Capítulo 1

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          Magia.

          Qualquer pessoa sensata diria que sou louco. Onde já se viu falar de magia empleno 2038? Mas, cá entre nós, os ignorantes são aqueles que negligenciam o que não conhecem. Os magos estão aí pelo mundo, vivendo entre os humanos comuns. Inclusive,são eles que controlam tudo: política, mídia, exércitos...

          E eu, Gustavo dos Anjos, um lindo moreno no auge dos seus 1,74 metros de altura,de olhos azuis como cristais marinhos e cabelos vermelhos encaracolados que dão inveja a qualquer modelo, sou um desses magos. Ou melhor, um dos seus Herdeiros — sim, essa denominação idiota é usada para chamar os filhos de magos. E não, eu não sou um zé ninguém sem poderes que protagonizaria um "animê de lutinha" qualquer. Na verdade,sempre fui muito elogiado pelas minhas habilidades. Um "prodígio" nas palavras dosmeus professores.

          Mas quer saber o que eu acho disso tudo? Um saco. Se eu pudesse tirar a magiada minha vida e viver em paz, faria sem pensar duas vezes. Infelizmente, como filho deum dos maiores apoiadores do rei e do Novo Império Brasileiro, seria uma desonra pra minha família se eu não me matriculasse em uma escola de magos... E não qualquer escola, justo a Academia Tainá, uma das escolas mais conceituadas do mundo.

          Que belo "privilegiado" eu sou, pensei, suspirando.

          Olhei ao redor, a luz matinal ardia um pouco, mas nada realmente incômodo.Alguns modelos de eletrocarros flutuavam com calma na rua enquanto outros cruzavam no céu como insetos em busca de comida. Eu estava num dos bairros residenciais daclasse alta, por isso diversos prédios, com seus vidros coloridos e extravagantes, me davam eventuais sombras para descansar. Muitos dos androides que mantinham amanutenção da rua me olhavam com sua indiferença costumeira, dada a burrice artificial de sua programação que só servia para seguir comandos.

          — Bom dia, senhor — falou um deles na minha aproximação.

          Apenas acenei como resposta e segui, mas não vou negar que aquilo colocou um sorriso no meu rosto. Assim era a manhã de qualquer pessoa com rotina matinal aqui emSão Paulo.          Continuei pelo caminho até chegar na maior, mais brilhante e mais bonita mansão da cidade, quiçá do país: a mansão real. Um androide — ironicamente construído para parecer que trajava um terno — me parou assim que me aproximei do portão.

          — Alto lá!

          — Fala aí, Beto. Tranquilo? — falei, jogando minha maleta por cima do ombro esegurando-a nas costas.

          — Você que se aproxima da mansão real, preciso escanear a sua identidade.

          — Qual é, vai me dizer que não se lembra de mim? Sou o Gustavo, seu camarada! Nos vimos na semana passada, se lembra?

          — Você que se aproxima da mansão real, preciso escanear a sua identidade.

          Logo meu sorriso se desfez em um suspiro. Não sei nem por que eu ainda tinha esperanças de que ele pudesse conversar como uma pessoa. Afinal, máquinas são só máquinas.

          O robô aproximou uma das mãos do meu antebraço e, logo em seguida, uma luz azulada foi projetada no meu pulso. Um, dois, três segundos — sim, eu contei — para ler o meu ID.

          IDs, ou Identidades Digitais, são pequenos chips colocados em todos os habitantes para reduzir o trabalho das autoridades. Já faz quase duas décadas que eles foram implantados na sociedade, então eu nem imagino como era ter que guardar dezenas de documentos em casa. Minha mãe sempre diz que era um saco.

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