Capítulo 06: A Francesa na Mata

10 2 0
                                    

Akuawa, 2002

Nenhuma outra manhã na vida de Haddock e de Dandara demorou tanto a chegar, mas quando o sol, mesmo que esverdeado pelas folhas nos topos das árvores, chegou e ela transformou-se em mulher, cabeça e tudo. Ela, então, correu para abraçar o menino e, automaticamente em seguida, abraçou a Cuca.

Surpresa, a feiticeira levou alguns segundos para levantar seus braços e dar leves tapinhas nas costas da menina com a ponta dos dedos. Haddock conteve uma gargalhada.

– Agora, vocês devem partir. Suprimentos foram preparados para sua partida. – A Cuca informou, depois que Dandara, incapaz de parar de sorrir, a soltou. – Vá, vá.

A dupla deixou a sala e o templo. Enoch, com o braço enfaixado, vinha pela rua com uma carranca no rosto com dois homens e uma mulher vindo logo atrás, quase como um grupo de segurança. Todos eles estavam com algum curativo. Haddock cruzou olhares com o Original, que, cabisbaixo, sinalizou negativamente. Eles não haviam conseguido capturar o anão.

Kaluanã os aguardava diante da estátua dos quatro semideuses. Depois dos bom-dias comuns, partiram em direção ao prédio dos refugiados, contornando-o. A barreira indivisível foi aberta. Dandara e Haddock, mais uma vez, estavam sozinhos no profundo da Floresta Amazônica.

_______

Ofegante, o anão deitou-se finalmente no chão de pedra da caverna, que, por sua vez, estava escondida não apenas pela própria densidade da floresta, mas por uma gigantesca pedra que funcionava mais ou menos como uma porta. Apenas pequenas frestas em suas laterais permitiam a entrada; não fosse pela natureza dele como anão, jamais conseguiria passar. Antes que pudesse evitar, o sono abrangeu sua mente.

Ele estava na forja particular que seu pai, o Lorde de Norond, Afark Rarggin, filho de Darin, mantinha em seu castelo. O calor era intenso e o suor atraía a fuligem do fogo como mariposas à luz. Ele até tentava limpá-las de seu rosto, mas tudo que conseguia era manchar-se ainda mais de preto – não que sua pele já não fosse queimada por passar tanto tempo no calor de lugares como aquele.

Afark batia o martelo com força no bjorn, dando o formato de um machado de dois gumes. Era costume que cada anão fizesse sua própria arma; acontecia de algumas delas terem se perdido em combate, mas normalmente, um machado era parceiro do anão para a vida inteira. O menino estava aprendendo aquela maravilhosa arte de seu pai.

– Lembre-se destas palavras, Moidan, meu filho: é preciso respeitar e conhecer o metal. – Seu pai dizia. – Se moldá-lo de uma forma que ele não deseja ou bater onde ele é fraco, se partirá. Uma arma remendada é a maior desonra de um anão.

Moidan, ou Dan, como era conhecido entre os membros dos Fantasmas do Sereno, abriu os olhos para a escuridão. A débil luz esverdeada do sol que vinha da entrada era incapaz de iluminar qualquer coisa. Ele odiava quando sonhava com sua cidade natal, Norond. Tudo que estes sonhos traziam eram memórias tristes.

Levantou-se e esticou suas costas e braços. Havia algo de natural em um anão dormindo sobre pedras, mas desde que ele descobrira as camas macias deste mundo, o chão se tornou extremamente desconfortável. Pegou Ylva do chão – havia dormido com o machado ao seu lado – e observou o metal por longos minutos. Esta era exatamente a arma que estava forjando em seu sonho; Dan a tinha herdado.

Não havia muita honra em usar uma arma herdada, mas não havia ninguém vivo em seu clã para repreendê-lo por isso.

Usando seu próprio sangue, ele desenhou algumas runas na chapa de seu machado. Dan não era adepto a magia com os elfos de Godheim ou como a maioria dos alvos de suas missões, mas precisava saber alguns feitiços básicos para conseguir se comunicar com o resto os Fantasmas do Sereno, principalmente com seu líder, cujo nome estava escrito naquelas runas: Annchell Nida. Ele havia assumido o posto após a morte de Athyer Redron alguns anos antes.

Histórias Curtas do Sétimo UniversoOnde as histórias ganham vida. Descobre agora