Capítulo 07: Entre a Névoa Esmeraldina

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La Francesa, Floresta Amazônica

Haddock e Dandara observavam seus arredores, chegando à conclusão de que alguém vinha morando ali: folhas e feno empilhados em um canto que serviam de cama; restos de frutas e animais; e restos de excrementos. Viram um armário em uma das paredes oposta a janela. Ao abrirem, descobriram três esqueletos sobre um ninho feito de milhares e milhares de galhos finos.

As ossadas tinham o aspecto humanoide, mas ao invés de dentes, eles tinham um bico encurvado. As mãos tinham cinco dedos, mas dois eram anormalmente pequenos e os pés tinham dois dedos ao contrário. Dois dos esqueletos deveriam pertencer a crianças, pois não tinham muito mais que um metro de altura; o terceiro era maior, mas não tão grande quanto a sua contraparte viva do lado fora, poderia ter pertencido a uma fêmea.

– É a família daquele ajaklalhay. – Dandara concluiu consternadamente; Haddock assentiu. – O que aconteceu aqui?

– Acho que tem um jeito de saber. – O menino respondeu com a mão sobre a boca e sobre o nariz, como se sentasse impedir que o fedor do lugar atrapalhasse seus pensamentos.

Algumas palavras na Língua Proibida trouxeram em uma fumaça verde-clara um pote médio cheio pela metade por um pó azul faiscante, como se milhares de partículas refletissem o sol. Haddock virou um punhado do pó em sua mão e, então, mandou o pote de volta ao lugar de onde viera. Com o punho aberto apenas o bastante para soprar, ele espalhou o pó por todo o quarto, como uma névoa mágica.

Tiếtlộ serhaj.

As palavras de Haddock significavam revelar história, era um dos feitiços mais estranhos da Arte, pois era uma tentativa de recriar um feitiço bruxo. A Arte, em sua origem, havia sido criada para combate, o que significava que seus feitiços mais poderosos eram para esse propósito. Durante os milênios, é claro, ela evoluiu quando Artistas viram o que outras magias eram capazes.

Aos poucos, a névoa tornou-se verde e imagens foram surgindo. Ele viu a família de ajaklalhay entrando pela porta com os rostos aliviados, como se encontrar aquele lugar fosse o mesmo que encontrar um refúgio; viu alguns eventos comuns do dia-a-dia, mas acelerou seu feitiço para chegar aos momentos mais importantes para sua missão de encontrar as Itamanís e o luíson.

Percebeu que era noite. A família estava deitada em seu ninho dentro do armário quando ouviram o barulho de impacto e sentiram o chão tremer. O pai levantou-se e sinalizou para que ficassem ali, fechando a porta em seguida. Quando voltou, ele estava acompanhado de uma mulher; uma mulher humana. Haddock a reconheceu como Porací, contudo havia algo faltando em seu olhar, o menino apenas não sabia o que; e as limitações da reprodução o impediam de deduzir.

Entretanto, pôde perceber que havia algo de errado com ele. Ele agia como um zumbi, como se não houvesse vontade própria. Ele ficou parado ao lado da porta, encarando o nada; seus olhos completamente vazios. Então, os momentos mais horríveis começaram.

Porací fez com que ele matasse uma das crianças, para que ela se alimentasse. Depois, outra, e depois a mulher, colocando os restos de volta no ninho – Haddock se perguntou se naquele gesto não havia algo da personalidade e cuidado do ajaklalhay.

A partir deste dia, ele foi mandado para fora do barco e voltada depois de algumas horas, trazendo, a princípio, animais mortos, mas não demorou para que trouxesse crianças humanas, provavelmente índios sequestrados de aldeias aleatórias, e depois adultos.

Haddock não conseguia imaginar quanto tempo havia se passado, mas, se o ajaklalhay viesse com uma caça por semana, ele contou que seriam pelo menos trinta anos. Então, tudo mudou mais uma vez.

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