A Cápsula

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Zeron colocou as mãos na cabeça e se encolheu de dor sobre o corpo. Contorcido, agachado, preso, era inofensivo àquela criatura. Veio o ruído ensurdecedor e a vibração em seu cérebro. Ele gemeu mudo mas depois o gemido cresceu e explodiu em um grito inevitável.

Então veio novamente o castigo. Zeron desmaiou.

Tudo estava escuro quando despertou. Ele entendeu que a sessão acabara, e ficou aliviado. Refletiu sobre sua situação e começou a chorar um choro sem lágrimas, mas isso o ajudou a se acalmar da angústia e do terror pelos dias que estariam por vir.

Viu uma pequena luz verde piscando. Imerso em preto, suas pupilas se acostumaram ao breu e ele pôde vislumbrar formas e estruturas do lado de fora de seu invólucro. Era um recinto grande. Tinha apenas um acesso. A luz verde piscava perto da porta. Ele via. Olhou para si encolhido, com os joelhos encostando nas paredes da cápsula. Quando chegou ali havia percebido que aquilo não era vidro: tinha certa elasticidade sob esforço, mas era incrivelmente translúcido – como cristal – e resistente.

Zeron aprendeu naquele dia que a sua voz era a causa das punições. Suas palavras geraram estímulos aversivos em forma de castigos. Essas criaturas pareciam não se comunicar com articulação fonética. A comunicação era telepática. Seus ouvidos – orifícios pequenos -  eram resquícios evolutivos para segurança da espécie. Ele concluiu que ruídos eram associados ao perigo e à necessidade de proteção. Deveria ser uma cultura onde havia algum instinto primitivo violento contra esses sons – isso gerou o tabu de uma fala, gemido ou grito, estes que evocavam sentimentos de desprezo, horror, asco, ódio, violência.

No meio dessa reflexão estava o absoluto silêncio. Mas viu um movimento na porta de acesso. Estava realmente muito escuro, mas ele pôde ver os vultos. Quantas horas teriam se passado?

Todas as luzes fortes se acenderam de repente e Zeron cobriu os olhos com as mãos, zelando pelo silêncio de sua garganta. Seus olhos doíam dentro da órbita, uma dor leve, devido à intensidade luminosa. Desta vez não houve o zunido nem a vibração que fazia sua cabeça estourar de dor - ainda. Mas a luz o ofuscava totalmente e era impossível enxergar qualquer coisa.

Passou um longo tempo. A luz não cessava.

Sentiu algo espetar-lhe as costas e se debateu dentro da cápsula, percebendo que agora havia um fio preso em sua espinha. Seus braços começaram a ficar dormentes e ficaram moles, sem comando. Ele enfiou sua cabeça entre os joelhos para proteger-se da luz.

Começou a soluçar de desespero. Sentia-se frágil, exposto, sozinho, violável. Veio um gemido involuntário, mas audível. Desespero junto, pela consequência que viria.

Castigo.

Ele aguentou a dor por alguns minutos e quando achou que ia desmaiar novamente o zunido e a vibração diminuíram – a dor no cérebro termina. A luz se atenuou. Ele pôde levantar o rosto e observar as criaturas.

O que estava por vir?

Não podia se comunicar.

Ele queria morrer.

Não queria permanecer ali vulnerável e entregue a experiências. Mas não podia negociar, requerer, falar, chorar. Precisava fazer algo.

O fio foi puxado de suas costas e voltou gradativamente a sentir seus braços.

Usou sua inteligência para pensar em algo que pudesse reverter a sequência de testes. Fisicamente não conseguiria impor-se – estava totalmente em desvantagem e impotente. Sentia-se fraco dentro da cápsula. Qualquer que fosse a próxima experiência, o castigo era certo. Ele não teria nada a perder se tentasse algo. Receberia o mesmo castigo se falasse ou se apenas gemesse, grunhisse de dor. Portanto, tinha que tentar.

As criaturas haviam saído e desta vez o recinto não ficou sem luz. Ele pôde analisar as bancadas, e perto da saída viu, sobre uma mesa, o comunicador e sua túnica.

Olhou para todas as bancadas e não identificou qualquer coisa que pudesse lhe ser útil – só viu utensílios estranhos e equipamentos que não saberia operar.

Voltou sua atenção ao comunicador. Era dele a luz verde piscando. Tentou identificar se ela ainda piscava, mas não conseguiu ter certeza, pois o led era pequeno e o recinto estava claro.

“Eles sabem que estou aqui. Eles têm minha posição.”

A próxima sessão não demoraria a acontecer. As criaturas chegaram com alguns artefatos na mão. Isso o assustou, mas de qualquer forma Zeron iria pôr seu plano em prática.

Foram alguns segundos até entender qual seria a próxima experiência. Sentiu que dentro da cápsula entrava um vapor quente. Era vapor de água – pensou, mas a superfície da cápsula não ficava fosca: permanecia translúcida, cristalina. Começou a ficar muito quente ali dentro. Seriam 40, 41 graus? Até quantos graus eles iriam submetê-lo? Não importava agora. Antes que o calor ficasse insuportável, Zeron fechou seus olhos, respirou fundo e entoou um trecho de canto gregoriano:

Accende lumen sensibus,infunde amorem cordibus, infirma nostri corporis, virtute firmans perpeti. Hostem repellas longius pacemque dones protinus; ductore sic te praevio vitemus omne noxium...”         

As criaturas não esboçaram movimento inicialmente, mas Zeron percebeu que elas o observavam de forma extremamente compenetrada. Soltaram ao chão seus artefatos. Uma delas de aproximou da cápsula e mexeu nos botões de acesso, abrindo o compartimento. Pegou Zeron cuidadosamente pelo braço. Zeron se sentiu liberto, e pisar no chão fora da cápsula o fez estremecer. Com fraqueza, precisava apoiar-se no que estivesse à sua volta para conseguir estar de pé. Continuava entoando o canto sem parar e a criatura aproximou seu rosto, como se quisesse embeber-se da música. Ela fechou os olhos e, junto com as demais, parecia estar extasiada.

Ele achou que eles não entendiam o que sentiam - a sensação de ouvir uma melodia. Algumas caíram no chão em desmaio. Outras permaneceram por mais alguns instantes resistindo ainda em pé, mas pareciam totalmente absortas e dominadas pelo som. Após alguns minutos, todas estavam desfalecidas.

Zeron continuava cantando, usando todas as suas poucas forças, exausto, e foi trôpego até a bancada. Pegou o comunicador – a luz verde estava realmente acesa. Com dificuldade, vestiu sua túnica e, apoiando-se nas paredes, saía pelo acesso, em direção ao corredor. Deu uma última olhada para a cápsula.

O corredor era imenso e alto, e o som do canto gregoriano ecoava de forma bela. Sua voz ficou mais forte. Embora ainda andasse com dificuldade, pareceu sentir que a força esvaída de seu corpo estava voltando. Mas sentia sede, sentia fome. 

Havia várias janelas de onde se observava a imensidão do nada, pontuado por luzes das estrelas. Zeron continuava entoando os cantos. Galgou algumas barras metálicas para posicionar-se mais próximo delas, e acionou o comunicador, disparando um sinal de confirmação para o resgate.

Na outra ponta do corredor apareceram mais criaturas. Elas perceberam o fugitivo e então vieram rapidamente ao seu encontro. Foram alguns segundos de desespero. Zeron achou que tudo estaria perdido, mas não parou. Cantava agora, com a voz cada vez mais firme,  as palavras “Factus est repénte de caélo sónus adveniéntis spíritus veheméntis, ubi érant sedéntes, allelúia...”. Com elas não foi diferente. Primeiro pararam para admirar. Depois ficaram embebidas dos sons - os estímulos nunca antes experimentados por aquela cultura as levaram ao desmaio também.

Zeron ainda cantava, e um brilho do lado de fora o fez olhar novamente pela janela. Sentiu formigamento em seu corpo. Colocou as mãos sobre o peito, fechou os olhos e sorriu.

Desapareceu.

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CRISTINA PEZEL

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