Capítulo 03: A Floresta no Meio do Caminho

5 2 1
                                    

Taquar, 2002

Faltavam alguns segundos para a meia-noite. A cabeça de Dandara estava pendurada por um fio de pele, quase literalmente. A torre do relógio tocou doze vezes, e quando o último badalar soou, ela estava completamente transformada.

A cabeça caiu diante de Haddock, assim que tocou o chão, ela entrou em combustão instantânea, em chamas vermelhas sem qualquer traço de azul ou laranja. O mesmo fogo saía de seu pescoço. Então, seus braços e pernas se contorceram; suas mãos e pés tornaram-se cascos; pelo cresceu por todo seu corpo. Dandara foi ao chão, relinchando de dor, mas ao mesmo tempo, havia algo de humano ali que Haddock preferia não pensar a respeito.

Quando seu corpo finalmente aumentou o suficiente, quebrando costelas, ossos e realinhando órgãos, para tornar-se um cavalo, Dandara se levantou do chão. O pelo era marrom, muito mais escuro que a pele de antes. O menino podia ver algo nas chamas, como se alguém dançasse ali. Não tinha certeza se era uma ilusão ou se ele via, de fato, algo ali.

Numa volta estranha, ele percebeu que as chamas estavam refletindo uma de suas memórias, de alguns meses atrás, no Dia dos Namorados. Não, Melanie não era sua namorada – ela deixou isso bem claro para o quebrado coração de Haddock –, mas naquele dia, ela permitiu que eles dançassem para a música de A Bela e a Fera. Ele guardaria aquela lembrança para sempre em seu coração.

– Não olhe direto para as chamas. – A voz de Dandara, porém mais grave e mística, disse quase como se estivesse dentro de sua mente. – Elas têm poder sobre as lembranças dos mortais. Traz à tona, mas se olhar muito, elas serão queimadas.

Haddock, agora fitando o chão, tentou deduzir como ela sabia de tudo isso. Talvez houvesse lido ou o sabia por instinto, a surpresa, porém, foi ela reter a capacidade de retórica mesmo sem uma boca ou cordas vocais. A Magia, como sempre, trazia muitos desconhecidos.

Pegou do crânio de Dandara em meio as cinzas de sua pele e cabelos. Nada ficou para trás, nem mesmo um fiozinho de cabelo. Haddock parou para pensar um pouco, então, conjurou um pode de vidro grande o bastante para coletar as cinzas. Havia magia nelas, portanto, deveriam ser úteis em um feitiço ou outro. Depois, mandou o pote cheio para sua casa.

Com o crânio dentro da mochila de Dandara e esta, por sua vez, nas costas, ele fez menção de subir mula-sem-cabeça, mas as palavras dela o impediram:

– Alguém está vindo. Posso – ela hesitou –, posso sentir suas más intenções.

Não demorou para que Haddock também sentisse a presença; não pelas suas intenções, mas sim pela forte e rústica Magia que ele emanava. O rapaz não tinha certeza se ele era um feiticeiro, era mais como se ela corresse em suas veias; como se fosse parte natural de si, ao contrário dele próprio.

Sentiu o machado vindo pelo ar, rodando em direção a suas costas. Haddock virou-se de repente, brandindo a corrente, agora brilhando verde, com destreza. Atingiu a arma e a lançou contra o chão, retraindo a corrente em um segundo. Então, viu seu agressor.

Ele não devia ser quatro dedos mais alto que Haddock, mas sua figura era larga. Seus braços, quase uma vez e meia maior que a cabeça do menino; seu nariz era uma mistura de adunco com caucasiano, mas era troncudo, como se estivesse quebrado. Os olhos miúdos pareciam não perder qualquer coisa que acontecia ao seu redor.

Trajava uma armadura que era uma estranha combinação de medieval com moderno, apesar de seu capacete parecer ter saído dos livros de Tolkien. Ele sorria perturbadoramente, com dentes amarelos e podres.

Haddock conjurou o mesmo feitiço de mão de fogo, e imediatamente laçou um soco contra o anão. O adversário sacou outro machado que tinha às costas. Este, diferente do primeiro, tinha lâmina dupla feita de bjorn – um raríssimo metal com propriedades mágicas – e ouro. O cabo curto indicava que era para combate mano-a-mano, mas isto não significava que num feitiço ele não pudesse aumentar.

Histórias Curtas do Sétimo UniversoOnde as histórias ganham vida. Descobre agora