O Filtro dos Sonhos

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Já era dia. O sol tímido da manhã iluminou, por uma fresta na cortina, os olhos cansados e fechados de Olívia. Mesmo sabendo que estava chegando a hora, ela manteve as pálpebras cerradas e o corpo largado na cama. Não era sono. Tampouco preguiça. O que a mantinha na cama era uma total falta de preparo para encarar um novo dia. Mais uma noite sem dormir.

Permitiu-se permanecer jogada sobre os lençóis embolados, na esperança de que a escuridão de suas pálpebras a escondesse da batalha diária que estava prestes a enfrentar mais uma vez.

Mas sua tentativa de embrenhar-se pelo mundo do sono terminava ali. Morfeu definitivamente não a queria. Nem mesmo Fobetor, o irmão perverso de Morfeu, parecia estar interessado em persegui-la com seus pesadelos. Nada de sono. Nada de sonhos.

O despertador tocou animado, anunciando que era hora de levantar.

Mexeu-se aborrecida na cama e abriu os olhos despertos. Fitou o teto e preencheu a mente com assuntos do trabalho. Mais uma noite sem dormir, mais um dia pesado, sem a força do sono.

Lembrou-se saudosa dos dias em que o despertador era seu maior carrasco. Aqueles dias em que libertar-se do sono, dos sonhos, era uma tortura quase impossível de aguentar.

Tomou coragem e se levantou.

Suspirou aliviada em ver que pelo menos alguém era feliz naquele quarto. Sua violeta africana espreguiçava-se na janela e começava, timidamente, a abrir pequenos botões de flores lilases. Ela, pelo menos, estava contente com a chegada do sol, com a liberdade da luz.

Dirigiu-se para o banheiro e permitiu-se um demorado banho, enquanto considerava os afazeres diários. Trabalho, faculdade e, novamente, noite. Novamente, insônia.

Terminado o banho, passou rapidamente a escova pelos fios lisos e compridos de seus cabelos castanhos, disfarçou as pesadas olheiras que circundavam seus olhos também castanhos com uma também pesada maquiagem e dirigiu-se para a cozinha. O café da manhã estava pronto, impecável, como sempre. Como tinha sorte de dividir sua vida com aquela mulher incrível!

— Insônia de novo?

Fez que sim com a cabeça.

— Ô, criança! Não pode continuar assim... ninguém fica sem dormir tanto tempo. Seu corpo vai começar a sentir o resultado dessa abstinência de sono...

— O que eu posso fazer, vó? Eu deito, me forço a dormir, tento não pensar em nada... mas o sono não vem!

— Nem um cochilo?

— Nem um cochilo sequer.

Em silêncio, terminou o café da manhã e partiu para o escritório, onde trabalhava como estagiária de engenharia civil. Muitos cálculos a esperavam e ela mal conseguia pensar em números.

Caminhou desanimada pelo hall de entrada do prédio onde ficava a sede da empresa e, de cabeça baixa, entrou no elevador. Distraída, pensava no trabalho e no cansaço que a consumia.

— Qual o andar, moça?

— Ah, é o sétimo. Obrigada. — Respondeu ao mesmo tempo em que levava o dedo ao botão do sétimo andar, no painel de controle do elevador. Evitou olhar para o rapaz que perguntava. Fazia aquilo havia semanas, desde que a insônia tinha começado a espalhar seus tentáculos sobre ela. Não queria que ninguém visse suas pesadas olheiras mal disfarçadas.

O rapaz sorriu.

— Essa hora é mesmo complicada, não é? O sono não deixa a gente pensar direito.

Olívia sorriu em resposta, ainda com o rosto abaixado e o olhar no chão. Um ato educado para um comentário corriqueiro, mas que, para ela, caiu como bomba em seu coração aborrecido. Todo mundo dormia, menos ela.

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