Capítulo I

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Já tinha muito tempo que ela havia pisado ali, uns dez anos pelas suas contas. Talvez um pouco menos. Mas parecia que foi ontem que esteve entre aqueles prédios baixos e casas coloridas com grades na frente. Chegou na porta da igreja e teve a impressão de que o tempo não passava naquele lugar.

Do outro lado da rua, depois da praça, ficava a escola. E estava do mesmo jeito que ela se lembrava: redes de ferro azuis que deixavam quem tava de fora ver o imenso pátio com campos de jogos pintados no chão. Pensou que provavelmente as salas de aula continuavam as mesmas, com chão de azulejos e paredes brancas lotadas de cartazes feitos pelos alunos.

Ficou por ali um tempo, talvez vinte ou quinze minutos, e foi para casa arrastando a mala. Era uma mulher de 23 anos, 1,70m e 95 quilos distribuídos em uma cintura fina, peitos grandes e quadril largo. Um tanto de barriga, mas ela sinceramente não se incomodava. Sustentava o cabelo vermelho e algumas tatuagens com auto estima suficiente para perceber o quanto era linda e atraente.

Chegou no portão e não se assustou ao perceber que era a mesma casa de grade e telhados amarronzados, parede branca, janelas azuis e um grande alpendre na frente. Com o coração apertado, lembrou da cachorra Lili que a ensinou a andar: Laura segurava nas costas dela e dava passinhos inseguros. Lógico que não lembrava disso, mas já tinha ouvido tanto essa história que era como se lembrasse. Lili havia sido sua companheira de infância, sempre atrás dela até morrer de velhice.

Parou e quase podia sentir o cheiro da sua mãe. Já fazia tanto tempo...

_ Laura, minha filha! Você chegou! Tá esperando o quê para entrar?

Era Tia Mercedez. Tinha nascido como Mário e gêmeo do seu avô, mas para Laura sempre foi Tia Mercê. Ela havia sido a única família que lhe restara quando seus pais morreram há quinze anos atrás. Não queria que tivessem morrido, mas não podia reclamar de tudo que a tia havia sido para ela. Foi pai e mãe impecável, dando amor e um bocado de bronca quando precisou. Nunca lhe faltou nada.

_ Eu só tava aqui lembrando da Lili. Nada mudou por essas bandas né tia?

_ Mudou sim meu amor. Fomos embora e voltamos muito diferente do que éramos.

_ É verdade.

_ Você vai se acostumar querida. Essa sua tia aqui já tá velha e precisa de um pouco de sossego.

_ Para com isso, a senhora não está velha.

_ Tudo bem, mas na idade que eu tô eu preciso de sossego. E eu já disse que você poderia ter ficado lá morando sozinha, tenho certeza de que se viraria muito bem.

_Não vou te deixar tia. Aonde a senhora for eu vou.

_ Eu não sou inválida Laura, eu posso cuidar de mim e da sua irmã!

_ Não vou mais discutir isso tia. Vou subir e desfazer essa mala.

Tia Mercê realmente não era inválida. Na verdade era até muito independente para uma senhora de 75 anos. Mas a sua saúde já não era mais a mesma. Só a ideia de a tia precisar e ela não estar por perto lhe dava profunda agonia.

Foi para o antigo quarto, visivelmente recém pintado, mas com o mesmo verde clarinho de quando era menina. No lugar da antiga escrivaninha uma outra bem novinha e muitas prateleiras em cima já com seus livros acomodados. O guarda roupa e o raque ainda eram os mesmos, mas a tv era nova. A cama de antes tinha dado lugar a uma bem maior e com cara de confortável.

_ Não sei porque eu tenho que ficar com sua cama velha enquanto você fica com essa cama enorme aqui.

Era Clarinha, que já foi tratando de entrar e pular na cama.

Maria Clara era a irmã mais nova. Havia sido adotada por Tia Mercê quando tinha três anos, depois de passar por alguns orfanatos. Coincidentemente ela havia nascido no mesmo dia da morte dos pais de Laura, e isso parecia um sinal forte do destino de que aquele anjinho deveria ficar com elas. Era negra de olhos grandes e cabelos crespos. Crescia rápido e ficava cada vez mais linda e amorosa. Não era como a maioria dos adolescentes, não havia nada de rebeldia nela. Ás vezes Laura pensava que provavelmente era a mais ajuizada da casa, mesmo só tendo quinze anos.

_ Você pode dormir comigo se quiser. A cama é grande o suficiente para nós duas.

_ Tá brincando? Agora que tenho um quarto só pra mim faço questão de dormir lá.

Laura riu da irmã e jogou um travesseiro. Então começou a desfazer a mala devagar acomodando tudo no guarda roupa velho, mas com cheiro de que havia sido limpo recentemente.

_ Mamãe e eu limpamos tudo antes de você chegar. Cada cantinho. Ela estava preocupada com a sua reação ao chegar aqui. Você está bem mana?

Sentiu um aperto na garganta e uma vontade de gritar que não, não estava tudo bem! Ela tinha se formado a menos de um ano e não gostava nem de pensar em quantas oportunidades estaria perdendo longe da cidade grande.

_ Estou bem sim. Vou acabar me acostumando.

_ Eu tô adorando! A casa é grande, vou poder plantar uma horta e criar um cachorro. Posso ir para a escola a pé, sem trânsito. Temos internet e tv a cabo. O que mais eu poderia querer?

Tia Mercê entrou no quarto e Clarinha continuou falando sobre tudo o que tinha achado legal na cidade enquanto as outras duas desfaziam a mala de Laura. E então pensou que com certeza aquela era a família mais incomum daquela cidadezinha. Uma idosa transsexual, uma jovem de tatuagens e cabelos coloridos, e uma adolescente negra super inteligente que agia como adulta. Ela sempre teve consciência, de que aquela não era uma família convencional, e amava aquelas duas mulheres mais do qualquer outra coisa no mundo. Por elas seria capaz de tudo, inclusive se mudar para uma cidade que estava longe de todos os seus sonhos.

Terminaram de arrumar tudo e foram para a cozinha. Clarinha falava sem parar sobre todas as coisas que queria fazer para deixar a casa mais colorida e cheia de vida. Tia Mercê fazia chá, separava os biscoitos e rebatia sobre a possibilidade de ter um cachorro. Laura só observava as duas tagarelas com certeza de que não deveria estar em nenhum outro lugar do mundo.

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