Capítulo 54

6.1K 912 1.2K
                                    

— Acho melhor você não ir lá — Wheezie me avisou quando a porta do quarto de Rafe foi batida com força — Ele tem estado muito mal humorado.

Fechei o livro que eu lia enquanto a garota jogava no celular o colocando sobre a cama.

— Ele parecia bem quando saiu.

— Então ele estava fingindo — Se ajeitou na cama — Pode dormir aqui se ele te expulsar.

— Você está sendo pessimista.

— Realista — Me corrigiu de enquanto eu saia.

Bati na porta do quarto do garoto antes de entrar.

Me assustei quase recuando quando ouvi o som de vidro quebrando, junto aos cacos o que um dia já foi um perfume.

Olhei pelo cômodo notando uma quantia de pó branco espalhado pela mesa de estudos.

Engoli em seco pensando se deveria ou não sair, mas havia tanto caco que eu me agoniei em vê-lo juntar tudo com as mãos sem um mínimo cuidado.

Coloquei meus joelhos no chão ao seu lado.

— Deixa, eu pego isso — Tentei afastar sua mão.

— Não era pra você estar aqui, que porra você está fazendo aqui?

Eu não sei.

Juntei alguns cacos grandes sem querer responder os jogando no pequeno cesto de papel que por estar apenas com papel de doce e curativos  faz pensar que Rafe não é muito estudioso.

— Por que você está aqui?— Ele tentou afastar minha mão cortando o dedo em um dos cacos— Mas que merda — Se levantou.

— Eu estou aqui porque eu quero estar, quero estar com você — Me levantei também vendo o Cameron sentado na cama de cabeça baixa — Me deixa ajudar você.

Ele deu risada risada curta e ríspida.

— Eu não preciso de ajuda.

Sim, meu bem, você precisa.

— Vamos limpar esse corte e fazer um curativo, para começar — Tentei me aproximar, mas ele se levantou me fazendo recuar.

— Eu não quero você, não quero você na minha casa, com a minha família e muito menos querendo concertar os meus problemas — Respirei fundo mantendo a paciência.

— E quem está dizendo isso é você ou a cocaína?

Ele riu dando um passo a frente e me fazendo recuar, o cabelo molhado de suor e os olhos arregalados me faziam querer ficar um passo atrás mesmo que eu preferisse dar dois a frente.

— Sabe aquele dia? No dia em que você me socou?— Ele continuou andando até que eu pudesse sentir a madeira da porta contra minhas costas.

Rafe bateu a mão com força próxima a minha cabeça me fazendo fechar os olhos com força por alguns segundos.

Quando os abri vi o azul dos seus bem próximo.

— Eu segurei a minha arma por minutos torcendo para que você ainda estivesse ali quando eu atirasse — Senti sua saliva bater contra meu rosto — Eu coloquei o dedo no gatilho e imaginei você ali imaginando que eu não tinha ido embora por um motivo românticos, imaginei te acertando uma, duas, várias vezes.

Levantei a cabeça tentando não chorar me sentindo ameaçada, usada, enganada, com medo ou totalmente pronta para morrer do coração com medo de ser morta.

Deveria procurar um psicólogo — Foi quase um sussurro, mas ele estava perto o suficiente para ouvir — Precisa de ajuda e ninguém vai poder te ajudar se você não disser isso.

Tentei ignorar tudo o que ouvi pensando em quantas chances eu tenho de sair desse lugar. Se eu não tivesse jogado todos os cacos no chão talvez eu tivesse uma chance.

Como você consegue?

Olhei para Rafe sem entender a sua mudança de tom.

— Como você pode pensar no que eu preciso mesmo depois de ouvir tudo o que eu disse?

Apertei minha mão olhando nos seus olhos que estavam fixos nos meus.

Levantei a mão com receio e toquei seu rosto.

Algumas pessoas precisam de ajuda e outras ajudam — Garanti bem baixinho — Só me diz que não machucou ninguém.

Rafe afastou minha mão.

— Eu não quero machucar você.

— Você não vai — Ou vai.

Eu matei ela, eu matei aquela policial e eu poderia fazer isso com você também. Seria normal. Matar é normal.

Meu coração bateu forte, meu estômago se revirou, um arrepio subiu dos meus pés a cabeça e eu pude sentir quando lágrimas de desespero caíram por meu rosto.

Eu entrei em pânico, naquele tipo de pânico que correr e falar parece impossível.

Viu só? Agora você está com medo de mim, não parece tão simples me ajudar certo? Você acha que o que eu sinto por você poderia mudar quem eu sou?

Nos, nós — Tentei formular uma frase — Podemos falar com alguém, eu vou estar do seu lado se você me dizer que quer a minha ajuda.

— Eu amaria você até sentir raiva e então eu te machucaria, Naya — Rafe se afastou — É melhor você ir.

Assenti saindo do quarto sem olhar para trás, se me perguntarem como eu consegui andar até a minha casa eu não sei responder.

Entrei no meu quarto vendo o Maybank apagado na minha cama.

Ele tem estado ainda mais presente agora.

Tirei meus sapatos de deitando junto com ele e o abraçando por trás agradecendo por não estar sozinha.

— Tudo bem?— Ele perguntou com a voz tomada pelo sono.

— Sim — Não — Senti saudades de voltar para casa e encontrar você.

— Eu também senti saudades, de tudo em você.

Opostos - Rafe CameronOnde as histórias ganham vida. Descobre agora