Carne de Caça

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Era a última noite do inverno, e Aurora só tinha algumas horas para encontrar o que precisava.

Ela farejou o ar, enchendo suas narinas e pulmão – mas mal sentia o chicote gelado do vento invernal. Era uma das vantagens de se transformar em urso: uma das únicas, visto que as noites de aurora boreal tinham sido longas e frequentes.

Finalmente, ela encontrou o cheiro que estava procurando. Aurora manejou seu corpo hábil pela floresta, ajustando os olhos na escuridão que só era quebrada pelo brilho difuso da lua e a das luzes do norte. Ursos eram caçadores, mas o inverno era quando deveriam estar hibernando – e não caçando, como Aurora estava fazendo agora.

O som de neve sendo revolvida fez com que a ursa virasse a cabeça – e então ela o viu, sua silhueta galhada recortada contra a luz da lua. O veado avistou Aurora, mas era tarde demais. Ela era mais rápida, especialmente depois de um inverno praticando.

Aurora não gostava particularmente da caça, e por isso mesmo seus gestos foram rápidos. Ela sabia, em seu íntimo, que aquela era a lei da vida: predadores tinham que caçar, e era isso que ela era. Ainda assim, quando o veado finalmente cessou de respirar embaixo de seu corpanzil de urso, um suspiro fundo escapou pelo focinho dela; uma mescla de tristeza e triunfo.

Agora, seu trabalho começava.

***

Quando Dimitria acordou, algumas horas antes do amanhecer de fato, a pequena cabana estava tomada por um cheiro familiar – e mais do que o cheiro, foi a memória do que ele representava que a acordou. Ela saltou da cama, desembaraçando os cabelos soltos com os dedos e buscando a origem do cheiro como uma flecha busca seu alvo.

Dimitria a encontrou ao mesmo tempo que encontrou Aurora, que cantarolava baixinho na frente do forno, alheia aos movimentos da caçadora. Os cabelos da loira estavam enrolados em um coque, que ela só fazia quando estava cozinhando – o que aparentemente explicava o cheiro de carne de caça e massa fresca que agora fisgava o olfato de Dimitria. Ao encarar a silhueta de Aurora, coberta apenas por uma camisola e iluminada pela luz amarelada do amanhecer, ela sentiu outros sentidos respondendo.

A caçadora abraçou Aurora pelas costas, enterrando o rosto na curva macia do pescoço dela e depositando um beijo suave.

— O que você está preparando de gostoso? Além de si mesma, é claro.

Aurora descansou a panela e a colher em cima da pia, virando o corpo para encontrar Dimitria.

— Ah, você já acordou? Achei que ia dormir até tarde.

— E perder o que quer que seja que está acontecendo aqui? – Dimitria abriu um sorriso largo, tentando dar uma espiada no que quer que estava dentro do forno. — Sem chance.

— Xô, sua enxerida! É uma surpresa.

— Eu adoro surpresas. Especialmente quando sei o que elas são.

Aurora calou a caçadora com um beijo, e por um segundo Dimitria esqueceu até mesmo do cheiro ao se perder na boca da outra. Aurora partiu seus lábios com delicadeza, e Dimitria encontrou a língua da outra, saboreando seu gosto natural com a sede de quem bebe água após um dia sob o sol.

Mais rápido do que a caçadora gostaria, Aurora interrompeu o beijo, empurrando Dimitria pela cintura – para perto do sofá, e longe da cozinha.

— Hoje é um dia especial. E você pode ser caçadora, mas vai me deixar te surpreender desta vez, está bem?

Fios louros se soltaram do coque de Aurora, emoldurando seu rosto redondo e fazendo-a parecer uma pintura. Dimitria não conseguiria negar nada àquele rosto.

Carne de Caça | Um conto Luzes do NorteOnde as histórias ganham vida. Descobre agora