Capítulo 1 - Perdida dentro de mim

536 25 7

“...e aqueles que se casarem enfrentarão muitas dificuldades na vida.” 1 Co 7,28b

Outono de 2013, Guarapuava - PR

Samantha tateou no escuro em busca do seu celular que já tocava pela terceira vez. Precisou colocar no mais alto volume para ter a garantia de que ele a acordaria. Não acreditava que já era hora de se levantar. Parecia que havia acabado de se jogar na cama. Sentiu vontade de se enrolar mais firmemente no edredom quentinho e não se privar da cama aconchegante. A cada dia tinha a impressão que as noites se tornavam mais curtas e as horas de descanso estavam insuficientes para dar ao seu corpo cansado o devido tempo de restauração. O dever a chamava para mais um dia de labuta.

Estava tão cansada que acabou se rendendo a mais dez minutinhos de sono. Colocou o celular na função soneca outra vez e apagou instantaneamente.

Aquela coisa já estava atormentando seu juízo outra vez a garota reagiu irritada ao som insistente do pequeno aparelho. Como sua soneca havia passado rápido. Nem sentiu o efeito sobre os ossos doloridos.

Rolou na imensa cama e não encontrou o corpo do marido ao seu lado. Samantha não gostava quando ele passava as noites no trabalho; elas eram bem inquietas quando ele não estava por perto, e por mais cansada que estivesse nunca conseguia relaxar completamente - mais ainda depois de um jantar tão estressante quanto tinha sido o da noite anterior. Ter sua sogra por perto não se revelava uma tarefa das mais fáceis. A mulher fazia questão de ser o centro das atenções onde quer que fosse e como sempre conseguiu estragar mais aquela tentativa de aproximação. Só que Samantha não queria começar o seu dia com o mesmo sentimento da noite anterios e procurou esquecer o episódio.

Abriu um dos olhos de cada vez, com certa relutância. Demorou alguns segundos para se equilibrar sentada na beirada da cama. Quando acreditou que estava mais acordada do que dormindo, iniciou uma breve oração. Teve vontade de pedir a Deus que o dia tivesse mais que vinte e quatro horas, mas acreditou que seu pedido não seria atendido e resolveu elencar outras petições que entendeu serem mais realistas.

O quarto ainda estava escuro. Também era tão cedo. O som do uivo do vento balançando as araucárias que rodeavam sua casa fez o corpo de Samantha arrepiar-se só de pensar no frio que deveria estar lá fora. Nem o sol havia dado o ar da graça naquela manhã e ela já tinha de se levantar se pretendia chegar no horário certo ao seu trabalho.

Nem acreditava que havia conseguido aquele emprego. Tânia mais uma vez fez a diferença e mostrou-se uma boa amiga como sempre, indicando-a para a vaga. Sua mãe também tinha participação na conquista, pois como amiga de longa data do dono da Escola Ágape, intercedeu em seu favor. Já estava difícil entrar no mercado de trabalho mesmo tendo boas referências, imagine com um currículo como o de Samantha que não era lá um dos mais recheados.

Não acreditava que estava ali a realização de sua vida, mas foi um passo importante depois de tantos anos se dedicando exclusivamente à casa e à família. Há muito tempo ansiava pela oportunidade de dar continuidade aos estudos e se projetar profissionalmente. Teria de ser paciente e dar um passo de cada vez. Precisava conter a ansiedade e não pôr tudo a perder. Riu deste pensamento, afinal, paciência não era uma de suas qualidades.

Onde estavam suas meias? Não acreditava que havia dormido sem elas. Tateou o chão com as pontas dos dedos buscando pelas sandálias que deveriam estar ao lado de sua cama e nada. Apenas o piso extremamente frio, foi o que encontrou. O choque térmico deu-lhe a força que faltava para se levantar de vez.

À Espera de um adeusOnde as histórias ganham vida. Descobre agora