Capítulo 07 - A doce descoberta de uma nova função útil

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Os campos de lavanda da cidade de Valenose ficaram para trás e a reconexão com a arte prometeu reaparecer assim que respiramos o ar da intensa Arles, a conhecida e mais turística cidade da região da Provença. Importante desde a época do império romano resguardava o Fórum e o Anfiteatro de forma que mantinha os visitantes curiosos e excitados com a possibilidade das novidades. Eu, como os demais, era um desses. Esquecida por um momento dos infortúnios que ficaram no espaço anterior me permiti como os outros sonhar com uma noite de folga para explorar os recônditos históricos e me banhar de filosofia e um pouco de geografia da guerra.

E imaginar um momento longe do trabalho não era uma utopia. O próprio Daniel mesmo avisara que para o primeiro dia nos cabia apenas organizar o espaço e que a proporção que terminássemos estaríamos livres para o desfrute da forma que considerássemos justas.

Por falar em Caon era ele o único que não aparentava contentamento, mas suponho que nada tinha a ver com a situação corrente a menos que essa detivesse olhos claros e um metro e setenta. Seus olhos apertados sequer conseguiam disfarçar a frustração de falar e não ser devidamente respondido, de comunicar e não ser olhado.

O último, inclusive, acabara de acontecer. Durante o discurso que provocou tantas reações de alegria o irmão de Venturotti não conseguiu uma único sinal de aprovação. Rafaella somente o escutou por educação e depois que virou-se saiu, sem mais. Naquele momento sequer pareciam os mesmos amigos que vira há alguns dias caminhando lado a lado pelas instalações do circo, o que me levava a crer que ou a situação com Petrix a atingiu mais fundo do que a superfície permitia ver ou realmente havia acontecido alguma conversa oculta que eu não tinha nem intimidade ou coragem para questionar.

Assim, com as indagações travadas em minha língua, acompanhei a saída da acrobata do picadeiro com os olhos de maneira inevitável procurando com curiosidade algum indício do que poderia ter sido falado. 

— Não faz mal cuidar da própria vida só de vez em quando — Escutei assim que Daniel passou por mim com seu sorriso de poucos amigos. O homem estava evidentemente descontente, tanto que ousara me afrontar com palavras muito diretas, ação que não tinha a ver com sua maneira passiva-agressiva comum de responder.

Hesitei em retruca-lo, enxerguei no flamejar dos olhos verdes que era isso que esperava e somente a fim de confrontar sua necessidade de enfrentamento dei um sorriso repuxado e usei do meu tom mais calmo.

— Porque se fizer você deve estar colérico, não? Afinal anda cuidando tanto da minha que até insinua por um olhar que cuido da de outra pessoa... — O semblante até então contido fica possesso e imaginei que o rapaz finalmente me diria coisas desagradáveis em alto tom.

Acho que até o próprio imaginou que viria uma farpa mais ardente, no entanto, fomos interrompidos em meio a troca por algum mágico que precisava conversar sobre finanças que proporcionou minha saída a francesa.

Mas não sem antes ser observada como outrora eu fiz...

O dia se pôs no horizonte no preciso instante em que descendi do último mastro necessário para erguer a lona. Estava tudo pronto, resplandecendo mesmo a noite o espaço vazio que no dia seguinte ganharia vida com inúmeros sorrisos. Encarei por última vez o meu belíssimo trabalho e por fim me encaminhei aos trilhos imaginando o itinerário que seguiria nas próximas horas pela nova cidade. Já me imaginava tomando uma bebida quente, nada alcoólico, dançando nas ruas e terminando minha noite com os pés calejados de tanto caminhar pelos ladrilhos. Andaria de barco, visitaria o museu de Van Gogh e conversaria sobre a arte como sempre fazia com um desconhecido qualquer em um idioma que não dominava com firmeza. A parte do espetáculo o que mais amava da vida no circo era a liberdade de poder conhecer novos lugares, histórias e pessoas. Seres adoráveis, alguns rabugentos e outros com uma mistura agridoce de luz e fúria no mesmo âmago. O último era alguém como a misteriosa Rafaella, a mulher que era capaz de transformar um cigarro em algo surpreendentemente poético. E poesia nem deveria ser tão intrigante.

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⏰ Last updated: Mar 02, 2021 ⏰

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