Capitulo 1

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Em Yoroido, na nossa pequena aldeia de pescadores, eu vivia no que costumava

chamar de uma «casinha bêbeda». Erguia-se junto a um rochedo onde o vento do mar

soprava sempre. Enquanto criança, achava que era como se o mar tivesse apanhado

uma tremenda constipação, porque estava sempre com um respirar de asmático e

havia momentos em que soltava um enorme espirro - o que quer dizer que havia uma

rajada de vento que lançava tremendas borrifadelas. Convenci-me de que, de vez

em quando, a nossa casinha se deveria sentir ofendida pelo mar a espirrar-lhe na

cara, e resolvia inclinar-se

para trás porque se queria desviar. Provavelmente ter-se-ia desmoronado se o meu

pai não tivesse cortado uma prancha de um barco de pesca naufragado para escorar

as caleiras, o que fazia a casa parecer um velhote embriagado apoiando-se na sua

muleta.

Dentro desta casa bêbeda eu vivia uma espécie de vida lateral. Porque desde os

meus primeiros anos que era muito parecida com a minha mãe, e nada como o meu

pai ou a minha irmã mais velha. A minha mãe dizia que era porque tínhamos sido

feitas iguais, ela e eu - e era verdade, tínhamos ambas um mesmo tipo estranho

de olhos de uma espécie que quase nunca se encontra no Japão. Em vez de serem

castanho escuros como os de toda a gente, os olhos da minha mãe eram de um

cinzento translúcido, e os meus exatamente iguais. Quando era muito nova, disse

à minha mãe que achava que alguém tinha feito um buraco nos olhos dela e a tinta

havia escorrido toda, ao que ela achou muita graça. Os adivinhos diziam que os

olhos dela eram assim tão pálidos por ter demasiada água na sua personalidade,

tanta que os outros quatro elementos estavam praticamente ausentes - e era por

causa disto, explicavam eles, que as características dela eram tão pouco

harmoniosas. As pessoas da aldeia diziam muitas vezes que poderia ter sido muito

atraente, porque os pais dela o eram. Bom, um pêssego tem um óptimo sabor, e um

cogumelo também, mas não podemos misturar os dois; foi esta a partida que a

natureza lhe pregou. Tinha a boca proeminente da mãe mas o maxilar anguloso do

pai, o que dava a impressão de um retrato delicado com uma moldura demasiado

pesada. E os seus belos olhos cinzentos estavam cercados de espessas pestanas

que deveriam ter sido espantosas no pai mas, no caso dela davam apenas a

impressão de estar constantemente espantada.

A minha mãe dizia sempre que tinha casado com o meu pai porque ela tinha

demasiada água na sua personalidade, e ele tinha demasiada madeira na dele. As

pessoas que conheciam o meu pai entendiam logo de que é que ela estava a falar.

A água escorre rapidamente de um lugar para o outro e encontra sempre uma brecha

através da qual passar. Por outro lado, a madeira agarra-se com força à terra.

Memorias de uma gueixaOnde as histórias ganham vida. Descobre agora