Coração Prematuro

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Acabo de tomar consciência de que tenho um corpo. É algo tão estranho e repentino que me assusta. Pela primeira vez percebo que possuo uma cabeça, um peito, mãos, pés e dedos, mas apesar disso, sei que ainda não tenho capacidade de manuseá-los. O que será que eu era antes desse exato momento? Não consigo me lembrar. Será que esse foi o exato instante em que surgi? Ou já tinha uma existência insignificante neste mundo? Não sei dizer.

Levanto uma das mãos levemente, mas com muito esforço. Me sinto incrível. Tenho duas mãos. Duas mãos com dez dedos. Consigo mover uma delas para cima e

para baixo, o que me deixa maravilhado. Mesmo sendo o máximo de movimento que consigo fazer, por hora, me sinto satisfeito.

Não sei onde estou exatamente. Parece que estou em um mundo só meu, em uma barreira impenetrável. Está escuro e muito quieto também. Estou boiando, acho, pois meus pés não tocam nada e mesmo assim ainda consigo me equilibrar. Apesar de meu ótimo avanço com minha mão, ainda tenho dificuldade para me mexer por completo, pois tudo é muito novo para mim e não tenho noção do tempo passando. Nada garante que posso ter demorado dias para mover meus membros, ou apenas segundos.

Percebo um pequeno cordão preso em minha barriga e o acaricio. Me agrada saber que ele está ali, pois além dele ser esponjoso e agradável de se segurar, de algum modo sei que ele me liga a algo maior, o responsável pela minha existência. Seria um anjo, um deus? Tudo o que sei é que não estou sozinho, por isso não sinto medo do breu a minha volta.

Um tempo se passa – uma hora, um dia, uma semana, não tenho certeza – e o silêncio absoluto no qual me encontrava se quebra. Começo a escutar ruídos variados, finos, graves, altos e baixos. Não enxergo, mas de alguma forma sei que eles vêm de algum lugar acima de mim. Acho que o líquido em que flutuo abafa um pouco o que chega em meus ouvidos, pois é preciso esforço de minha parte para distinguí-los.

De repente, um dos sons se destaca diante de todos os outros. Esse consigo ouvir claramente, o que me deixa completamente extasiado.

É uma voz. Sim, uma linda voz. Ela é fina e bem baixinha, mas isso é o suficiente para mim. Só por esse som chegar até mim com tanta facilidade já fico feliz. Me sinto mais seguro do que nunca.

Consigo ouví-la cada vez mais e sinto um calor crescendo em meu peito. Agora sei quem é a dona dessa voz angelical que serena minha alma. É mamãe. A voz que escuto é de minha própria mãe, a responsável por minha existência, minha segurança e felicidade. Agora sei que este pequenino cordão me prende a ela, é ela que me mantém vivo. Seguro o cordão, ele é meu porto seguro. Jamais quero imaginar que algum dia eu me desprenderei de mamãe.

Sorrio, ou pelo menos acho que faço isso. Pela primeira vez movimento a boca, então não tenho como ter certeza no momento. Porém, sei que estou alegre e não quero que ela pare de falar. Sua voz é tão doce, tão tranquila. Um pensamento corre na minha cabeça de que ela esteja falando comigo. Será isso mesmo? Será que esse belo som está sendo direcionado a mim, que sou tão pequeno para ser notado?

Movimento meu pé com toda a força que tenho até atingir um dos lados da parede que me envolve. Não posso deixar essa melodia sem resposta.

Mamãe, você sentiu isso? Percebeu que estou aqui, também tentando falar com você? Será quando a toquei, sentiu o mesmo calor que eu senti? Será que está mais reconfortada, mais calma, mais feliz? Será que me ama do mesmo jeito que eu a amo?

Espero que sim.

Eu a amo. Esse é o primeiro sentimento que toma conta de mim, que me veio de maneira tão arrebatadora. É a maior certeza que tenho em meu pouco tempo de vida.

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