3º Capítulo: Fora de quatro paredes.

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Estava escuro e frio. Não sabia onde estava e nem como havia parado ali. Corria o mais rápido que podia, o coração estava disparado. Fugia de algo que não sabia ao certo o que era, apenas sentia um horrível arrepio na espinha que alertava seus sentidos para se manter o mais distante possível do que quer que fosse. Aquilo a estava deixando apavorada!

Não via absolutamente nada a sua frente. Tudo era trevas. Não era noite, não era dia, não estava em seu quarto, não estava no convento, não estava na cidade e nem ao ar livre nas trilhas pelas montanhas. Era simplesmente escuridão! Apenas conseguia ver a si mesma, como se o seu corpo emitisse uma luz própria.

Estava descalça, os pés nus não se machucavam e nem se sujavam. Não sentia absolutamente nada sob eles, como se corresse sobre as próprias trevas, um manto fino de ar denso. Não sentia frio ou calor. Não havia brisa, tudo parecia parado como o ar. Não sabia há quanto tempo estava correndo, mas percebia que já estava perdendo o fôlego e o pânico aumentava. Precisava correr mais, precisava ir mais rápido!

Ela precisava voar!

Sentiu as costas arderem. Tentou tocá-las, mas o gesto quase a derrubara, fazendo com que tropeçasse nos próprios pés. Não podia parar! Continuou correndo e suas costas ardiam cada vez mais.

Lágrimas escorriam enquanto sentia talhos sendo feitos em sua pele e alargados a força. Chorou e gritou quando sentiu uma dor dilacerante espalhar-se por todo o seu tronco, como se suas costelas se movessem, como se seus ossos se deslocassem. Doía para respirar, doía se mover. Sentiu-se obrigada a parar, despencando sobre as pernas.

A respiração estava pesada e a dor parecia arder em sua alma. Gritou o mais alto que pode. Um grito dolorido e angustiado. Sentia-se desnorteada. Obrigou as mãos a apalparem suas costas. No inicio, sentiu algo escorrer-lhe até o Cox, pousou os dedos sob a parte inferior do dorso, molhando-os com algo pegajoso e quente. Engoliu o choro quando viu que aquilo era sangue, o seu sangue!

Desesperada, voltou a colocar as mãos nas costas, na altura das omoplatas, de onde a dor começara e se tornara insuportável. Novamente os seus dedos tocaram em algo, contudo, não era liquido e muito menos pegajoso. Era algo macio e firme, a textura lhe era familiar... Penas?

Levou as mãos ao rosto, controlando a euforia. Asas? Ela tinha asas? Concentrou-se em suas costas, tentando sentir cada centímetro dela. Com pavor, percebeu que sentia algo a mais, como se houvessem prolongamentos de suas omoplatas. Os nervos sensíveis que os compunha, faziam com que ela os sentisse perfeitamente. E num momento de agitação, sentiu-os se mover, impulsionando-a alguns milímetros para frente.

Controlou outro grito, desta vez de surpresa. Ela realmente tinha asas! Tocou mais uma vez as penas suaves e controlou um riso histérico, como aquilo era possível? Talvez, as asas explicassem a dor, mas e o resto de todo aquele caos?

Cambaleante, conseguiu se levantar, reparando que, apesar das pernas ainda fracas pelo susto, a dor havia passado. Respirou fundo, aproveitando a sensação reconfortante de seus pulmões enchendo-se de ar tranquilamente. Assim que recobrou parte das forças, e acostumou-se com o peso extra das asas, sentiu o corpo estremecer e uma sensação gélida trespassar a espinha. O pânico voltara e desta vez ele trazia consigo a recordação do porque estivera correndo tanto.

Viu-se dentro de um pesadelo novamente, voltou a correr, mas os pés ainda não respondiam como desejava. Eles não eram mais ágeis e precisos, corriam incertos e aos tropeços. Novamente pensou em voar e, quase que imediatamente, suas asas responderam. Não mais sentia a densidade sob os pés, agora, pairava no nada. Não sabia se estava indo para frente ou para o alto, mas precisava continuar.

Assim que ganhou velocidade, ouviu um grito de raiva que a enregelou até os ossos. Levou as mãos ao peito, tentando controlar o coração desesperado. Precisava se acalmar, precisava de luz! Como que obedecendo ao seu desejo, uma faixa fina e iluminada surgiu a sua frente. Acelerou ainda mais, sentindo que o seu pesadelo também acelerava atrás dela, continuando a persegui-la.

A Protegida e o PríncipeLeia esta história GRATUITAMENTE!