Capítulo 04: A Cidade de Pedra

5 2 0
                                    

Profundo da Floresta Amazônica, 2002

Enoch Borebank avançou contra Haddock antes que pudesse dizer qualquer coisa sobre suas intenções em estar tão perto de Akuawa. O menino tentou amarrar a corrente em um dos braços do lobisomem, mas Enoch tinha séculos de experiência. Num leve jogar de corpo, livrou-se da tentativa.

Num salto impulsionado por magia, Haddock abriu uma certa distância entre os dois. Quando outro ataque veio, Dandara se interpôs. Enoch quase cravou seus dentes nela, mas conseguiu parar-se no último segundo. Haddock imaginou que se ela tivesse uma boca, suspiraria de alívio.

– Por que ajuda esse humano? – A voz do Original era grave, profunda e parecia misturar-se com um rosnar que saía do fundo de sua garganta.

– Este humano ajudou-me quando precisei. – Dandara disse; sua voz ecoando pela floresta, como se não viesse de lugar nenhum, mas de todos os lugares ao mesmo tempo. – Ele me deu minha vingança e protegeu meu crânio. – Haddock não demonstrou, mas ficou feliz que ela não falou que ele tinha se aproveitado um pouquinho da situação e recolhido as cinzas de sua cabeça original. – Graças a ele, minha dor é diminuída. Durante o dia, posso ser mulher outra vez.

– O que quer aqui? – Desta vez, a pergunta do lobisomem tinha menos tom de ameaça.

– Estou em busca do luisón. – Haddock tentou esconder seu receio. Se o Original decidisse que ele era um inimigo, ele não sairia daquela floresta. – Sei que ele está em Akuawa. – Lobos não são exatamente seres expressivos, mas o menino pôde jurar que Enoch reagiu de uma maneira estranha a sua fala.

Como se quisesse provar que era de fato um dos Treze Originais, Enoch voltou a sua forma humana. Ele diminuiu de tamanho, apesar de estar em forma. Seu rosto era quadrado e seus cabelos não eram volumosos e tinham um tom de grisalho muito parecido com seus pelos. A pele era queimada pelo sol, mas ele com certeza havia vindo da Europa, como os outros doze Originais. Seus olhos miúdos tinham o mesmo tom prateado, mas as pupilas voltaram ao normal. Ele estava nu, mas não parecia se importar, como se, de fato, fosse um animal.

– Ela não vai gostar. – A voz de Enoch já não tinha seu lado animalesco. – Nenhum humano...

– Desde Miguel Corte-Real. Sei bem. – Haddock acrescentou. – Não importa.

Haddock usou algumas palavras na Língua Proibida para conjurar um par de calças para Enoch, que deu de ombros e disse para segui-los. Dandara comentou que estavam indo pelo caminho certo.

– É como se eu reconhecesse essas árvores. Tem uma com uma marca de corte um pouco mais alto que você.

Ela tinha razão. Não levou nem dez minutos para verem o corte largo, em diagonal, como se alguém tivesse tentado cortar a castanheira-do-pará. O pescoço de Dandara virou-se para Haddock; se ela tivesse um rosto, estaria fitando-o com os olhos arregalados.

– Sim, também sinto. – Ele sussurrou.

Uma barreira mágica e invisível separava o trio de Akuawa. Haddock já havia encontrado barreiras poderosas; algumas histórias da juventude de Carlos o colocavam contra algumas delas que era virtualmente intransponível, apesar de que o velho Artista fora capaz de rompê-las, mesmo que com muito esforço. Enoch apenas fez um movimento circular com as mãos, abrindo uma entrada circular grande o bastante para que os três passassem.

A barreira abriu-se num túnel com quase cinco metros de largura. O chão emitia um brilho avermelhado e estava quente, como se houvesse um corredor de chamas logo abaixo. Haddock olhou para baixo, descobrindo que algo escamoso, com pontos diversos espalhados emitindo luz própria, como lâmpadas. A magia da barreira vinha dele.

Histórias Curtas do Sétimo UniversoOnde as histórias ganham vida. Descobre agora