Capítulo 05: O Caldeirão Entre Deuses

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Akuawa, 2002

Haddock observava o rosto pensativo de Dandara. As palavras da Cuca sobre os feitiços que ele poderia conjurar pesavam em sua mente. Havia um risco enorme, mas também, a melhor das consequências. A semideusa, impaciente, disse:

– Se desejar, posso estudar as características destes feitiços para saber se haverá consequências.

– Faria isso? – Dandara arregalou os olhos.

– O único problema é que a Arte é quase completamente teórica. Não costumamos usar ingredientes ou círculos de poder. – Haddock explicou, gesticulando com as mãos em sinal de derrota. – Isso significa que a reação será imprescindível. E se a própria magia que habita em Dandara for incompatível com a Arte? E se o crânio for destruído para sempre? E se ela nunca mais se tornar uma mulher outra vez?

– Você tem os livros com essas teorias? – A Cuca perguntou, ranzinza.

Haddock gesticulou com as mãos, dizendo algumas palavras de sua magia. Conjurou da biblioteca de sua moradia os dois livros nos quais estudou os feitiços que, teoricamente, fariam o que dizia que fariam. Abriu-os nas páginas corretas e deixou que Cuca os estudasse.

Colocando-os de lado, a feiticeira abriu o mapa mostrando toda a floresta Amazônica. Não havia qualquer linha que dividia os países ou estados modernos, mas ele notou uma marcação que indicava a posição do Império Inca. A partir dali ele conseguiu deduzir onde começava o Brasil, e alguns estados, sabendo que boa parte daquele mapa já havia sido desmatado há séculos.

A Cuca, mesmo um tanto contrariada e tentando controlar o próprio ódio, explicou o caminho que Miguel Corte-Real havia feito. Ela não sabia exatamente até onde ele tinha conseguido chegar – apesar de ter certeza de que ele jamais chegou ao oceano. Haddock memorizou as instruções, pois não teria permissão para levar o mapa, e partiria na manhã do dia seguinte.

– Tem minha permissão para ficar aqui pelo dia e retornar com as Itamanís. – Haddock podia sentir o contragosto da feiticeira em cada uma de suas palavras.

Com um gesto debochado de mãos, dispensou a dupla. Dandara e Haddock trocaram olhares e deram de ombros, deixando o grande templo de pedra com um angelim no meio. Não havia qualquer sinal de caos em pela cidade, o que indicava que Enoch havia lidado com o anão, de uma forma ou de outra.

Durante o dia, Akuawa era completamente diferente. Dezenas de mulheres, que a noite eram mulas-sem-cabeça, andavam para lá e para cá, cuidando de seus afazeres. Os botos ainda dormiam a ressaca boêmia da noite, enquanto os canais agora estavam vazios. O movimento era grande, mas nada anormal de uma cidade: pessoas limpavam, faziam compras, cuidavam de suas casas e de suas vidas.

Um rapaz um pouco mais velho que ambos, de rosto fino e pele escura veio até eles meio mancando até eles. Era um saci que tentava usar o vento para substituir a perna faltante, mas não parecia ter dominado a técnica completamente. Seus olhos de jabuticaba eram espertos, como se ele estivesse pronto para pregar uma peça ou roubar um maracujá do pé de um vizinho rabugento a qualquer momento.

Ele abriu um sorriso largo em seus lábios grossos e apresentou-se como Kaluanã, inclinando-se em uma reverência desnecessária devassa. O saci havia sido escolhido para apresentar a cidade para a dupla de recém-chegados.

– Como foi a batalha? – Haddock perguntou, enquanto contornavam o templo de Cuca para chegarem à parte oeste da cidade.

– Épica. – Kaluanã respondeu. – Você não espera a ferocidade de um lobisomem, não importa quantas vezes já tenha visto ou enfrentado. Enoch quebrou um dos machados logo de cara, mas o outro parecia ser feito de algum metal especial, pois aguentou todos os golpes. Porém, o anão escapou.

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