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Pen Your Pride

capítulo 1

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Início do crepúsculo. Consegui caminhar cerca de 20 km em duas horas e meia. A minha frente um vasto horizonte se expandia com cores que iam do azul ao púrpuro. Minha água estava no fim, e para comer talvez eu só tivesse algumas barras de cereal light dentro da mochila que carregava nos ombros.  Sem mantimentos, sem proteção contra o frio... Talvez eu não fosse durar uma noite perdida naquele deserto.

Meus lábios, não importava a quantidade de água que eu tomasse, sempre estavam secos. E como eu precisava economizar o pouco de água que eu ainda tinha, limitava-me a somente umedecer a boca, para diminuir a ardência.

Meus batimentos cardíacos aceleravam vez por outra e a fraqueza era clara. Recusava-me a sentar e saborear uma das minhas barras de cereal, pois eu precisava continuar o meu percurso. Se eu me atrasasse seria o fim para tudo aquilo que eu almejava naquele momento. Eu continuaria. Sabia que eu era forte o suficiente para aguentar o estomago vazio por mais algum tempo. Eu sabia que tinha tomado a decisão errada de não me alimentar naquela manhã, mas eu não tinha como adivinhar que o dia que iria definir o rumo da minha vida seria justo aquele. Isso nem ao menos passara pela minha cabeça. Tola... Fora ingenuidade minha achar que eu receberia alguma espécie de aviso prévio. Isso nunca aconteceu com ninguém antes, por que eu seria a privilegiada? Eu e essa minha mania de achar que era alguém diferente e especial, que merecia ser escolhida para generosas caridades. A verdade é que eu sempre fui a última a ser notada ou elogiada por fazer algo significativo. Nunca me destaquei, e por esse motivo eu agora estava numa prova de sobrevivência.

Parei por algum instante para procurar em minha mochila por alguma lanterna. Para minha sorte, não precisei procurar muito e pelo menos isso eu tinha me certificado de jamais esquecer. Desde que me tornei amiga do “importante” Faulin Esmirros, um garoto da minha idade, considerado um dos mais espertos entre nós, tenho ouvido sem parar o que devo e o que não devo esquecer-me de colocar dentro da minha mochila, até ele sumir misteriosamente. Mas passei por tanta coisa nos últimos dias que acabei deixando de lado a tarefa de todos os dias organizá-la e certificar-me de que tudo estava lá dentro. Um erro irreparável. E o resultado fora esse: Total despreparo e desamparo.

Mas a boa notícia era que se eu não me atrasasse e conseguisse chegar ao Pino a tempo, minha vida dali em diante mudaria e eu teria a chance de me preparar para ser A melhor. Mas existe um porem: nunca fui informada ao certo do que teria além do Pino. Alguns diziam que no Grande Terminus a vida não era pura alegria durante as preparações como exaltado nos livros literários antigos. Alguns diziam que a vida lá era dura e disciplinada. Para ficar lá, você teria que ser forte e para chegar até lá, precisaria de sorte. E eu sabia que isso era verdade.

A noite chegara silenciosa, acompanhada de muito vento. A temperatura caíra uns 20°. Eu vestia um casaco semiusado que havia ganhando numa aposta, num beco próximo ao meu alojamento, mas ele não era quente o bastante para afastar o frio. Será que minha mãe já havia deduzido para onde tinham me mandado? Sem dúvidas. Não seria uma surpresa. Todos já deviam saber. Como muitos idosos rabugentos diziam a ela, eu era velha demais para tentar aquilo. 16 Anos e velha demais, está certo. Mas eu já começava a compartilhar da mesma opinião.

Puxei o capuz para a minha cabeça, tentando proteger meu rosto da areia e do vento e tentando me distrair do cansaço repassei em minha cabeça o terror dos últimos meses. Como me esquecer do dia em que nos comunicaram que minha família estava na lista dos Indisciplinados? Se estiver difícil para entender, não se preocupe. Irei explicar.

Epnedus Mivus, uma cidade de tradições passada de geração em geração durante séculos. Falando dessa forma deixo transparecer ser algo admirável, mas na prática, as tradições para manter a cidade sob controle e longe de uma crise econômica são absurdas. Afinal, ninguém da “Corte Suprema” queria dirigir um lugar com fama de desorganização. A “Corte Suprema” é como chamamos os governantes de Epnedus Mivus, nossa cidade. E para evitar uma desorganização descontrolada, a “Corte Suprema”, há muito tempo atrás, inventou um código que para eles tinha um desempenho excelente. Exceto para pessoas que ganhavam a vida como a minha família.

Tinna Landry LousensLeia esta história GRATUITAMENTE!