SEIS

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Eu tentava deixar o vestido o menos amassado possível enquanto Pablo me guiava pelo caminho de volta até a porta de entrada da mansão, tentei ajeitar o cabelo também, sem grande sucesso.

Parados já do lado de dentro estavam grandes carroças guiadas por cavalos robustos, com homens bem vestidos parados logo ao lado. Eram todos gordos e baixinhos e, em maior parte, carecas. O mais baixo, gordo e careca deles tomou a frente, como o líder.

– É um prazer conversar com o senhor novamente, Pablo.

– O prazer é todo meu.

Todos tratavam Pablo como adulto, iria negociar por conta própria sobre os recursos da família? Por que isso não ficaria a cargo de seu pai? Nenhum daqueles homens me cumprimentou diretamente, apenas encararam significantemente aquela garota que saíra com os cabelos bagunçados do meio do jardim, acompanhada de um homem.

Pablo disse que eu ficaria do lado de fora da sala, mas segurou a minha mão e me guiou para dentro dela. Sentei em uma cadeira afastada dos demais visitantes, que não me trataram como se fosse mais do que um abajour ou uma serva.

Durante dez minutos, presenciei a conversa mais sem sentido da minha vida, como se fizesse parte do cronograma da burguesia ter um diálogo descontraído sobre o tempo e a comida de outros reinos antes de entrar no verdadeiro tópico da visita. Pablo os odiava e eu sabia disso, são eles os motivadores da pergunta "por que ficar feliz" do jardim. Mesmo assim, sorria educadamente e entrava em qualquer brincadeira sem sentido que surgia.

O clima foi mudando lentamente até começarem a falar realmente sobre negócios. Aparentemente existe um reino ao norte que possui fontes abundantes de fósseis líquidos, que são um importante ingrediente de todas as novas invenções. Apesar de ser um recurso natural da propriedade do reino, outros líderes políticos acreditam que ela deva ser partilhada gratuitamente e agora que encontram resistência, querem tomar á força.

– Naturalmente o senhor há de entender que estamos falando do futuro da humanidade – disse o representante. – Não podemos deixar tudo na mão de poucos.

– Eu entendo que – respondeu Pablo –  enquanto o nosso ouro e grãos eram o que existia de mais importante, nós podíamos vender a preços abusivos em qualquer mercado, e agora que eles possuem algo de valor, querem obrigá-los a dividir de bom grado. – Pablo os estava acusando de injustiça, ainda assim falava com serenidade, como em uma conversa casual.

– Você está enxergando a situação da ótica errada.

– Não existe ótica correta quando se defende uma guerra.

A tensão era uma crescente, eu continuava não sendo mais do que um objeto em uma sala sobre os mais importantes assuntos políticos do mundo. Nenhum dos outros homens opinava, apenas Pablo e o representante.

– Sempre acreditei que a sua visão de mundo é muito bonita, Pablo. Mas você é apenas um jovem rapaz, ainda tem muita coisa para aprender sobre a vida. A guerra não é agradável, entretanto é necessária. É um risco, uma aposta para permitir que o mundo continue a girar.

– Eis o problema – Pablo respondeu. – Quando o rico aposta na guerra, o pobre é quem morre.

O representante forçou uma risada sarcástica, olhando para os colegas que repetiram a reação:

– Acho que o senhor deveria pensar um pouco melhor. Leve em consideração que vim de muito longe apenas para conversar com o senhor.

– Agradeço a sua atenção, mas desde o começo avisei que seria irredutível.

– Sim – o representante balançava a cabeça lentamente, o encarando e parecendo um tanto ameaçador. – O senhor avisou... Naturalmente também devo alertá-lo das consequências.

– Esclareça-me sobre as consequências – Pablo cerrou os olhos, tudo parecia uma espécie de encenação, ambos estavam definitivamente com os ânimos exaltados e lutavam para parecerem os mais cordiais possíveis.

– Fui informado de que a sua máquina voadora irá precisar do combustível à base dos fósseis. O senhor deve entender que se conquistarmos as represas sem a sua ajuda, precisaremos restringir o comércio da matéria-prima e... 

O representante se assustou com o barulho que a mesa de madeira fez quando Pablo a bateu com os punhos fechados, derrubando todos os copos de vidro da superfície. Todos os outros homens pareceram agitados, sem saber o que fazer, Pablo havia se levantado e não parecia tão novo naquele instante. Naquele momento: era o senhor da sala.

– NÃO OUSE AMEAÇAR A MINHA CRIAÇÃO! – esbravejou. – Saia da minha frente, antes que eu enfie essa espada na sua garganta! – Havia realmente uma espada sobre a mesa que eu, até então, não havia notado.

Para a minha surpresa, o representante, talvez meio confuso pelo surto repentino do jovem, levantou-se e seguiu em direção à porta sem falar nada. Parou no meio do percurso e se virou para Pablo:

– Você sabe como o reino de Amberlin foi erguido? – Perguntou.

– Eu tenho livros de história, obrigado.

– Quando Onn descobriu essas terras, passou a explorar todas as riquezas naturais. E para povoar, trouxe barcos e mais barcos carregados de humanos da pior espécie: ladrões e prostitutas em sua maioria. Todos que nasceram aqui guardam esse sangue nas veias. Alguns estudiosos dizem que personalidade é hereditária, que as características passam através das gerações. – E olhou para mim pela primeira vez desde que entrou na sala. Encarando de cabeça aos pés a garota sentada, com os cabelos bagunçados e vestido amassado, antes de completar. – Mas acho que você já descobriu isso.

Um chute no peito derrubou o representante, que perdeu o ar no chão enquanto Pablo apontava uma espada para a sua garganta. O representante o encarava de baixo, ofegante, claramente assustado e arrependido. Pablo pousou o pé esquerdo sobre o peito do homem e aproximou assustadoramente a espada da garganta, com os olhos queimando em fúria.

– Não! – intervim, correndo para perto e segurando o braço de Pablo antes que ele fizesse uma besteira. – Pare, por favor.

Nesse momento a porta se abriu, entrando uma série de guardas atraídos pela confusão, seguidos de perto por um homem com grande barba branca, em uma cadeira de rodas:

– Olha só! – exclamou sorrindo, como se não entendesse a gravidade da situação. – Parece que o meu filho finalmente aprendeu a negociar. 

MAIS LEVE QUE O AR (HISTÓRIA COMPLETA)Onde as histórias ganham vida. Descobre agora