Capítulo 02: A Vítima da Maldição

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Taquar, 2002

Apesar de ter localizado o vilarejo, Haddock levou quase uma hora para conseguir encontrar seu caminho através do campo de soja. As plantas eram um pouco mais baixas que ele, mas ainda assim, não conseguia ver muito além de alguns metros, ainda mais devido a escuridão da noite.

Notou a luz vindas de dentro de uma casa longe na campina, como um par de vagalumes paralisados. Soltou o ar de alívio. Fez o caminho em linha reta até lá, sem se importar com quantos pés de soja ele entortava. De perto, a casa era ainda menor do que ele esperava. Devia ter apenas um ou dois cômodos, com o banheiro de latrina do lado de fora, e sem eletricidade. Por um momento, ele achou ter voltado para o Século XIX, mas não, era apenas a realidade daquelas pessoas.

Um homem, já com seus sessenta anos, atendeu a batida com uma pistola na mão, mas assim que viu tratar-se de uma criança, abaixou-a, dizendo:

– Aqui não tem esmola não, moleque.

– Não preciso de dinheiro. Estou procurando uma pessoa. – Ele respondeu em tom solene, como se fosse um policial das séries americanas de TV. – Dandara Ferreira.

Antes Haddock tivesse pedido por trocados. A carranca do velho foi de surpresa para ódio em menos de um segundo. Bateu a porta imediatamente em seguida. O menino revirou os olhos.

Mundhak agaè.

Tais palavras aumentariam a foça física dos braços magros e infantis de Haddock. Jamais que ele seria capaz de impedir que o homem fechasse a porta. Ele mesmo com a idade que tinha, tinha anos e anos de trabalho braçal com enxadas e outros equipamentos que Haddock não conseguia nem imaginar. Sem magia, ele era apenas mais uma criança. Bateu na porta outra vez, agora com mais intensidade e determinação.

– Aquela vagabunda não está aqui! – O homem vociferou, reabrindo a porta. Dessa vez, manteve sua pistola apontada para o menino.

– Onde eu...

Sua mão foi direto para a madeira, quase deixando sua impressão na madeira. O homem arregalou os olhos quando percebeu a força que o menino tinha, superior à sua própria. Tentou disparar, mas duas palavras rápidas de Haddock lançou-a para dentro do cômodo.

– Onde eu a encontro? – disse entredentes. Ainda requeria esforço físico manter a porta aberta.

– Na, na – o homem gaguejou. Seus olhos eram puro medo. – Na cidade. Ouvi dizer que ela está morando na rua.

– Como chego na cidade?

– Só seguir a estrada de terra que saí do portão da fazenda. Vire à direita.

Ele apontou com os dedos trêmulos por cima do ombro de Haddock, que virou a cabeça para ver, com o canto dos olhos, uma porteira há alguns metros de distância. Agradeceu e, lentamente, Haddock soltou a porta. Apenas depois que o menino deixou a soleira foi que ele fechou a porta, mais rápido do que necessário. O menino até ouviu-o pegar e engatilhar a pistola. O pobre coitado devia estar apontando para porta, esperando uma batida que jamais viria.

Haddock descobriu que deveria ter perguntado quanto tempo levaria para chegar na cidade, se é que essa palavra poderia descrever o minúsculo local, já que apenas quando sol começou a clarear foi que avistou o primeiro sinal de vida. Nenhum carro ou carroça passou por ele durante toda a madrugada.

Taquar era nada além de uma minúscula rua, com o total de cinco prédios, dois de cada lado e uma igreja católica à frente. Todos eles tinham a aparência antiga e maltratada; e se um dia tiveram alguma cor, Haddock não saberia dizer quais eram.

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