15.3 CONFIDÊNCIAS

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Eu já estava no quarto há cerca de vinte minutos quando Mila me alcançou, também já banhada e sem sua fantasia. A memória dela beijando a garota no dia anterior ainda me deixava envergonhada, mas, para disfarçar, falei a primeira coisa que se passou na minha cabeça:

- Acho que eu vou querer uma massagem nos meus pés também - brinquei.

Mila se jogou na cama-gaveta embaixo da minha e soltou uma gargalhada que me fez sorrir levemente. Suas mãos foram automaticamente para os próprios pés e ela soltou um suspiro.

- Só se você fizer uma em mim também.

Congelei no lugar e, assustada e envergonhada, olhei para o lado oposto. Eu sabia que era bobagem, mas, no momento, achei que ela poderia estar dando em cima de mim. Completamente sem sentido, mas eu estava assustada com aquela história nova e não sabia exatamente o que fazer.

- O que houve? - Era claro que Mila iria reparar. - Você está estranha comigo...

Abaixei minha cabeça e soube que eu não poderia mentir. Voltei meu olhar para Mila, que me encarava com seus olhos cerrados, como se estivesse avaliando toda a minha postura.

- Eu vi você com aquela garota ontem - sussurrei, em confissão.

Mila pareceu compreendeu imediatamente, suspirou em alívio por ser apenas isso e sorriu de forma aberta para mim, calma.

- Aquela era Manu - ela me sorriu. - Minha melhor amiga. Ela gosta de garotas, as vezes. E de garotos, nas vezes que não gosta de garotas. Talles achou a ideia interessante.

Isso JP já tinha me dito; não me parecia menos constrangedor que antes, então achei que deveria encarar o roxo que brotara no meio da minha coxa e cutucá-lo, tentando imaginar como foi que aquilo apareceu ali e estava doendo sem que eu nem me lembrasse onde eu me machucara.

- Mila... - embora eu tivesse morrendo de vergonha, achei que deveria perguntar para alguém e por mais que eu amasse Cela, a possibilidade dela contar para Pepê e chegar nos ouvidos de JP era alarmante. -Sexo é... hm... - a pergunta desapareceu da minha mente quando Mila arqueou as sobrancelhas ao ouvir a palavra "sexo".

- JP e você estão ficando sério, é? - perguntou. Concordei com a cabeça, completamente envergonhada. - Você nunca fez isso, fez? - Neguei. - Você não está apressando tudo porque ele é mais velho, está?

Fiquei ainda mais incomodada e se eu pudesse, me enfiaria covardamente debaixo das minhas cobertas, mas sabia que isso não evitaria a conversa e as perguntas que viriam a seguir. Mila não me deixaria fugir daquilo nunca mais.

Mas era a verdade. Eu estava querendo amarrar JP a qualquer custo e eu sabia que não demoraria muito para enjoar dos beijinhos e dos amassos que nós dávamos e começar a querer algo mais intenso.

- Dói? - perguntei com a voz tão baixinha que eu achei que ela não iria escutar.

Ouviu, porém. Fez uma expressão engraçada com o rosto e, em um suspirou, pulou para cima da minha cama e me abraçou levemente.

- Não vou mentir pra você, Dri - disse. - a minha primeira vez doeu bastante. Eu não posso culpar o cara porque eu não o avisei e eu estava completamente bêbada. No final, foi uma droga. Demorou pra eu começar a gostar, na verdade.

Eu não disse nada, fiquei apenas encarando-a, acalentada em seus braços, esperando que ela continuasse. Ao perceber o que eu queria, ela suspirou e sorriu.

- Depois dessa vez... Manu e eu estávamos nos conhecendo e começamos a ficar muito amigas e ela passou a me levar em festas e me apresentar pessoas. Conheci o Renan assim. Nós meio que namoramos, mas ele só ficava comigo porque eu... Bom. Ele me dava presentes e eu o agradava - ela pareceu envergonhada e corou enquanto narrava, então me afastei de seus braços para prestar atenção. - Nunca foi bom com ele. Manu me contou que gostava dele e eu não conseguia entender, mas então ela sugeriu que ficássemos pra que ela pudesse ficar com ele, então nós duas transamos e foi a primeira vez que eu senti alguma coisa boa. Achei que eu pudesse ser lésbica por um tempo, então Manu e eu ficamos algumas vezes por umas semanas, enquanto eu tentava me afastar do Renan... Porque ele não era bom pra mim e porque Manu gostava dele. Então, tinha o Cael. Cael era filho de um amigo do meu pai e eu ouvi que os dois torciam para que ficássemos juntos. Eu estava já me sentindo culpada pelo meu comportamento, então pensei: por que não? Se nos gostássemos, talvez o agradasse. Então investi nele e nós ficamos duas vezes e foi bom, não exatamente bom... Bom. Mas não doeu mais e eu senti coisinhas, foi melhor que com Manu, bem melhor que com Renan ou que a minha primeira vez, aí descobri que eu não era lésbica.

- Só que aí eu tive uma recaída. Renan chegou com Ecstasy e eu... Fui. - ela continuou - Então deu a confusão que você deve saber e eu tive que passar quase seis meses em um spa-clínica de reabilitação, chamava Na Linha e eu achava isso rídiculo, e então fui pra faculdade... E conheci o Talles.

- E aí? - perguntei, curiosa. Eu tinha ideia de como Talles e Mila começaram a ficar, mas ela nunca tinha me contado a história direito. Não daquela maneira.

- Aí eu fugi dele por uns dois anos - riu. - Mas ele me encurralou em uma aposta e nós acabamos... Dri, o Talles me faz sentir coisas que eu nem sonhava que eu podia sentir quando eu transei pela primeira vez. Quando nós transamos pela primeira vez, foi tão, tão intenso, que eu tive um orgasmo múltiplo. Eu nem conseguia ficar em pé.

- Isso é bom?

Ela gargalhou, concordando com a cabeça.

- É. É muito bom. - ela sorriu. - Não pensa muito sobre a primeira vez. Dificilmente vai ser boa, mas o importante é o que vem depois. E se você quer minha opinião, o JP é um fofo e ele vai tomar todo o cuidado necessário pra você se sentir confortável. E você não vai demorar tanto tempo pra gostar quanto eu levei, não com ele. Ele é do tipo que se importa.

Eu concordei com a cabeça, mas encarei a parede à minha frente, com a cabeça rodando com a quantidade de informação nova, sem saber que diabos eu fazia com isso.

- E, Dri - ela me chamou, levou a mão ao meu rosto e levantou-o pelo queixo, para me encarar. Sorriu, levemente, ao que eu correspondi, agradecida por suas palavras. - Ele vai te esperar. Não faz isso porque você acha que ele não vai; ele vai. Só... Fique pronta, ok?

Ficar pronta. Eu não sabia o que ela queria dizer com aquelas palavras, mas concordei com a cabeça e ela desceu para a sua cama com o sorriso.

Embora eu tivesse muitas informações novas na cabeça e elas estivessem embaralhadas como um nó, eu acabei dormindo rapidamente de cansaço.

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