Mistral 2015, em coma...

Meu corpo parecia estar submergido em um liquido quente. Era reconfortante estar ali, como se eu tivesse voltado para o ventre da minha mãe.

Ao meu redor vozes que vez ou outra conversavam comigo. Duas delas eram mais presentes.

A primeira era uma voz infantil e doce, a voz de um anjo. Ela tinha um jeitinho meigo de falar e quando conversava comigo uma sensação deliciosa tomava conta de mim e eu me sentia flutuar em nuvens de algodão doce. Não sei explicar, mas era assim que eu me sentia, quando ela segurava a minha mão e contava sobre tudo o que fizera durante o dia, seja em casa ou na escolinha. Mas a minha parte favorita era quando ela me contava historinhas de contos de fadas, príncipes e princesas.

A outra era uma voz de barítono, levemente rouca e tipicamente masculina. Quando o ouvia falar um sentimento inexplicável de inquietude tomava conta de mim. O dono da voz me pedia para voltar, para acordar e levantar daquela cama, que ali não era o meu lugar e sim na nossa casa ao lado da nossa família... Mas ali onde eu estava era tão bom, tão reconfortante que eu me recusava em responder.

— Abra os olhos meu amor, não suporto ver você assim, quero ver o seu sorriso, ouvir sua voz e admirar o brilho dos seus olhos...

Por que você quer que eu saia daqui? Eu não quero sair agora, me deixa ficar só mais um pouquinho, aqui é tão bom, tão tranquilo...

As vozes ao meu redor se calaram por alguns instantes e tudo fica calmo novamente e eu volto a ficar ali no meu torpor, quietinha e protegida no silêncio.

Não sei dizer por quanto tempo o silêncio prevalece, mas eu fico flutuando nas minhas nuvens de algodão doce por um tempo incontável... O silêncio só era quebrado pelos bipes rítmicos e constantes dos aparelhos no quarto.

Muito tempo depois às vozes voltaram, mas conversavam entre si.

— Quando ela vai acordar papai? — a voz do anjinho pergunta e eu sinto o calor de suas asas na minha face.

— Não sei minha princesa. — a voz de barítono responde.

— Porque você não a acorda como na história da bela adormecida? — O anjinho sugere. — Quando a Aurora estava dormindo o príncipe a acordou com um beijo de amor...

— Você acha que ela acordaria com um beijo filhota? — A voz do homem pergunta.

— Talvez sim papai, vai beija ela. — o anjo pede e bate palmas.

Por alguns instantes tudo fica em silêncio, apenas os bipes se fazem ouvir. Sinto um jato de calor em meu rosto e depois algo macio e quente tocar os meus lábios. Por alguns breves momentos eu poder retribuir, minhas mãos queriam sair daquela inércia e tocar o rosto de quem estava me beijando, mas ao mesmo tempo o líquido quente que me envolvia era tão gostoso.

Vou ficar aqui só mais um pouquinho...

Tudo fica no mais absoluto silencioso novamente, os bipes continuam rítmicos e constantes e eu flutuando. O tempo passa, não sei dizer quanto tempo depois a voz que me chamava se fez ouvir mais uma vez.

— Por que você está assim? — ela perguntou angustiada. — Acorde agapi mou. — seus dedos quentes tocam a pele do meu rosto e acariciam os meus lábios. — Será que nunca mais vou ver um sorriso nesses lábios? —novamente o tom angustiado. — Nossa menininha precisa de você, eu também preciso de você...

Aquela voz estava perturbando o meu sossego, estava tirando-me da minha inércia. Eu queria saber de quem era aquela voz que em tantos momentos falava carinhosamente comigo. Os lábios agora estavam em meus cabelos... Era tão bom, queria que me tocasse por mais tempo. Queria retribuir aquele carinho. Obriguei a minha mão a se mexer e nada. Continuei resoluta

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