14.2 À TRÊS

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Mesmo com a briga com Mila no primeiro dia, todo dia antes de sairmos, Talles reclamava sobre não utilizarmos o carro. Hoje, no terceiro dia, suas reclamações estavam um pouco mais chatas porque tínhamos ido e voltado em pé, no dia anterior.

Drica e eu não nos importamos, além de estarmos acostumados, gastamos aquelas horas nos beijando e nos apertando, colocando a culpa de nos esfregarmos no excesso de gente e não na nossa própria vontade. Talles e Mila, porém, não tiveram a oportunidade. Na ida, Mila e ele estavam brigados de novo. Na volta, ela estava bêbada demais e um moço de bom coração lhe ofereceu o lugar.

- As ruas principais ficam fechadas - eu lhe expliquei pela terceira vez. - E é impossível estacionar. Vamos estacionar tão longe que não vale a pena; é mais perto ir de metrô.

Ele não pareceu muito convencido, mas parou de reclamar. Não estava mais fantasiado, nem eu. Drica e Mila tinham trocado de fantasia no dia anterior, mas estavam de volta ao original.

E apesar de Talles estar se comportando mal como nos dias anteriores, Mila e ele não brigaram dessa vez. Ela apenas riu e esfregou seu braço, antes de abraçá-lo, o que eu achei estranho, mas, ignorando - o que era melhor do que tentar entender aqueles dois -, envolvi Drica em um abraço e tomamos nosso caminho para a diversão.

Desta vez, decidimos ir para orla de Copacabana. Tínhamos passado de carro, na sexta, bem rápido e quase não tinha dado para ver nada, mas agora o tempo estava ao nosso favor. Andamos pela areia por alguns metros, sentamos para ver as ondas enquanto a rua fervia de comemorações. Almoçamos em um quiosque e resolvemos, finalmente, nos unir à festa.

- Eu achava que Goiás era quente... - Ouvi Talles começar a reclamar e gargalhei.

- Não é tanto o calor - disse-lhe. - É a quantidade de pessoas.

Ele concordou com a cabeça, mas distraiu-se, puxando Mila mais para perto de onde ele estava, visto que ela já tinha saído pipocando na frente de nós três. Drica não saía do meu lado um segundo sequer, em contrapartida.

Mila parou ao lado de Talles e tirou o celular do meio dos peitos, fazendo Drica e eu encaramos o fato, curiosos. Era o meu dia de levar o celular e não pude entender porquê Mila estava com o seu - embora eu estivesse olhando curioso mais pelo fato de que ela o havia tirado do meio dos peitos do que por portá-lo.

Olhou para o celular por alguns segundos, antes de levantar a cabeça e olhar ao redor. Apertou o braço de Talles e apontou para a frente, para o carro de som.

- Manu está lá - anunciou. Virou-se para nós dois e continuou: - nos vemos mais tarde!

- E o nosso ponto de enc... - Drica não conseguiu terminar de falar porque os dois já tinham pulado à frente e não conseguiriam mais nos ouvir.

Abracei-a pela cintura, por trás e levei meus lábios à sua orelha.

- Relaxe, ela tem um celular - disse. - Ligamos para ela mais tarde...

Eu tinha mais uma coisa ou duas para dizer, mas eu continuei segundo o casal com o olhar para ao menos ter uma ideia de para onde eles estavam indo e quando eu entendi o que estava acontecendo, eu não pude acreditar na sorte que eu tinha. Percebi quem era a amiga que faltara o jantar e porquê Talles havia dito que era uma pena ela não ter ido porque eu poderia... Conseguir um emprego.

Manuela Montes estava dando pulinhos à frente, acenando para os dois. Eu ri, tranquilo, sabendo que uma conversa com Mila e ela me conseguiria uma entrevista, sem dúvidas. Olhei para Drica, na intenção de perguntar se ela não queria procurar um lugar mais tranquilo e esperar Mila ligar, mas encontrei-a boquiaberta. Segui seu olhar e encontrei o que eu tinha perdido.

Mila estava beijando Manuela na boca e eu deixei meu queixo cair também, assim como Talles, que tentava parecer contido, mas não estava. Assim que as duas se afastaram, Mila apontou para Talles e Manuela o beijou também.

Então o carro de som voltou a andar, as pessoas pularam mais alto e começaram a se mover e nós perdemos a visão do que estava acontecendo e eu só pude crer que aquilo ia demorar.

- Eu não acredito! - Drica estava horrorizada e repetia aquilo pela quarta ou quinta vez, mas só agora conseguia ouvi-la com mais clareza, puxando-a pela areia na direção oposta ao trio elétrico. - Você... Você viu? Eu não acredito!

Finalmente achei um canto da areia que parecia um pouco mais vago, era mais afastado do metrô e o próximo bloco só deveria passar por ali em uma hora, então sentei-me, puxando-a para o meu colo.

- Ei, por que você está tão chocada assim? - eu ri, porque eu sabia. Mila eraq um poço de inocência quando eu a conheci, tal como Drica agora. Lembro do quanto ela tossiu na primeira vez que experimentou maconha e pelas histórias que eu tinha escutado nos últimos dias, a experiência tinha se repetido um bocado de vezes. - Isso acontece, ué.

Pela expressão de Drica, ela não achava que acontecia, não. Encarou o mar por um tempo e se recostou em meu peito, quase sem piscar, presa em pensamentos.

- Você nunca tinha visto, é? - perguntei, reparando. Era de se esperar que trabalhando em um bar e frequentando bailes, isso já tivesse acontecido, mas ela enrijeceu. - Duas garotas se beijando? - ela finalmente negou com a cabeça. - Algumas gostam. Algumas fazem pra agradar os caras com quem elas estão. Suspeito que sua prima esteja na segunda categoria.

Drica não respondeu, mas dava para ver que ela estava confusa. Era aquela longa questão de que a gente não pensa sobre até acontecer com alguém próximo. Apesar de nunca ter sido estúpido para falar ou fazer algo homofóbico, eu só fui entender quando um colega de faculdade se assumiu.

- Você não pode culpá-las, sabe? - eu lhe disse. - Pense bem, se eu fosse uma garota, eu ainda eu ia morrer de vontade de pegar você!

Drica finalmente relaxou com a minha piada e riu.

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