14.3 SACRIFÍCIOS

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Ficamos sentados na areia da praia, conversando, por mais alguns minutos. Drica me perguntou mais uma série de coisas e eu só pude crer que ela era ainda mais inexperiente do que eu pensava. Sua vivência era limitada e percebi que era a primeira vez que ela se aventurava no carnaval de rua da cidade.

- Minha mãe não gosta muito que eu saía - disse-me, quando lhe perguntei. - Posso ir aos bailes de casa porque Pepê vai e ela sabe que ele me vigia. Mas só uma vez por mês, se eu tiver sorte.

Não estranhava que, na primeira oportunidade, ela quisesse voar para bem longe das asas da mãe e se deparar com um pouco de liberdade. Era muito diferente do que eu tivera, quando fui embora. Eu era extremamente livre e sabia me virar. Perguntei-me o que seria de Drica em São Paulo, completamente sozinha.

- São Paulo é muito maior que aqui - mudei o assunto drasticamente. - Se você não conhece aqui direito, eu tenho muito medo de você por lá.

Ela riu e passou os braços ao redor de mim, virando-se de lado e quase deitando no meu corpo, na forma em que se apertava contra mim.

- Eu tenho um amigo lá. Guilherme, ele joga futebol. Disse que vai me ajudar por lá - deu de ombros, como se fosse assim, simples. - E eu sempre posso ligar pra você, se eu me perder.

Eu ri, embora eu duvidasse que tudo corresse tão bem quanto em sua imaginação, não iria destruir seus sonhos. Esperava que ela os alcançasse, embora a ideia de tê-la indo embora não me agradasse.

- Sempre, morena - beijei-lhe o topo da cabeça. - Sempre.

Tinha entrado naquela apenas para me aproveitar das curvas de Drica, mas cada segundo mais ao lado dela, mais eu me encantava. E enquanto estivemos ali, abraçados, curtindo a brisa do mar e o barulho do carnaval, eu desejei que durasse para sempre.

Então, comecei a ficar com medo de quando ela fosse embora - porque inteligente como aquela ali, qualquer vestibular que a negasse seria realmente muito burro. Engoli a seco, percebendo que eu não queria que aquilo acabasse tão cedo.

- Ei - chamei-a. Ela levantou a cabeça e as minhas preocupações se dissiparam ao me deparar com o seu sorriso. - Isso está ficando sério, huh? - perguntei.

Eu sabia que lhe havia prometido deixá-la livre e eu não tinha pretensão alguma a prendê-la sem que ela se sentisse confortável com isso, mas ela mesma que tomara a escolha. Nós estávamos nos vendo todos os dias e ficando todos os dias de carnaval, embora eu sempre deixasse ela decidir se queria dar uma volta ou ficar comigo. E ela escolhera ficar comigo todos os três dias.

- O quê? - perguntou, sorrindo daquela forma que fazia meu coração acelerar e me deixava morto de vontade de girar naquela areia com ela e beijá-la até que meus lábios ficassem dormentes.

- Eu e você - sussurrei de volta.

Ela desviou o rosto do meu, mas continuou sorrindo. Senti sua mão afundar sobre a minha, na areia e entendi o que ela queria, então tirei o apoio, deixando com que nós dois caíssemos na areia, deitados uma ao lado do outro, mas com nossas mãos entrelaçadas.

Drica deitou-se sobre o meu braço, agora estendido e piscou demoradamente antes de olhar direto em meus olhos, coisa ao qual eu ainda estava me acostumando que ela fizesse.

- Acho que sim - disse. - Mas eu nunca vou perdoar você por encher meu cabelo de areia.

Soltei a maior das gargalhadas, não deixando nenhuma opção para Drica a não ser me acompanhar. Puxei ela para sair a areia e ela acabou por cima de mim. Tive que cerrar os olhos por causa do Sol, mas a pouca visão que eu tinha era uma das mais maravilhosas da minha vida.

Drica logo me beijou. Passei ambos meus braços ao redor dela, prendendo-a acima de mim, ao redor de sua cintura. Planejei girar com ela, mas ela soltou um grito e me empurrou, sentando e caindo na gargalhada.

Sentei-me também e passei meu braço pelos ombros dela, afastando as preocupações dos olhares das pessoas ao nosso redor quando ela virou-se para mim por vontade própria e me beijou.

- Chega de areia, então? - perguntei.

Ela concordou com a cabeça, rindo.

- Queria ir embora, descansar... - encostou a cabeça em meu ombro e soltou um longo suspiro. Ela estava no osso, dava para ver. Tinha vindo para Copa dormindo no trem. Ela e Mila tinham conseguido lugar, um pouco afastado uma da outra e Drica dormira a viagem toda - Ainda tem amanhã.

Como para ilustrar seu cansaço, ela bocejou. Virei meu rosto para ela e lhe dei um beijinho na ponta do nariz, lhe provocando uma careta.

- Queria ter vindo de carro, então. Você poderia dormir enquanto esperamos sua prima - Sugeri. - Porque aquilo ali, morena, vai demorar.

Ela deu de ombros, ainda um pouco desconfortável, e encarou o mar à nossa frente. Soltou um longo suspiro e abriu um sorriso, voltando a me encarar.

- Ou a gente pode só ficar aqui, deitado, talvez cochilar... Ou não.

Seu sorriso me dizia claramente o que o ou não significava e eu espelhei-o rapidamente, desejando sua sugestão muito mais do que a minha.

- Mas aí você vai ter que estragar o cabelo - eu ri.

- Sacrifícios que a gente faz por quem a gente gosta - ela deu de ombros, displicente.

Eu peguei tudo na hora que ela disse e cerrei meus olhos em sua direção, antes de puxar sua boca para a minha, sentindo-a estremecer. Sabia que pouco do seu tremor tinha a ver com o meu beijo, era muito mais pelo que ela estava dizendo.

Deitei-a ao meu lado, beijando-a calmamente. A praia estava cheia e se eu quisesse as coisas mais intensas com Drica, nós teríamos que sair dali e ir para um lugar mais discreto - ou ela acabaria morta de vergonha.

- Eu também gosto muito de você, morena - disse-lhe, aumentando seu sorriso.

Drica suspirou e se enroscou em mim, afundando sua cabeça em meu ombro. Acabou por tirar um cochilo, mas despertou rapidamente quando o bloco passou, estrondante. Então fomos para um cantinho e passamos o resto da tarde aos beijos, esperando Talles e Mila aparecerem.

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