Morena Luz e Gustavo Marinho

- D23... - Morena estava lendo seu ticket de embarque com sua bolsa de mão a tiracolo, tendo despachado a mala para ter mais mobilidade na hora da viagem. Não gostava muito de despachar, porém, mas como, desta vez, a viagem era mais longa e ela tinha uma mala mais rechonchuda, achou melhor. - Te achei.

Encontrou sua poltrona no corredor, posicionou sua bolsa na parte de baixo do assento da frente, fechou a janela da sua fileira, mesmo sabendo que não era bem sua propriedade, visto que estava no corredor. Acomodou-se em sua poltrona e tentou relaxar, embora aviões costumassem lhe deixar um pouco nervosa.

Apertou as mãos no colo, ansiosa. Os passageiros estavam lotando o avião e ela ficou admirando-os procurarem seus lugares e os três funcionários, duas moças e um rapaz, auxiliarem aquela pequena multidão a guardarem suas malas de acordo com os procedimentos de segurança que Morena fazia questão de saber de cor.

Quando a movimentação de passageiros começou a acalmar, Morena puxou a cartela de procedimentos de segurança da bolsinha na poltrona na frente e se pôs e relembrar as posições mais seguras em caso de acidente. Porque ela gostaria de sobreviver, caso o avião caísse, embora esperasse que não acontecesse. Nunca tinha acontecido até então e que continuasse assim.

Foi enquanto repetia algumas informações mentalmente, e mexendo os lábios como uma retardada, que uma aeromoça passou ao seu lado e ela achou por bem atacá-la como uma zumbi desesperada por cérebro, mas, em seu caso, apenas ansiosa que aquilo começasse e acabasse logo.

- Oi! Oi! Com licença! - Chamou, mostrando boa parte do seu desespero em sua voz.

A aeromoça voltou até sua poltrona com um sorriso complacente de quem estava acostumada com gente nervosa para voar. Alguns surtavam nos minutos anteriores à decolagem e ela estava apostando que Morena era uma dessas pessoas difíceis, gritando por ajuda e apertando a cartela de procedimentos de segurança. Tentou logo a pergunta que lhe deixaria com mais tranquilidade, rezando para que a mulher de cabelos curtos e olhos verdes amarelados aceitasse e não desse trabalho.

- Olá. Precisa de um calmante? - perguntou, educadamente.

Morena piscou algumas vezes para a pergunta inusual que aquela aeromoça estava lhe fazendo. Pensou consigo mesma se precisava de um calmante e definiu que não, ela já tinha viajado várias vezes e embora ficasse tonta, principalmente na decolagem e no pouso, conseguia passar por aquilo sem remédios.

Mas não exatamente sem pirar. Claro.

- Não, tudo bem - disse. A aeromoça não acreditou muito naquela história, mas achou melhor fazer as vontagens da passageira. - Você sabe se vai demorar muito para... - respirou fundo, a barriga se revirando com o nervoso mesmo apenas à menção do fato. - ... Decolarmos?

A aeromoça cerrou um pouco os olhos em direção a mulher, mentalmente criando um plano para lhe oferecer uma bebida qualquer com um calmante diluído pelo bem da viagem e dos outros passageiros.

- Em alguns minutos. Estamos terminando o embarque e as portas já vão ser fechadas.

Morena engoliu a seco.

- Obrigada.

A mulher balançou a cabeça para Morena e se afastou para uma das extremidades do avião. Morena respirou fundo, tentando controlar seu coração, batendo com uma velocidade deliberadamente mais rápida e o seu estômago, que parecia dar cambalhotas e piruetas em sua barriga, mesmo que com pouco espaço para tal festa.

Olhou, então, para as duas poltronas ao seu lado, sabendo que uma delas deveria estar ocupada, com toda a certeza. Seu abominável companheiro de projetos, de prêmios e daquela viagem, já deveria ter chegado até aquele momento, mas ele era um atrasado crônico e ela não podia esperar diferente.

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