Capitulo II

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Laura estava sentada na calçada. Era fim de tarde, e seus pensamentos estavam longe enquanto olhava para o céu alaranjado.

Decidiu que não iria mais lamentar pelas coisas que estava deixando para trás, queria pensar no que seria dali para frente, em como seria viver naquela cidade. Teria que achar um trabalho ou ficaria louca. Por mais que cogitasse mil possibilidades, nenhuma parecia razoável. Sabia que dinheiro não era um grande problema, dava para viver sem muitos luxos com a renda que tinham, mas não conseguiria se manter sã se não ocupasse a mente.

Clarinha saiu de casa e chamou para um sorvete. Foram caminhando até a sorveteria falando sobre filmes e músicas. Só tinha duas semanas longe da irmã caçula, mas parecia uma eternidade.

Laura pediu de pistache e Clarinha de morango. O céu já estava mais escuro depois que o sol foi embora. Sentaram em uma mesa ao ar livre olhando o movimento calmo na rua.

_Eu sei que você não queria vir, mas estou feliz que esteja aqui.

_ Nunca ficaria longe de você e da Tia Mercê.

_ Posso cuidar dela mana.

_ E aí quem cuida de você?

_ Não quero que você desista de tudo o que pode ser seu futuro por achar que precisa cuidar de nós. E tenho certeza que mamãe não quer isso também.

_ A minha obrigação é cuidar de vocês, e a de vocês é cuidar de mim. Vocês são minha casa, eu vou aonde as duas forem. Não quero mais falar disso!

_Você sempre vai ser minha mana independente da distância. Não é como se não houvesse internet no mundo e a gente não pudesse se falar todo dia.

_ Maria Clara! Já foi decidido! Toma aí o seu sorvete e muda de assunto.

Terminaram o sorvete e resolveram ir caminhando até a praça da igreja. Laura falava em como aquele lugar permanecia o mesmo desde que foram embora. Clarinha ainda era muito nova para se lembrar, tinha cinco ou seis anos no máximo. Sentaram em um banco, olhavam para o céu e riam de bobagens sem sentido algum.

_ Laurinha? - era um homem alto de cabelos bem pretos e voz grave.

Ela sabia que seria questão de tempo até ser reconhecida por alguém que a conheceu criança, e desejava sinceramente que demorasse bastante. Mas de toda forma ela não fazia ideia de quem era aquela homem com aparência de ser apenas alguns anos mais velho do que ela. Tentou de verdade puxar da memória, escaneou mentalmente as possibilidades, mas realmente não se lembrava.

_ Ouví dizer que vocês estavam de volta, sabia que te reconheceria...

_ Me desculpa, eu não... - não dava para disfarçar o quanto estava confusa.

_ Sim, não se preocupe. Ricardo, lembra? Minha irmã tinha a sua idade, vocês sempre brincavam lá em casa antes de... de ela partir.

E então Laura lembrou da amiguinha, Lara, que havia morrido aos 11 anos de algum problema no coração ou algo assim, ela não sabia direito. Afastou os pensamentos tristes da cabeça e voltou-se para o homem, lindo por sinal. Parecia que as luzes da noite e o seu sorriso se encaixavam perfeitamente.

_ Nossa! Claro! Claro que eu lembro. Você nos dava chocolates escondido antes do almoço. Quanto tempo! Eu pensei que vocês não moravam mais aqui.

_ Só eu voltei... Acho que é um bom lugar para recomeçar.

Ficaram alguns segundos no ar aonde ninguém sabia o que dizer.

_ Oi, eu sou a Maria Clara. Clarinha. A irmã mais nova.

_ Sim, eu me lembro. Você cresceu bastante desde a última vez que te vi. Mas você já deve ter ouvido isso bastante por aqui.

_ Ouvi sim, mas até que eu gosto.

_ Bom, vou deixar vocês em paz. Boa noite. A gente se vê por aí Laurinha.

O homem foi embora depois de olhar algumas vezes para trás. As duas irmãs se entreolharam e a risada foi inevitável.

_ Mal chegou e já se deu bem, ein mana!

_ Nossa! Tá bonito ele, né?    

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