Capítulo 7

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          Depois de deixarmos o Mikael na enfermaria, eu e a Helly fomos brevemente interrogadas. Nós duas ficamos uns bons minutos lá até nos liberarem. Mas, diferente do que eu esperava — que a minha amiga voltaria comigo para o quarto para descansar —, a Helena seguiu para a sala do clube sem mim.

          Não que eu ligasse muito de ser abandonada, principalmente pela minha melhor amiga... Enquanto eu andava pelos lindos caminhos do campus, repletos de arbustos, árvores e luzes, afinal, já era início de noite, a fina chuva começou a cair. Por sorte, consegui chegar nos dormitórios antes que engrossasse.

          — Por que parece que nada tá dando certo hoje...? — murmurei, cabisbaixa, entrando no meu quarto escuro.

          — Porque o dia tá uma merda mesmo — respondeu uma voz masculina vinda da janela. Mesmo com a luz de fora, reconhecer aquela silhueta era quase impossível.

          — Q-Quem tá aí?!

          — Se você acender a luz em vez de ficar me encarando no escuro, vai saber. Aliás, eu fico triste que não tenha reconhecido a minha voz...

          Meus ouvidos já estavam entendendo o que estava acontecendo, e eu tinha um chute de quem era, então corri para o interruptor. Bom, eu não estava errada, afinal.

          — G-Gustavo? O que você está fazendo aqui? — perguntei pro garoto sentado na janela.

          — Eu vim falar com você sobre o que aconteceu. — Num pulo, o Gustavo se levantou e começou a se aproximar. — Quer dizer, eu procurei pelo Mikael, mas não o encontrei. Sendo assim, minha única alternativa era falar com você e a Helena sobre o que aconteceu lá... Aliás, cadê ela?

          — A Helly foi falar com o Thiago e o André, sabe, na sala do clube. E o Mikael se machucou feio, ele está sendo tratado na enfermaria.

          De repente, ele ficou sério e parou ao lado da minha cama, sentando-se nela. Acho que ele não sabia sobre o Mikael. Mesmo se tratando do Gustavo, eu pude ver uma faísca de preocupação em seu olhar. Ainda assim, ele tentou disfarçar com um sorriso.

          — Parece que eu vou ter que me contentar só com você mesmo... Diz aí, o que vocês acharam lá?

          — Nada de importante, só uma caverna com umas tralhas dentro.

          — Que tipo de tralha?

          — Uns papéis e um caderno antigão. Quer dizer, o caderno até era interessante, mas duvido que ele sobreviveu ao fogo.

          Eu esperei por uma resposta que nunca veio. Na verdade, o Gustavo passou a encarar o chão, bem mais sério do que deveria... Curiosa com o que ele estava pensando, me sentei ao seu lado. Logo que notou a minha ação, o garoto começou a me olhar. E ficou assim por um tempo, o que me deixou desconfortável. Quer dizer, dada a situação...

          — O que fazia o caderno ser tão interessante?

          — Algumas coisas escritas que só o Mikael conseguia entender.

          — "Nada de importante" né? Às vezes você é sonsa demais para uma princesa...

          — E-Ei! — A minha única chance de revidar o comentário foi por água abaixo quando ele se levantou e foi direto para a janela. — Espera aí, o que você tá fazendo?

          — Você quer que eu saia do seu quarto pela porta da frente enquanto você estava sozinha? — Ok, ele tinha um bom argumento. — Inclusive, quanto mais você vai demorar para vir comigo?

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