Atormentando Pilar

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— Tu ainda não sabes, então? Não reconheces a ti mesmo como realmente és. Mas o tempo é impiedoso e não poderás suportar tua condição por muito tempo. Em breve, chegará minha hora. E também a tua — e bruscamente soltou minha mão, juntou o resto de suas coisas e pôs-se a caminhar.

— Quê?! Como assim, minha condição?

Agarrei-a pelo braço e vi as lágrimas caindo preguiçosas e escorrendo por suas maçãs morenas de Sol. Não eram lágrimas comuns, mas um misto de medo e ódio. E eu era a fonte de tamanha dor. Seus olhos encharcados e tristonhos a denunciavam.

— Por que está chorando? Te fiz algo ruim?

— Não — ela disse, descendo desajeitadamente as costas da mão ao longo das bochechas e esfregando-as pelo queixo. — Ainda não fizeste nada, mas é o nosso destino. Serei morta por tuas mãos, ou tu pelas minhas. Em breve virás até mim. Quando aqueles a quem amas não te quiserem mais, tu me procurarás e o fim chegará. Para um de nós.

Aquelas palavras ecoaram em minha mente enquanto se ela virava de costas e partia. Era melhor ir logo para casa encontrar algum conforto. Ainda bem que não acredito nessa besteira de maldição de ciganas.

— Não há maldição alguma, pelo menos não da forma como pensas — voltei a mim, ainda sobre ela naquele chão. — Não sou eu a causa de teu sofrimento e tua angústia. Tu mesmo causas este mal que te consome.

— Naquele dia você me disse que eu iria te procurar de novo. Quando as pessoas que amo me rejeitassem. Isso aconteceu ontem mesmo. Como você sabia? — falei, entrelaçando minhas mãos em volta de seu pescoço. Que belo pescoço ela tem. Em outra época eu ficaria feliz em acariciá-lo.

— Assim sei desde criança. Sonho contigo. Estás sobre mim, com as mãos em torno do meu pescoço, como agora. Nunca pude ouvir o que me dizes, mas posso sentir tua angústia. Em raras vezes consigo escapar, deixando-te estirado. Entretanto, quase sempre és tu que deixas este local com as mãos sujas de sangue. Do meu sangue. Toma — entregou-me um pequeno espelho que retirou de sua bolsa de couro.

Olhei e nada vi de diferente, além das cicatrizes com as quais ainda não tinha me acostumado.

— Não tem nada demais aqui, não vai me enganar com as suas armações. Eu só quero saber o que foi que você fez comigo.

— Tu olhas, mas não vês. Tens de ter persistência para perceber o que realmente és, aquilo que os outros veem, e não o que desejas que eles vejam.

Olhei mais uma vez. Apenas as cicatrizes. Não caia no jogo dela. Ela está buscando uma maneira de enganar você e fugir, mas não permita que isto aconteça. Mas o reflexo havia mudado. Ainda era eu, mas havia algo de novo. Meu rosto foi se modificando. Lentamente. Minha barba foi desaparecendo. Meu nariz se tornou mais fino. A cada segundo as modificações se tornavam mais drásticas. Agora não era mais eu naquele reflexo. Era bem mais novo. No máximo dezesseis anos. Era o aluno que havia morrido.

— O que significa isso?

— É assim que és agora. Eis a tua nova face. Teu novo corpo. Teu novo ser.

— Não, maldita! Está me confundindo! — gritei, jogando o espelho.

Na vidraça de uma loja ao lado me vi sobre a cigana. Não apenas minha face havia mudado. Todo meu corpo era outro. Não era mais eu. Era ele. O aluno morto durante a viagem, alguns dias antes.

— É por isso que tua família não te recebeu e teus amigos te ignoram. Eles não te reconhecem. Ainda és tu, mas não em teu corpo. No acidente tu morreste, porém tua alma encontrou um novo recipiente. Agora tu habitas esse corpo, o corpo que outrora foi daquele garoto.

— Não! Que loucura é essa? Só pode ser mais um de seus truques! — Joguei-me sobre ela, agarrei seu pescoço com ainda mais força e comecei a gritar desesperado, batendo sua cabeça contra o frio mosaico de pedras negras e brancas da praça.

Naquele momento eu sabia que iria matá-la. Ali mesmo, na imundície daquela praça. E essa sensação me satisfazia. Meus dedos se afundavam na macia pele de seu pescoço. Lentamente. Aproveitava cada momento. Seu rosto ia se tornando cada vez mais pálido, assim como seus olhos. Eu podia sentir a sua vida se esvair pouco a pouco.

Senti uma dor aguda nas minhas costas. Afrouxava meus dedos e a via recobrar a consciência, apenas para mais uma vez envolver seu pescoço. Eu queria prolongar ao máximo aquele momento. Meus dedos criando sulcos naquele imponente pescoço. Era um êxtase que raramente eu havia sentido. Outra pontada nas costas. E mais uma. Então vi o punhal em sua mão. Mais uma punhalada e a dor era insuportável. Salivando de fúria, segurei sua mão e lhe arranquei a arma, jogando-a longe. A ira havia se apoderado de mim por completo. Apertei seu pescoço com uma força que nunca imaginei possuir. Minha visão começou a escurecer, reflexo de meus sentimentos e do sangue que começava a me faltar. Sob mim, seu corpo cada vez ficava mais mole. Sempre esteve errada, cigana. Não será um de nós que irá morrer hoje, seremos nós dois.

E, de uma só vez, tudo se tornou escuridão. Apenas o negro, frio e solitário nada. Minha consciência continuava ali, de alguma forma, mas não havia mais meu corpo, não havia mais a cigana, só havia o vazio. E eu. Éramos uma coisa só. Então é assim? Isto é a morte, afinal?

Meus olhos se abriram incertos. Uma dor aguda me inundava e atrapalhava minha consciência. Ao meu lado estava o corpo estirado. Imóvel, mas ainda quente. E, no final, estava certa, cigana. Eu fui o seu fim. A dor só aumentava enquanto erguia meu corpo. Era como se eu tivesse sido quebrado em muitas partes e montado novamente. Preciso sair logo daqui antes que alguém apareça.

Esqueci a dor e me pus a caminhar. Olhei apenas de relance para o corpo no chão, aquela imagem me deixou orgulhoso. Venci. Apanhei o espelho que estava ao seu lado, mergulhado em uma poça de sangue e fezes de pombos. Sorrindo, me olhei por um instante. Minha face machucada foi varrida pelos meus olhos. Olhos azuis! Azuis como um dia de julho. Que belos olhos os meus. Guardei o espelho na bolsa que carregava colada a mim, dividindo meus seios por baixo do vestido vermelho. Eu não teria problemas em me acostumar com aquele corpo, ele era estranhamente familiar. E parti.

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