COMO ESTAR SEM CHÃO...

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Abro os olhos com dificuldade
A luz do sol dificulta minha visão
Sinto meu corpo pesado, minha cabeça dói e sinto um pouco de enjoou.

Olho para a janela ao lado da cama, está fechada, mas a cortina branca deixa o sol entrar no quarto.
Tento me sentar na cama, sinto uma pontada na cabeça, solto um gemido de dor alto.

- Ei, calma Keni, não esta na hora de fazer movimentos bruscos. - ouso uma voz feminina e passos rápido em minha direção.

Sinto seu toque no meu braço, me impedindo de levantar.
Consigo abrir meus olhos novamente, o bastante para conseguir ver a imagem da pessoa do meu lado. Percebo logo a cor verde em seu cabelo curto a cima dos ombros.

- Como...como sabe meu nome? - balbucio

- O seu nome eu descobri lendo a sua ficha, mas seu apelido eu soube pela sua amiga Glória. Ela disse que prefere ser chamada assim. - ela disse

- Glória está aqui? Onde eu estou? - digo olhando ao redor, forçando a vista, estou sem lente de contato.

- Você está no hospital, trouxeram você para depois de uma briga. - ela contou olhando para sua prancheta.

- Briga? Eu... não me lembro.

- É normal. Você bateu a cabeça forte mas não foi grave. - ela me contou e algumas memórias vieram aos poucos - você ficou desacordada por algumas horas...

- Horas!? Eu tenho que ir pro trabalho! Que horas são? - digo tentando me levantar mas novamente sou impedida pela mulher de cabelos verdes.

- Você não vai a lugar nenhum! - escuto outra voz vinda de fora do quarto. Consigo ver claramente a silhueta de Glória - Já falei com a diretora, ela te liberou até que se recupere totalmente.

- Glória...oi - tão bom ouvir uma voz conhecida.

- Tá tudo bem, Vanessa, cuido dela agora. - Glória diz para a mulher que agora sei o nome. Vanessa sai do quarto,nos deixando a sós - Eu trouxe isso pra você.

Ela coloca meus óculos e agora consigo ver tudo claramente.
Estava em um quarto de hospital todo branco e grande, mas só tinha a minha cama ali.

- Eu nunca tinha vindo nesse hospital. - certamente não teria dinheiro pra isso nem juntando meu salário de 1 ano.

- Depois que me ligou, dirigi até sua casa mas vi alguns carros de polícia na frente do restaurante onde fomos aquela noite - engulo seco lembrando daquela noite estranha - quando cheguei para pedir informações, os policiais disseram que mandaram você para o hospital público da cidade, fui lá e pedi para transferirem você pra cá, assim posso gerenciar melhor sua situação - ela diz se sentando na cama.

- Gerenciar?

- Mas não deveria estar aqui, mocinha - uma voz grave invade o quarto, dessa vez masculina. - deveria estar no escritório.

- Papai - Glória diz, de repente saindo da cama e ficando de pé olhando o médico vir até mim - tecnicamente estou aqui a trabalho também.

- Como está se sentindo? Tire os óculos por favor. - Doutor Reginaldo pergunta, ignorando a filha, ficando uma luz em meus olhos.

- Um pouco tonta - respondo.

- Ok. Está bem, nenhum sinal de hemorragia - ele diz, olhando agora meu ouvidos e subindo meu queixo com um dedo para que eu erguesse a cabeça e olhar meu nariz - muito bem. Você teve sorte das bancadas que levou não serem graves, sempre soube que era uma cabeça dura igual ao seu pai.

Ele diz com um sorriso no rosto
Doutor Reginaldo e meu pai, assim como Glória e eu, foram amigos na infância. Pena que meu pai não tem a mente tão aberta quanto seu melhor amigo.

- Você vai sentir uma dor de cabeça por um ou dois dias, mas nada que um remedinho não resolva - Doutor Reginaldo diz colocando a lanterninha no bolso do casaco - mas além disso, descanse bem e nada de estresse. Chega se heroísmo por uns dias.

"Sem estresse? Será que isso é possível? Sou professora" - penso.

- Heroísmo? - lembro de suas últimas palavras e me veio na memória os motivos pelo qual vim parar aqui. Olho para Glória, que desvia meus olhos - Nanda também está aqui? Como ela está? E... Aquele cara? O que aconteceu com ele?

Percebo que minha voz ficou áspera ao perguntar sobre o maldito pai de Nanda.

Glória respira fundo e, antes que Dr Reginaldo falasse algo, ela toca seu braço como em sinal. Eles se olham e afirmam com a cabeça como se estivessem tendo uma conversa por telepatia.

- Vou deixar vocês a sós - são suas únicas palavras antes de sair da sala, fechando a porta, deixando apenas Glória e eu.

- Glória... Por que esse suspense? O que está acontecendo?

- Keni, pra que eu possa lhe contar tudo você precisa se acalmar. Lembre do que meu pai disse por favor - Glória senta na cama, colocando suas mãos sobre as minhas.

Essas coisas me deixam nervosa e um pedido desse só piora as coisas, minha ansiedade piora as coisas, mas respiro fundo três vezes lentamente como uma meditação. Afirmo com a cabeça para Glória.

- Quando cheguei no hospital que estava antes, fui atrás de informações sobre o que tinha acontecido, uma das polícias que chegaram na hora da ocorrência me disse que quando chegou viu o acusado Jorge Vasconcelos enforcando você contra a janela, ela pediu para que ele se rendesse, mas não a obedeceu. Ela então deu um tiro de aviso mas Jorge pareceu não ligar, então ela tirou outra vez, mas dessa vez acertou na costa de Jorge, o que o fez cair. A policial disse que você ainda estava acordada. Logo que os reforços chegaram, Jorge e Ana foram levados para o hospital e você me ligou enquanto ainda estava no quarto, mas logo desmaiou quando tentou ficar de pé.

Glória fez uma pequena pausa enquanto as memórias voltavam para minha cabeça, mas logo voltou a falar.

- Depois que a policial me contou tudo isso, fui a sua procura. Uma enfermeira me levou até seu quarto, fiquei feliz em saber que não era nada grave, mas queria você aqui sobe os cuidados do meu pai, mas como não sou sua responsável legal sobe essas circunstâncias... Liguei pra sua mãe.

- Ligou pra minha mãe?! - quase gritei - nossa ela deve... Quase ter tido um treco!

Cobri meu rosto com as mãos.
Glória fez o que qualquer amigo faria, mas mesmo assim não queria que minha mãe sentisse o desespero que deve ter sentido só de saber que sua cria está no hospital.

- Ela ficou assustada, mas consegui explicar tudo certinho e sua mãe pode ficar calma. Então... Enquanto sua mãe assinava sua transferência, fui buscar saber sobre a vítima Fernanda Vasconcelos. Me identifiquei como Advogada e um enfermeiro me levou até o quarto dela. O médico que estava atendendo Fernanda me deu detalhes sobre sua situação, querendo colaborar para o caso - Glória fez outra pausa um pouco mais demorada. Fiquei calada tentando assimilar tudo e não deixando que o nervosismo tomasse conta da situação - ele me contou sobre as várias lesões que Fernanda tem pelo corpo, muitas talvez feitas por cintos, cordas, e até um tipo de ferro... foram feitos exames para confirmar se teve algum ato de agressão sexual, exames de sangue e então tiveram o resultado.

Glória se calou de repente, se levantando da cama, parecendo sentir enjoou. Eu não consegui segurar minha lágrimas escutando toda aquela atrocidade... Tudo o que Nanda sofreu nas mãos daquele monstro, sem contar a ninguém...
Glória se virou para mim de novo, soltando a respiração.

- Provavelmente ele tem feito isso a anos, desde que sua esposa morreu. Esse cretino machucou a própria filha por anos e agora... - Glória enxugou os olhos - ... agora os exames mostraram que Fernanda está grávida do próprio pai.

De repente tudo ao meu redor para
Sinto um frio na barriga junto de uma tontura, como estar sem chão eu caio e minha visão se escurece.

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