Capítulo 3

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Juliana sempre me encontrava na nossa cantina favorita, por ser a única que tem algo no cardápio para vegetarianos (pra ela) e o melhor folhado de queijo branco (pra mim). Comecei bem a manhã, ouvindo os comentários de Juliana sobre ontem.

- Caraca, você tá famosa. – ela disse enquanto pagava o suco da cantina.

- Apareci no canal de fofocas e até agora não recebi cachê. – dei um sorriso amarelo pra ela.

- Ah... Então você não viu que colocaram no Youtube o vídeo do seu joguinho com o cara lá? – Ju não era fã de esportes e muito menos de futebol então não me surpreendeu dela não saber o nome do Ricardo. O Jornalismo e a vida dela eram somente para a área cultural (vulgo shows, literatura e cinema). Mas ela me pegou de surpresa sobre o vídeo.

- Como é? Me mostra isso.

E lá estava eu na pequena tela do smartphone da Juliana, jogando bola com o Ricardo. Claramente foi gravado por algum torcedor e pelo celular. Era um vídeo de pouco menos de 2 minutos, então não era tão humilhante do que ter os 8 minutos de jogo.

Enquanto assistia ao vídeo pelo celular, eu tentava acompanhar a Ju indo para o elevador com o seu suco matinal.

- Caramba, olha quanta visualização! – apontei surpresa.

- Já já chega no número de visualização do vídeo "pandas fofinhos".

Quando entramos no elevador - lotado por sinal, porque era impossível pegar o elevador da faculdade vazio ou com menos gente possível. Era quase um metrô/trem em horário de pico - vi que algumas pessoas me encararam, mas não fizeram nenhum comentário.

Chegando ao nosso andar demos de cara com a Rafaela, a megera Rafaela!

- Então virou Maria-Chuteira agora?

- Vá para a merda.

- Vamos ver o quanto esses seus 15 minutos de fama duram.

- Não tenho fama alguma.

- Realmente, não dá pra ficar famosa com esse showzinho estúpido que tu fez ontem, vergonha alheia, garota. – ela riu com desprezo.

- Ah, cala a boca Rafaela, vai cuidar da sua vida, me deixa.

- Aproveitadora... Maria chuteira. – e jogou seus cabelos pretos na minha cara antes de sair.

Juliana fez uma cara de sono mostrando que não se importava com a merda que Rafaela tinha dito. Como eu seria Maria-Chuteira? Nem tava saindo com o cara.

Finalmente, pela primeira vez em quase quatro anos, meus colegas de classe foram agradáveis comigo, menos a idiota da Rafaela. Pelo menos ela era sincera em deixar bem claro o seu ódio por mim, enquanto os outros estavam fingindo serem meus amigos. Falsos. Juliana era a única que tava cagando pra isso e por isso eu a adoro.

Tive uma só matéria nesse dia, então tive que aguentar um único professor durante quatro horas jogando indireta pra mim sobre o Ricardo.

***

Quando chego ao escritório, Ana já estava na minha mesa com um largo sorriso na cara.

- Então a famosinha apareceu? – Ana me abraçou bem forte e eu revirei os olhos porque não ia aguentar mais ter que escutar isso.

- Dormindo pra isso. – respondi querendo que fosse verdade. Por mais que eu esteja cagando sobre esses 15 minutos de fama, eu estava com alguma expectativa. De que talvez não fossem apenas 15 minutos de fama. Isso seria interessante.

- Primeiro: Novaes me entregou sua redação sobre o jogo de ontem, que por sinal curti muito, já fiz a revisão e já enviei para a gráfica da revista. – suspirou e fez uma cara de cansada. – Maaaaaas, agora o que eu quero é saber como foi jogar bola com o Ricardo Ferreira! – ela faltou pular em cima da minha mesa como se fosse uma cadela e eu sua dona escondendo um pedaço de carne.

- Você viu que essa pergunta é muito sem noção? – fiz uma cara bem intelectual, pra ter um bom humor sobre um assunto que não queria tocar mais. – “Como foi jogar bola com o Ricardo?", quando o normal seria "Como foi a transa ontem com o Ricardo?" ou com qualquer outro cara. – tentei rapidamente me justificar adicionando a última parte da frase para que a Ana não entendesse errado o que eu disse. A última coisa que eu queria era que Ana fantasiasse alguma coisa "romântica".

- Aaaaaai amiga, você ficou do ladinho dele, vocês trocaram dribles! – o modo Ana “A Romântica” estava ativado. – Que lindooooooo! – suas mãos foram para o rosto e ela suspirou.

Claro, muito lindo mesmo.

- Ana, você às vezes brisa ou exagera, eu não sei. – ri da cara dela, e ela começou a rir também.

- Mas você assistiu ao vídeo no Youtube? – tive que perguntar, mesmo tendo medo da resposta.

- Claro que assisti sua quenga. Você é assunto em tudo quanto é rede social e revistas de fofocas. E o seu vídeo já passou de um milhão de visualizações em 17 horas de publicação. Você é oficialmente uma subcelebridade que não precisou entrar no BBB pra ser uma. – sua gargalhada tomou conta do meu cubículo no andar do prédio.

- Mas que porra?! – eu tinha visto o vídeo no começo do dia e já haviam muitas visualizações, mas 1 milhão era... Muito pra cacete! Eu não esperava nada diferente em ter o vídeo publicado na internet, até porque eu estava no meio de jornalistas e torcedores que assistiram a cena e não perderiam a oportunidade de gravar a novata pagando mico com o melhor jogador do ano do time paulista mais torcido pela população (sim, o Corinthians, meu amado Corinthians). Mas não sabia que seria tão bombástico ou atrativo para a galera.

Ricardo era a nova contração do clube e sua mais nova estrela. Desde criança ele jogava na várzea e teve sorte com seu empresário ao receber essa chance no Corinthians. O cara é um ótimo jogador, de verdade, fora o meu desprezo por ele no momento.

E novamente eu estava me vendo no Youtube, prestando mais atenção nos meus movimentos e nos do Ricardo, o cara realmente me destruiu. E deveria, porque ele é profissional e eu sou... Bem, eu. Dessa vez consegui escutar o som do vídeo, ao fundo o som de risadinhas e frases de animo como "Vai Clara, você consegue". Pelo menos alguns deles torceram por mim. E o vídeo realmente estava na página principal do site, ou seja, estava mais popular do que o vídeo dos pandas fofinhos.

Não sabia onde colocar a cabeça e tive vontade de gritar pela vergonha mundial que ia passar, mas ao mesmo tempo quis rir, e rir muito, da coisa mais sensacional que já aconteceu comigo.

Todos do andar já tinham assistido ao vídeo, então o “Bom Tarde” de cada um veio acompanhado de o sorriso largo ou alguns tapinhas nas costas dizendo "Tá famosa."

***

Passei a tarde toda dividida entre trabalhar e ler o que estavam falando de mim. No quesito ‘trabalhar’, separei link's e imagens de notícias do dia relacionados só ao esporte e fiquei postando nas redes sociais. Sobre o assunto ‘eu’, vi que meu nome apareceu uma vez (e permaneceu durante horas) no Trends Topic's do Twitter e fiquei xeretando sobre o que o povo estava falando sobre mim. Foi um misto de elogios e xingamentos (Oi?).

"Cara, essa mina é linda."
"Meu Deus, que garota folgada, quem é ela na fila do pão?"
"Próxima Geyse Arruda, só que do Futebol."
"Corajosa. Adorei essa garota."

Muitos desses tuítes tinham mencionado o meu user e o user do Ricardo, que também era um usuário assíduo dessa rede social. Ainda bem que eu estava na conta do Jornal e não estava recebendo as notificações diretamente.

- Ei. – Novaes me tirou a atenção. – Vem na minha sala.

Engoli seco e o acompanhei.

- Senta. – ele tirou os óculos e me deu um sorriso. Ok, não eram notícias ruins. – Você ainda será humilde?

- O quê?

- Esse vídeo não fará você levantar o nariz e nem se achar melhor que ninguém, certo? – ele levantou uma das sobrancelhas questionando.

- Claro que não Novaes! Se fosse um vídeo sobre a minha descoberta da cura para a AIDS, tudo bem. Mas é pura humilhação. – sorri.

- Só não permita que esse momento de atenção te ofusque. E também tenha cuidado. Você sabe muito bem como os jornalistas são... Principalmente envolvendo uma anônima e um jogador.

- Ok chefinho, pode ficar despreocupado. Era sobre isso que queria falar? – sorri. Lá estava o Novaes em um momento pai.

- Também. A outra coisa é que por conta desse estopim você será a responsável regular por acompanhar os jogos do Corinthians.

Ou seja: ver o Ricardo sempre que possível, entrevistá-lo, pesquisar sobre ele (sobre os outros jogadores também, mas no momento nada se compara a importância dele no time), ficar 7h no escritório fuçando a vida dele, perder meus fins de semana para assisti-lo jogando...

Como o Henrique tinha dito.

"Jornalista que desafiou Ricardo na quarta-feira é um dos assuntos mais comentados no Twitter e bate record de visualização em um vídeo caseiro."

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