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CAPÍTULO QUINZE - O PRIMEIRO PASSO É TOMAR CORAGEM

Eu estava exausta. Tão cansada que era possível que eu fosse declarada morta com facilidade. Mal conseguia manter meus olhos abertos quando chegamos à Central do Brasil, andando como um zumbi. Em respeito a isso todos decidiram que esperar um trem em que pudéssemos voltar sentados.

Pepê e Cela se juntaram a nós naquele (graças a Deus!) último dia e o único em que passamos o dia inteiro juntos, aliviando um pouco o meu mal estar ao lado de Mila e Talles por saber o que havia acontecido no dia anterior, e ficar extremamente envergonhada disso, mas era completamente impossível ignorar aqueles dois; então, apesar do meu desconforto, era como se eu não soubesse de nada.

JP me acalentou assim que eu sentei ao seu lado do trem. Ele, Pepê e Talles correram na frente para nos conseguirem lugar. Cela sentou-se ao meu lado com um sorriso babaca e me sussurrou um "irmãs!" que me fez virar os olhos. Talles tinha se confundido e fora para o outro lado; ele e Mila tinham conseguido seus lugares, mas eu não conseguia vê-los.

Bocejei e me apertei contra JP, que riu e me deu um beijo no topo da minha cabeça. Suspirei e fechei os olhos, desejando que as malditas luzes do trem se apagassem e ficasse tão escuro quanto à noite lá fora.

- Eu nunca mais faço isso - sussurrei para ele, que gargalhou da minha cara.

- É um bom treino para a faculdade - ele me alertou. - Você vai descobrir como dormir é uma coisa completamente irrelevante.

Eu já estava a meio caminho de desabar de sono, embalada pelos braços de JP e o balanço do trem, mas dignei-me em rir.

- Eu não sinto minhas pernas - desabafei.

- Isso, morena, é exclusivo do carnaval mesmo - ele me garantiu.

Pode ser que ele tenha dito algo depois, mas eu dormi extremamente rápido e não ouvir mais nenhuma palavra sequer.

- Estamos chegando, morena - JP me acordou cerca de uma hora mais tarde.

Espreguicei-me preguiçosa e sorri para ele, que me observava. Adorava que ele me chamasse de morena daquela forma carinhosa, mesmo que eu tivesse odiado da primeira vez que eu ouvi. Decidi que talvez fosse uma boa chamá-lo de moreno de volta quando tivesse a oportunidade.

- Ai, acabou - murmurei.

JP riu e esfregou a mão em meu braço. Pepê e Cela nem nos davam atenção; estavam se beijando levemente e pareciam morar em sua própria bolha.

- Acho que alguém não escolheu a profissão certa - JP me zoou.

Dei de ombros, olhando ao redor para notar que ainda nos faltava uma estação antes de descermos, então me apertei ainda mais no abraço de JP e senti-o suspirar, seus braços também apertando de volta.

- Eu estava pensando na copa e nas olimpíadas - confessei.

JP riu porque ele sabia que isso era quase um problema universal. Todo mundo achou que ia arrumar emprego e ganhar dinheiro com os mundiais e a verdade é que quase ninguém conseguiu na copa e nas olimpíadas... Eu não planejava está no Rio para ver.

- Você e a metade do mundo, eu acho que - riu.

Mila apareceu na nossa frente com as asinhas de anjo da minha fantasia batendo nas pessoas em pé ao nosso redor. Parecia estar afobada e com cabelo e ligeiramente bagunçado demais para quem estava sentada e pensei: Será que aqueles dois não paravam nunca?

- É nessa agora, né? - perguntou. - Eu vi no mapinha, mas o Talles acha que ainda falta umas três.

Eles também não paravam nunca discutir. Será que se JP chegarmos a conseguirmos ter um relacionamento assim nós discutiremos tanto assim também? Eu achava que não.

- É a próxima sim - respondi, vendo Mila comemorar de volta para onde estivera antes, fazendo sinais levemente ofensivos e eu me voltei para JP. - Que doença esses dois têm?

- Eles devem usar uma coisa muito louca - JP riu.

- Não fui eu que vendi - Pepê entrou na nossa conversa, fazendo com que nós todos os ríssemos.

Descemos na estação com mais um monte de gente. Cela, agora não mais ocupada com o seu namorido, voltou à sua função oficial do dia: bater na cabeça de todo mundo como a sua varinha de condão (que era, na verdade, um pedaço de cano revestido de pano com a estrela da árvore de natal deles presa na ponta, provavelmente com superbonder, visto que não caía mesmo que ela batesse em alguém com força).

- Isso não é uma fada, é um demônio - Talles reclamou.

- Ei - reclamei também.

- Você é uma diaba, não um demônio - Mila me garantiu.

Dei de ombros, percebendo que Pepê estava caminhando pela estação com a mão no meio das costas de Cela e Talles tinha seu braço por cima do ombro de Mila, que estava com a mão descaradamente na bunda dele.

- Tanto faz - resmunguei.

Aproximei-me de JP e não pude conter o sorriso ao senti-lo envolver minha cintura de forma parecida a que Pepê fazia contas Cela, só que ainda mais próxima.

Subimos as escadas da estação como o grupo mais estranho que já se existiu, mas no meio de tanta gente adulta em fantasias tão rídiculas quanto as nossas, estávamos bem integrados.

- Mila, meu amor - eu chamei-a. Ela se virou para me olhar e nós todos paramos no meio da passarela de forma estúpida, atravancando todo o andamento das pessoas, mas, como era carnaval, ninguém pareceu estressado. Só passaram direto com suas cervejas, confetes e serpentinas - Da próxima vez que vocês vierem, vão sozinhos pros blocos. Eu nunca mais faço isso. Nunca mais.

- Ah, cale a boca - Cela me empurrou. - Nós vamos fazer isso todos os anos a partir de agora. Foi irado!

Eu estava à beira de chorar de desespero. Meus pés pareciam estar em carne viva e eu tinha plena certeza que se durasse mais um dia, eu não teria aguentado.

- Prima, não se preocupe. - Mila me piscou um olho. - Eu também não consigo mais nada.

Eu ri porque ela tinha compreendido meu problema sem que eu dissesse, então estava tudo bem. Cela olhou para nós duas enquanto os meninos pareciam esperar que nós decidissemos qualquer coisa.

- São esses malditos sapatos - Cela disse, por fim. - Eles ainda vão nos matar.

- Não seja por isso! - Pepê ergueu Cela nos braços, enquanto ela gritava. - Vamos, madame. Eu desço você.

JP me piscou um olho e quando eu lhe sorri, ele abaixou-se à minha frente e eu subi em suas costas, às gargalhadas.

- Não se atreva - Ouvi Mila ralhar com Talles, mas, pelo seu grito, ele a carregou mesmo assim.

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