16.1 CUECAS

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CAPÍTULO 16 - E DEIXA A VIDA ME LEVAR, VIDA LEVA EU

Havia algo amarelo forte adentrando meus olhos através das pálpebras, impedindo que relaxasse e voltasse a adormecer após o barulho de panelas que eu ouvira há um minuto. Grunhi, me revirando na cama e sentindo todo o meu corpo reclamar de toda a movimentação dos últimos dias. Só não declarava morte aos meus músculos porque eles ainda estavam agonizando de dor.

Pretendia passar o resto da vida na cama, mas quando me virei de barriga para cima e estiquei meus braços cada um para uma extremidade do meu colchão, algo magnífico me acertou em cheio na face: o cheiro delicioso da comida da minha mãe.

Se tinha uma coisa pela qual valia a pena se levantar, mesmo quase morrendo de dor muscular, era a comida da minha mãe.

E eu ainda estava comendo por todos os anos que eu ficara sem aquilo em São Paulo, então empurrei-me para sentar na borda da cama e resmungando, pus-me de pé. Arrastei meu corpo quase inerte até o banheiro, onde escovei os dentes e lavei minha cara para evitar reclamações da senhora minha mãe quando eu chegasse até ela.

Alcancei a cozinha em um pulo; parecia que quanto mais eu me movimentava, a dor diminuía.

- Bom dia. Bença. - alcancei a cozinha e me joguei contra a cadeira da mesa de jantar.

Minha mãe estava batendo algo em uma bacia e virou-se para me olhar sem diminuir a movimentação de seu braço que guiava a colher de pão.

- Deus lhe abençoe, meu filho - sorriu. - Será que você pode bater isso pra sua mãe?

Queria fazer careta como um adolescente mimado, reclamar que estava cansado e não conseguiria fazer aquilo direito, mas lembrei-me que as dores só melhoraram desde que eu tomara coragem de me levantar àquela manhã, então... Por que não?

Concordei com a cabeça e ela me passou a vasilha e a colher de pau e eu comecei a bater as claras que estavam ali dentro, formando uma massa esquisita e espumosa.

- O que vamos almoçar? - perguntei, estranhando.

- Bife à milanesa - respondeu, com seu costumeiro bom humor.

Animei-me um pouco mais e pus-me a bater as claras com mais força, querendo terminar logo para comer. Bife à milanesa era uma das minhas comidas favoritas no mundo e como eu não sabia fazer e, nos restaurantes, a crosta não era tão gostosa assim, minha barriga já estava roncando de felicidade.

Terminei em poucos minutos, o que com certeza era um recorde. Coloquei na pia, ao lado da organização que minha mãe fazia ao redor dos bifes e aproveitei para dar um beijo em sua bochecha. Ali, perto do fogão, pude reparar que o cheiro delicioso que eu sentira lá do meu quarto era o feijão que estava cozinhando, misturado com o arroz que estava já quase pronto.

Tudo parecia maravilhoso, como sempre.

Não, não como sempre. Eu me lembrava de algumas comidas péssimas que minha mãe fizera na minha adolescência. Quando meu pai era chefe do tráfico e a polícia fazia investidas na favela, ela sempre ficava descontrolada e nervosa, o que resultava em algum erro trágico na comida. Isso era um pouco raro porque, na época, era só pagar uma propina gorda para os policiais e eles nos deixavam em paz. Agora, isso era cada vez mais incomum e difícil, mesmo quando a propina era paga, as vezes eles invadiam...

Lembro que quando meu pai foi preso pela primeira vez, nós vivemos de miojo por duas semanas até que ela se acalmasse. E quando ajudaram ele a fugir da cadeia, ela errou mais algumas receitas por um tempo.

Encarei minha mãe, pensando no quão forte ela ficara desde que perdemos meu pai. Ela quase não aparentava o nervoso de ver Pepê envolvido nas mesmas tramóias, ao menos sua comida não parecia fugir mais da linha.

Queria tanto poder ajudá-la, tirá-la dessa vida e arrastar o teimoso do meu irmão junto... Mas eu só estava levando caixote e a vida estava me arrastando de volta para o mesmo lugar de onde eu me debatera tanto para sair.

Havia alguma escolha?

- Seu irmão vem com a Marcela almoçar, então vá vestir algo decente - minha mãe me tirou do meu devaneio depressivo e eu tive que abaixar meu olhar para perceber que só estava em minhas cuecas. Concordei com a cabeça rapidamente e fui para o meu quarto trocar de roupa.

Quando retornei à cozinha, a comida estava toda em cima da mesa, Pepê e Cela já estavam em seus lugares e minha mãe estava colocando uma garrafa de Coca-Cola bem ao centro daquela confusão organizada. Parecia até uma propaganda de TV e eu sorri, ganhando três sorrisos imensos de volta, por ter aquele pequeno pedaço de certeza no meio da confusão toda.

Minha família podia não ser a mais certa de todo mundo, podia estar enfiada em vários tipos de problemas e histórias problemáticas, mas sabe de uma coisa? Era a minha família e nós éramos muito felizes com o pouco que tínhamos, porque tínhamos uns aos outros.

- Como vocês estão acordados? - Questionei, recebendo uma gargalhada de Cela em resposta.

Nós quatro nos servimos com a comida, enquanto fazíamos um resumo para minha mãe sobre como fora o carnaval. Isso significava, na verdade, que Cela e Pepê estavam atualizando a minha mãe sobre meu relacionamento com Drica, enquanto ela comemorava e eu revirava os olhos, sem saber como reagir.

Estava quieto, após comer, enquanto Pepê e Cela soltavam piadinhas sobre como Drica e eu sumimos por algumas horas durante o dia anterior, quando resolvi mexer no celular e ignorar minha família totalmente - por serem tão inconvenientes.

Não que eu não gostasse de Drica e não que eu não ficasse feliz em saber que eles apoiavam eu estar com ela, mas só porque nós estávamos só nos conhecendo e nos curtindo e com toda o jeito desprendido dela, tinha medo de acabar e todo mundo - além de mim - ficar decepcionado.

E ao pegar no celular, franzi a testa ao notar uma mensagem no whatsapp de Talles.

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