

_ Acho que nunca vi você se machucar, nem quando era criança.

E realmente, não veio nenhum evento como esse à memória. Clarinha era sempre tão sensata e prudente que Laura nunca tinha visto a irmã sofrer sequer um arranhão. Tentou perguntar algumas vezes mais como aquilo tinha acontecido, mas a irmã desconversou. Talvez tivesse sido algo bobo durante a aula de educação física, mas o que importava é que a irmã estava bem.

Não demorou muito Tia Mercê entrou na pequena sala como um raio!

_ Quem fez isso Maria Clara?! Eu quero saber!

_ Eu não sei mãe.

_ Você sabe sim! Um caco de vidro afiado não entrou no seu tênis sozinho!

_ Mãe, a senhora acha mesmo que se eu tivesse visto um caco de vidro no meu tênis teria enfiado meu pé lá dentro?!

Mercedez estava com aquela cara de leoa que mata qualquer um que se aproximar das crias. Clarinha falava com a calma que lhe era peculiar deixando a mãe ainda mais zangada.

_ Eu tirei o tênis para participar da aula de ginástica e coloquei no cantinho como todos os outros. Quando voltei estava com pressa de ir embora e não percebi o perigo até me cortar. Foi profundo porque joguei o peso do meu corpo de uma vez, mas vai sarar logo. Isso foi uma brincadeira babaca de algum idiota crianção. Relaxa.

_ Relaxa, Maria Clara?! Relaxa?! Isso é coisa que se aconteça dentro de escola?!

_ Calma tia. - Laura tentou acabar com aquele ataque de nervos antes que fizesse mal à saúde de Mercê - Nós vamos para casa, tomar um chá, cuidar da Clarinha, e mais tarde eu mesma venho falar com o professor e entender o que aconteceu.

_ Ótima ideia mana! Tô morrendo de fome e esse remédio que deram tá me deixando com sono. Anda, ajuda aqui e vamos embora!

Seguiram para a caminhonete velha e acomodaram Clarinha. Mas Tia Mercê não parou nem por um segundo de falar o quanto aquilo era absurdo, alguns palavrões e nomes horrorosos até chegar em casa.

Mal colocaram a garota na cama, e Mercedez já tratou de trazer um prato bem caprichado e um pedaço de bolo enorme como sobremesa. Depois veio com um copo de suco e alguns biscoitos. Esse era o jeito preferido de mimar as filhas: entupindo-as de comida que elas gostassem. Quando achou que a menina tinha comido o suficiente deixou-a dormir.

Laura entendia a preocupação da tia, sempre perdia a calma quando alguém incomodava as crias dela, principalmente quando se tratava de Maria Clara. Não que amasse uma mais do que a outra, mas a irmã sempre precisou de mais proteção. Era reservada e não gostava de conviver com os colegas da sua idade, tinha sempre as notas mais altas da turma e comumente era a única negra na classe. Os apelidos eram infinitos, as piadinhas incontáveis. Mas se Clarinha se deixava abater por isso disfarçava muito bem.

Lavou a louça do almoço e saiu em silêncio em busca do tal professor. Perguntou aonde encontrá-lo por pura formalidade pois já sabia aonde ficava a sala dos professores. Bateu a porta e um homem de pele morena, careca, porte atlético e e com um rosto incrivelmente familiar atendeu sorrindo. E certamente aquele era o sorriso mais lindo e impressionante que ela viu na vida.

_ Vejam só se não é a Laura Biscoito!

Nem se lembrava mais qual foi a última vez que alguém a chamou assim. Era um apelido de infância ganho graças a mania de Tia Mercê de sempre mandar saquinhos de biscoitos para os professores e entupir sua lancheira com eles.

_ Vem, vamos lá para o patio. Está vazio a essa hora.

_ Desculpa, estou procurando o professor da minha irmã.

_ Sou eu mesmo. Vamos.

E ela foi. Meio confusa sem saber se lembrava desse moço.

_ Essa é uma cidade pequena, se espalhou logo a notícia de que vocês voltaram. Um homem que se veste de mulher com uma filha de cada cor a gente não vê todo dia.

Laura sentiu o sangue ferver e o ódio subir pelo seu corpo.

_ Olha aqui, o nome dela é Mercedez! Não sei quem é você, mas ter me conhecido criança não te dá o direito de falar qualquer coisa sobre minha família! Vim aqui saber sobre o que aconteceu com minha irmã, por favor atenha-se a isso ao invés de comentar o que não lhe diz respeito!

Percebeu que estava gritando e que o homem olhava para ela meio assustado. Que se dane esse babaca! Continuou olhando fixo para ele tentando se lembrar de onde conhecia aqueles imensos olhos verdes.

_ Mil desculpas. Realmente eu passei dos limites e juro que isso não vai se repetir. Eu estou ciente da forma como sua irmã se machucou, mas infelizmente ainda não sei quem fez a maldita brincadeira. Mas logo chamarei aluno por aluno até descobrir o culpado. Já tenho a autorização da direção para isso. Assumo toda a responsabilidade, a turma estava sobre minha supervisão e eu tenho a obrigação de garantir que isso não se repita. Inclusive, que não se repita também meu atrevimento e liberdade de tecer qualquer comentário sobre sua família.

Ele falou aquilo com tanta calma e seriedade que Laura quase o desculpou. Quase.

_ Você continua o mesmo Leonardo. Com menos cabelo, mas o mesmo. Ainda fala demais.

_ E você continua esquentadinha.

Ela agradeceu com um aperto de mão e seguiu para portão de saída. No meio do caminho ouviu Leonardo gritar:

_ Ei, Laurinha! Vai fazer algo no final de semana?!        

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