Morena e Márcia Luz

Havia algo diferente no apartamento aquela manhã.

Talvez fosse a falta do barulho do chuveiro ligado, sempre impecavelmente entre sete e sete e quinze, talvez fosse a falta do cheiro único e incomparável do café mais cuidadosamente preparado da região, por mãos atenciosas e de muita experiência em tal feito, devido aos anos em que tomara aquela função para si na pensão dos pais. Agora, a moça dos cabelos curtos e olhos sempre bem delineados, apenas se dava ao luxo de preparar aquela bebida fervente e afrodisíaca para si mesma.

Naquela manhã, porém, não se ouvia o típico barulho de gotas caindo e o zumbido constante da cafeteira enquanto a dona da casa se arrumava. Não havia a TV ligada sempre no noticiário da manhã, para se informar de tudo que perdera nas horas passadas em projetos e mais projetos, além de informá-la qual o melhor trajeto a ser feito para o seu trabalho. Não se ouvia, também, as batidas agudas das pontas do salto da mulher, enquanto ela andava de um lado para o outro, pegando suas coisas para sair.

A sinfonia daquela manhã era um pouco diferente e muito mais agradável, embora mais desesperada do que muitas das manhãs atrasadas, quando os papéis voavam e o café acabava sendo tomado apenas pela metade, deixando a xícara manchada de batom vermelho e café preto suja em cima da pia.

Não.

Naquela manhã, tudo estava diferente. De uma forma boa, ela achava. Todavia, ainda não tinha muita certeza sobre.

A melodia daquela manhã era mais sobre zípers e portas da madeira. Os pés estavam ainda descalços, o cabelo ainda estava levemente bagunçado do banho recém tomado e não havia rastros de maquiagem alguma no rosto da mulher de vinte e nove anos, a mais promissora designer de interiores da sua geração.

Promissora. Morena odiava aquele termo. De acordo com ela, aquele termo dizia que ela ainda seria bem sucedida, mas ela achava que já o era, obrigada. Seus trabalhos sempre acabavam ganhando um prêmio ou outro, exceto o fiasco de três anos atrás, que não dera em nada. O último, porém, tinha sido agraciado com um dos dez melhores projetos de arquitetura e urbanismo do ano no país. E estava na lista dos cinquenta melhores do ano no mundo, dando a ela a chance de subir mais alguns degraus da escadaria do sucesso.

Na parede da sala, orgulhosamente, havia um quadro que destoava um pouco da decoração do ambiente, talvez por ser recente demais e os olhos ainda não estivessem acostumados a ele. Nele, havia um recorte da lista dos 30 abaixo dos 30. A lista dos 30 jovens que se destacavam em suas posições e tinham menos de 30 anos, onde Morena saíra naquele ano.

Estava orgulhosa de si mesma, dos prêmios que conquistara e da sua carreira que estava decolando. Além do salário, é claro, que aumentara outra vez. Isso, com certeza, era uma premiação divina às provações que ela tivera que passar com o seu parceiro intragável de projeto.

Balançou a cabeça, tentando desnublar os pensamentos, enquanto rechecava sua mala pela quinta vez, tentando não esquecer nada. Tinha o dom de listar mentalmente todos os objetos de suma importância antes de viagens, mas sempre acabava esquecendo ao menos uma coisa importante, como sua escova de dentes.

Era isso.

Morena correu para o seu banheiro e abriu os espelhos em cima da pia, retirando sua escova de dentes do suporte e procurando uma de suas caixinhas de emergência. Guardou-a, então, com a pasta de dentes e o fio dental. E movimentada por sua rompância, acabou recolhendo alguns absorventes internos para acoplar em sua necessaire. Aproveitou que estava ali e penteou seus cabelos curtos, maquiou os olhos e passou seu costumeiro batom vermelho. Achava que, embora sua maquiagem cotidiana fosse simples, ficava com uma cara de mulher fatal que a permitia brigar diariamente na sua profissão, tendo homens majoritariamente como companheiros de trabalho e subordinados.

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