Tinha passado precisamente uma semana desde o dia em que o Harry esteve em minha casa.

Durante essa semana eu não o vi nem falei com ele nem uma única vez.

Por um lado fiquei aliviada porque tinha-me finalmente livrado dele, mas o afastamento repentino só me fez pensar que ele podia estar a preparar alguma espécie de plano maquiavélico para me afectar.

 Continuava a ter pesadelos com aquela noite em que o vi a matar aquela pessoa, mesmo depois de ele me ter dito que não o tinha morto realmente. E continuava a sonhar que ele aparecia no meu quarto durante a noite para me matar a mim.

Aquele assunto continuava a perturbar-me mesmo depois da ausência do principal responsável, o Harry!

 "Terra chama Cassie!” A voz da Rachel interrompeu os meus pensamentos.

 “Sim?” Tentei disfarçar a minha distracção.

“O que é que vais fazer hoje de tarde?”

“Estudar acho eu.” Depois de uns segundos a pensar respondi-lhe. Na verdade não eram esses os meus planos para aquela tarde mas não queria partilhar com ninguém o que tencionava fazer.

“Seca…” Ela revirou os olhos enquanto prolongava a última letra como se a palavra tivesse dez sílabas em vez de duas.

“Tenho que aproveitar esta tarde porque para a semana já começam os nossos treinos.”

Eu e a Rachel fazíamos parte da equipa de futebol da escola há alguns anos, estivemos um mês de férias quando o campeonato acabou mas os treinos iam recomeçar e a nossa agenda ia ficar mais preenchida.

Aproveitamos o resto do caminho que faltava para chegarmos a casa para falar sobre a equipa e os treinos.

Apertei as flores com mais força no meio dos dedos enquanto caminhava em direção ao grande portão.

Mantive os olhos presos ao chão durante todo o caminho.

Já tinham passado quatro anos mas continuava a custar-me entrar naquele sitio como me custou da primeira vez.

 Tentei afastar aqueles pensamentos da minha mente para que as lágrimas não caíssem antecipadamente. Fechei um pouco os olhos para tentar mandar as lágrimas embora sem parar de andar mas isso mostrou-se uma péssima ideia porque acabei por bater contra alguém com alguma força o que fez com que as flores que eu levava na mão caíssem todas ao chão.

“Peço desculpa.” Baixei-me para apanhar as flores tal como a outra pessoa, recolhi-as e olhei finalmente para cima para lhe agradecer.

Os meus olhos encontraram-se com os olhos do desconhecido finalmente.

“Tu?!” Acabamos por dizer ao mesmo tempo. Porque que ele estava ali?!

“O que é que estás aqui a fazer?” Acabei por perguntar. Os olhos do Harry continuavam colados aos meus tal como os meus aos dele á espera de uma resposta.

“Adeus Candace!” Ele desviou-se para o lado para tentar passar por mim mas eu fiz o mesmo e voltei a pôr-me á frente dele para lhe barrar o caminho.

“Porque é que estás aqui?” Perguntei. Ele revirou os olhos e depois focou-se em mim.

“Não querias que eu me afastasse de ti?” Ele esperou uns segundos pela minha resposta mas ela não chegou, eu fiquei apenas a olhar para ele. “É o que eu estou a tentar fazer Candace!”.

Fiquei sem saber o que devia dizer. Por mais que me esforçasse não conseguia perceber o que é que tinha mudado para ele agir de uma forma tão diferente de um momento para o outro.

“Porque é que mudaste tanto de repente?” As palavras saíram em voz alta antes que eu pudesse trava-las. Em vez de uma resposta ele olhou para a minha mão focando-se nas flores.

“É melhor pores isso em água.” Percebi que ele estava mais uma vez a tentar ir-se embora por isso respondi-lhe mais depressa do que eu própria esperava.

“Vieste aqui visitar alguém?” Se calhar visitar não era o verbo mais correcto para usar naquela frase uma vez que estávamos a falar de um cemitério.   

“Mais ou menos.” Ele demorou um pouco a responder e fê-lo de uma forma estranhamente lenta.

“Quem?” Não contive a minha curiosidade. As palavras foram cuspidas como uma tempestade que aparece sem avisar. “Desculpa, não tens que responder!”

Não estava a perceber o que se estava a passar comigo, passei a semana toda a desejar que o Harry se mantivesse afastado de mim e agora que o encontro não consigo deixa-lo ir embora.

“Candace…” Os meus olhos voltaram a subir para encontrar os dele. “Adeus.” Ele desviou-se um pouco e começou a andar para a saída. Rodei o meu corpo e fiquei a vê-lo a afastar-se.

“Porque é que te afastaste?” Falei mais alto do que o normal para ter a certeza que ele me ouvia. Os pés dele pararam de repente mas ele permaneceu de costas para mim.

Sentia-me tão ridícula por estar a insistir num assunto que até há 30 minutos atrás eu só queria esquecer mas era mais forte do que eu, estava a falar sem pensar, as palavras saiam-me da boca sem eu ter tempo de as processar e nem sequer conseguia perceber se sentia realmente o que estava a dizer ou se era só uma alucinação.

 Vi o corpo do Harry a rodar finalmente para me olhar, ele permaneceu no mesmo sítio sem se mexer, ficou apenas a olhar para mim durante longos segundos tal como eu estava a fazer.

Os pés dele começaram a mover-se devagar na minha direção e senti o meu coração a bater cada vez mais depressa, ele parou perto de mim.

“Porque que queres saber?” A voz dele soou mais rouca que nunca.

“Não sei.” Era estranho pensar que estava a dizer a verdade.

“Olha Candace…” O peito dele encheu-se de ar para segundos depois ele voltar a expira-lo. Pareceu-me que ele estava a tentar procurar as palavras certas. “Faz o que quiseres okay? Se quiseres contar á polícia o que viste naquela noite podes faze-lo.”

“O que?” A minha boca abriu-se ligeiramente enquanto eu tentava processar aquelas palavras.

“ Tu ouviste-me.” Caro que ouvi, mas não percebi porque que ele tinha dito aquilo. Não fazia sentido nenhum.

“Eu não vou dizer nada!” Durante uns segundos ele ficou apenas a olhar para mim.

“Porque?”

“Porque prometi que não o faria.”

“Faz como quiseres.” Os calcanhares dele rodaram e ele foi-se afastando até desaparecer da minha vista. Fiquei algum tempo parada na mesma posição a tentar digerir o que tinha acabado de acontecer. 

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