Azawagh

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Minha mãe sempre me disse: seu tio Joseph vai ser a ruína da família.

De fato, tio Joseph sempre teve ideias loucas. Acreditava em outros deuses, por Alá! Sempre foi evitado na família. Se vivêssemos há cem anos, alguém já tinha matado meu tio. E hoje acredito que talvez tivesse sido a melhor coisa a se fazer...

No fundo sempre admirei esse tio. Ele falava de coisas estranhas, mas eu gostava de discutir pontos de vista diferentes. Se todo mundo segue a mesma coisa e acredita no mundo exatamente do mesmo jeito, será que isso significa que o mundo é realmente desse jeito? Sempre tem alguém que pensa de jeito diferente, mas são muito poucos e no final das contas ninguém para pra tentar entender como essa minoria desenha o mundo.

A gente sempre discutia sobre religião e filosofia. Era ótimo! Ele contestava Alá e me falava dos seus deuses, que nunca havia ouvido falar, nem mesmo em trabalhos sobre mitologia de onde quer que fosse. É, esse meu tio tinha tudo para ser classificado como doido. Infelizmente, as coisas fugiram do controle e os doidos passaram a ser os outros habitantes do mundo.

Apesar de sempre conversar com meu tio vez ou outra, a minha história começou apenas há um ano. Por causa de uma garota, Sezen. Desilusão amorosa, você sabe, é o bicho. Quis mudar de vida, de cidade, de religião, e fui atrás desse tio em Malatya.

A gente pode viver uma vida toda do mesmo jeito, sem nada de interessante acontecer. Tem momentos, porém, que são tão loucos que mudam a vida da gente completamente, mesmo que em pouco tempo. Alguns segundos bastam e a vida nunca mais será como antes.

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Um cachorro bege, magro e alto, de patas brancas e longas, orelhas caídas e olhar atento. De pelo tão curto que apenas forma um tapete bege sobre sua pele. Caminha entre as ruínas de um grande restaurante. Tudo destruído, ainda há alguns restos de corpos espalhados pelo lugar.

Salta sobre o balcão, de onde pode ver melhor todo o lugar.

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Fimiq... Nome estranho que nunca havia ouvido anteriormente. Tio Joseph falava que era o deus que traria mudanças no mundo, que tudo seria diferente depois da chegada dele, que acabaria toda a desigualdade social. Que as pessoas idiotas e massificadas morreriam e seriam comandadas por gente bem mais interessante. O estranho é que ele dizia que tudo isso iria acontecer nesta ordem.

Enquanto as religiões falavam de salvação, de céu e inferno, tudo isso aconteceria aqui na Terra mesmo. Tio Joseph é um figura. Conheci o grupo todo, ele me apresentou. Eram oito malucos: Ayse, Dave Fikret, Dave Pekkan, Namik, Nazim, Sr. Gencer, Sr. Aksu e o tio Joseph.

Ainda lembro quando cheguei... Ayse, a única mulher do grupo, era uma prostituta. Vivia colada com Nazim, um alcoólatra drogado. Tenho certeza de que ele que levou ela pro grupo. Namik frequentava um templo budista, era o mais calmo. Os Daves eram engraçados... Fikret era um aristocrata, um mauricinho que pensava que era americano e queria fazer piada com tudo. Estava lá só pra curtir. Já Pekkan era ladrão de carros. Os dois viviam colados porque achavam engraçado os dois terem o mesmo nome. Claro, se não tivessem afinidade de fato essa piada ia durar pouco e iria cada um pra um lado. Também não está descartada a possibilidade de eles serem gays...

Sr. Gencer e Sr. Aksu, junto com meu tio, são os líderes do grupo. Três loucos obcecados por essa história da volta de um deus desconhecido. Sei muito pouco sobre eles, até mesmo sobre meu tio. Acho que os três tinham uma irmandade de longa data e um deles deve ser bem rico e financiar sempre o trabalho dos outros dois. Tenho certeza apenas de que o milionário não era meu tio...

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A mão leva um copo de uísque aos lábios frios. Um sorriso leve. Parece ter vinte anos e, de cabelos pretos longos e lisos, ele se deita sobre o balcão como quem se estende sobre uma esteira na praia. Com um sobretudo preto, como todo o restante das roupas e uma espada de um metro ainda na bainha preta também está ali no balcão, ao seu lado, presa à calça. Barulhos inumanos lá fora não o assustam. Gemidos estranhos e muitos passos, no que até pouco tempo era silêncio.

AzawaghOnde as histórias ganham vida. Descobre agora