1.1 - A ANSIOSA e 1.2 - O DESLEIXADO

Começar do início

Olhou o relógio em sua cabeceira ao voltar para o quarto, vendo que tinha tempo, embora pouco. Guardou seus novos pertences e fechou a mala de uma vez - que a sorte a abençoasse em não esquecer nada daquela vez - e calçou os tênis que separara para aquela viagem até Porto Alegre, onde suas férias extras a esperavam, mais um dos prêmios adoráveis e super merecidos que ela recebera, embora não tivesse tanta certeza do que estava fazendo.

Um cruzeiro de três semanas com todos os destaques da empresas que faziam parte da União Brasileira de Arquitetura e Urbanismo, de Porto Alegre até o Caribe, onde passariam uma semana e voltariam de avião para suas respectivas cidades. Gente de todo o país, que trabalharam em diversos projetos maravilhosos, estariam naquela viagem. E a única pessoa que Morena conhecia era o seu intragável parceiro de projeto.

Precisaria corrigir isso rapidamente.

Convencida que estava tudo em ordens, Morena foi até sua bolsa de mão e colocou-a sobre os ombros, voltando para a sua mala, em cima da sua cama, e colocou-a no chão. Arrastou-a até a sala, pegando a chave da porta que deixara sobre a mesa, quando o seu celular tocou. Pôs a bolsa sobre a mesa e tirou o aparelhinho vibrante de dentro dela, fazendo uma careta ao olhar a bina.

- Oi, mãe - cumprimentou-a educadamente, embora não pudesse ser em pior hora.

"Oi, filha! Tô atrapalhando?"

Morena respirou fundo antes de responder, para não dizer a verdade.

- Claro que não, mãe, você nunca atrapalha - ludibriou a mãe, que riu.

Márcia Luz não era uma mulher boba e, acima de todas as coisas, conhecia a filha muito bem para identificar sua impaciência, mesmo que com poucas palavras. Porém, naquele momento, estava cega. Cega de preocupação de mãe ao desconhecido para ela.

"Só queria saber como andam as coisas, filha. Você arrumou sua bolsa direitinho? Não esqueceu nada?"

- Não, mãe, tá tudo certo. - Morena respirou fundo mais uma vez e resolveu que sua melhor opção era continuar andando e rezar para que a ligação caísse quando ela entrasse no elevador. - Como andam as coisas aí na pensão?

Márcia, além de uma super mãe, era uma mulher muito centrada. Haviam poucas coisas que a deixavam deslumbrada e animada como uma adolescente. Falar das conquistas das suas filhas, sobretudo de Morena, que se tinha muito para falar, era uma dessas. A outra, era a pequena pensão que sua família cultivara através dos anos e sustentara a todos até então.

"Ai, filha, você não sabe o que deu no seu pai". Morena já estava rindo antes mesmo de se começar a história. Histórias com seu pai "dando" pra fazer alguma coisa sempre eram hilárias. "Ele resolveu que os hóspedes deviam ter Wi-Fi, mas não quis chamar nenhum técnico, você sabe como ele é". Morena concordou, empurrando sua mala para fora do seu apartamento e fechando a porta atrás de si. "Passou o dia embolado com fios, lendo o tal do manual sem parar, até que dormiu. No chão mesmo". Morena riu, balançando a cabeça. Soltou um "bom dia" apressado para o seu vizinho que abriu a porta para pegar o jornal que o porteiro sempre deixava em seu carpete. "A Branca tinha ido na casa de uma amiga e chegou tarde em casa e encontrou o pai dormindo. Instalou o tal do Wi-Fi em cinco minutos. Seu pai acha que foi ele, antes de dormir". Morena soltou uma gargalhada, arrastando sua mala até a porta do elevador, apertando o botão para descer, e sua mãe a acompanhou. "Sua irmã está sendo tão responsável com a pensão, filha. Tá fazendo todas as coisas pra ajudar a gente. Acho que ela ama isso aqui tanto quanto eu".

Morena fechou os olhos e tentou controlar seu gênio, sempre tão forte, para evitar ter que dar a resposta que queria para sua mãe. Uma daquelas mágoas que o tempo nunca curava. Márcia sempre instigava Morena a ajudar na pensão, mas ela não gostava muito. Estava sempre atolada de estudos, trabalhos e responsabilidades que sua genialidade exigia, mas que os pais não compreendiam na época. As discussões na adolescência e no início da vida adulta, antes que ela conseguisse sua independência financeira e se mudasse para seu próprio lugar, tinham sido constantes. E agora lá estava Márcia, lhe dizendo que a sua irmãzinha estava ouvindo-a e fazendo as coisas que Morena nunca fora capaz.

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