O Amolador de Facas

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O Amolador de Facas

Cristina Pezel

Fausto puxava o carrinho. Alinhava-o ao meio fio, paralelo à calçada, e apitava de novo para avisar de sua chegada. Enfiou o apito no bolso da camisa, ajeitou sua boina e esfregou as mãos uma na outra.

Ali, naquele bairro, clientela não faltava. Era a quinta rua em que parara naquele dia: Rua Elídia. Estava sendo um dia bom. Dois minutos parado e o pessoal já vinha aparecendo, trazendo algum utensílio à mão, para afiar.

Sua clientela já era cativa. Contavam coisas para Fausto. Ele trabalhava a peça enquanto perguntava sobre qualquer assunto cotidiano. E a escola dos pequenos? Seu pai melhorou de saúde? Conseguiu comprar o cachorrinho? Fausto era figura conhecida pelas adjacências.

Naquela rua onde estava agora havia uma casa muito antiga, velha, cinza, empoeirada. Do muro baixo se desprendiam cascas de reboco e havia um pequeno portão enferrujado, com uma das dobradiças um pouco quebrada, que se prendia desalinhado com uma corrente e cadeado. A cobertura tinha telhas quebradas, e acúmulo de galhos e folhas de uma árvore enorme que havia ao lado da casa. O telhado, como um todo, tinha um aspecto escuro. Será que aquelas telhas algum dia haviam sido vermelhas? As janelas da casa, de vidros foscos e imundos, estavam sempre fechadas. O jardim da entrada não era propriamente um jardim, mas um acumulado de capim alto em suas jardineiras, plantadas certamente pelos pássaros e pelo vento.

Julgava Fausto, antes, que era uma casa abandonada. Mas naquele dia, tendo acabado de atender o último cliente da rua, e enquanto arrumava o carrinho para sair, percebeu que a porta da sala daquela casa de abriu, com um rangido pesado. Ele viu um homem carregando algo na mão. O homem se posicionou na varanda, trancou a porta da sala – todas as três trancas – testou se estava bem trancada, e em seguida se dirigiu ao portão do muro, olhando para Fausto.

Fausto ficou surpreso. Arriou o carrinho no chão, entendendo que o morador queria amolar algo. Teve que esperar o morador abrir aquele portãozinho empenado do muro baixo exterior. O morador saiu, fechou a corrente com cadeado e se dirigiu a Fausto.

Era um homem na faixa dos trinta anos, de aspecto muito magro e pálido, de olheiras fundas. Seu cabelo era oleoso, de aspecto sujo e desgrenhado, com uma franja ajeitada para o lado com as mãos. Tinha penugens suadas, principalmente perto das orelhas, grudadas na pele do rosto. As sobrancelhas eram muito finas e ralas, e dentro das olheiras pulsavam dois olhos azuis muito pequenos e sem brilho. Vestia uma blusa encardida branca de mangas compridas, embora fizesse calor naquele dia, e usava uma calça preta surrada. Nos pés, sapatos pretos por engraxar, cheios de vincos que hospedavam poeira. Fausto percebeu que o utensílio que trazia para seu serviço era um grande facão.

O homem chegou perto de Fausto e falou com ele sem algum cumprimento:

- Quanto cobra pra amolar este facão?

- Cinco reais.

Fausto pegou o facão na mão e sentiu o peso. Tinha excelente empunhadura. Era uma peça belíssima, mas ao mesmo tempo carregava algo de sinistra. No punho, que era de marfim, havia esculpidos adornos florais e anjos com caras estranhas, cujas mãozinhas apontavam para uma única figura central, na extremidade do punho -  uma caveira. Fausto julgou haver certa semelhança com o proprietário. Afastou o pensamento. Na lâmina, a figura daquela caveira se repetia, em baixo relevo. Fausto sentiu um arrepio estranho.

Começou a afiar o facão com muito cuidado e tentou puxar assunto, intrigado com aquele objeto admirável.

- Facão muito raro. É bonito. O senhor é colecionador?

- No.

- Este facão é de onde? – continuou Fausto notando o sotaque hispânico do homem.

O morador demorou a responder. Parecia hesitante. Enfim, falando um português mal falado, soltou um suspiro e disse:

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