14.1 NAS RUELAS

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CAPÍTULO CATORZE - TER PACIÊNCIA PODE SER RECOMPENSADOR

Foi Drica que me convidou a acompanhá-la nos blocos com Talles e Mila e eu estava um pouco surpreso. Desde que ela fugira do nosso amasso no carro, ficara ainda mais incerta na minha presença e parecia preferir estar em qualquer lugar que não fosse ao meu lado, mas como um passo de mágica, isso se encerrara. Agora, ela parecia mais com a morena que me encantara no bar, na minha segunda noite do Rio e eu estava muito feliz com isso.

Era fácil, estar com Drica. Muito mais fácil do que havia sido com qualquer outra garota, apesar da sua inexperiência e da sua juventude. Ela não se esforçava em parecer mais esperta ou mais engraçada, ela apenas agia normalmente, o que me deixava livre para não fingir ser alguém melhor do que eu era - e ela não parecia se importar, parecia preferir o meu eu real, mesmo que eu estivesse duro, fracassado e sem nenhum futuro.

Então, estávamos apenas nos divertindo, como era o proposto.

No primeiro dia de carnaval, eu descobri que Drica e Mila tinham combinado as fantasias e quando cheguei na casa de Drica para encontrar com eles, não pude evitar de deixar meu queixo cair. Era a mesma versão de fantasia: um colant, meias-calças e botas. Mila vestia vermelho, chifrinhos e rabinho, como uma diabinha. Drica, porém, vestia branco, com uma halo, e asinhas de anjo. Prendi minha respiração antes de grudar meu corpo com o dela e seus lábios nos meus, apreciando sua roupa.

Eu estava usando amarelo com uma camisa com estampa de cerveja e um chapéu em formato de tampinha. Talles estava apenas sem blusa e tinha amarrado um pano vermelho no pescoço; Mila improvisara um S em seu peito, desenhado em batom, mas eu só conseguia pensar que aquilo iria ficar extremamente nojento assim que ele começasse a soar, o que não deveria demorar muito.

Talles não pareceu contente em deixar o carro em casa. Ele não estava muito convencido de que era a melhor opção e nem um pouco feliz em ter que usar o transporte público, o que fez todo mundo rir. Drica e eu só estávamos brincando, chamando ele de "turista", mas é claro que Mila não perdeu a oportunidade de pegar mais pesado.

- Se eles dizem que é melhor, então é melhor - ela entoou. - Ninguém tem culpa se você é um filhinho de papai que não consegue andar com as próprias pernas.

- Ah, é? E você é o quê, Mila? Morre de medo de carro, deve estar toda felizinha por causa disso.

- Minha mãe morreu num acidente de carro! - lembrou-o.

E eles passaram toda a viagem de trem sem nem se falar, Mila sentada ao lado de Drica e Talles sentado ao meu lado. E eu tenho certeza que o fato de que Drica e eu estávamos nos beijando não ajudou muito a deixá-los confortáveis, mas... É possível que tenhamos feito de propósito.

Assim que chegamos ao vuco-vuco dos blocos da Zona Sul, Mila tomou a dianteira, puxando Drica pelo braço, mas alerta, ela pressionou Mila até que eu a envolvesse pela cintura. Mais dois passos distante de mim e elas provavelmente teriam se perdido pelo resto do dia, sem chances de nos encontrarmos, visto que somente Drica estava com o celular - preferimos deixar os outros telefones em casa, por causa de assalto. Combinamos revezar quem levaria o único celular - para emergências e para fotos - e Drica tinha sido sorteada para aquele dia.

- Ei - chamei a atenção de Talles, que estava devidamente emburrado e com o S em seu peito já parecendo um borrão disforme - A galera agarra, aqui.

- Ein? - ele não entendeu, provavelmente por causa do barulho.

- A Mila. Fica de olho - eu disse. Vi-o cerrar os olhos, ainda tentando entender, mas pareceu compreender o teor da mensagem porque concordou com a cabeça.

Apenas dois minutos depois, ele envolveu Mila em um abraço parecido com o que eu envolvia Drica, e ela o estapeou, mas ao menos ele conseguiu afastar o cara que estava de olho nela e vinha se aproximando.

Percebi, então, que eu não estava dando chance para Drica decidir o que ela queria, como eu havia lhe prometido anteriormente. Soltei meus braços da cintura dela e ela franziu a testa em minha direção.

- Você é livre - eu lhe disse. - Faz o que você quiser.

E à díspar do que eu achei que iria acontecer, ao que as histórias que Pepê contava sobre como Drica costumava agir, ela revirou os olhos e me puxou de volta para perto dela, passando os braços pelo meu pescoço com um sorriso que me informava exatamente o que ela estava pensando: "você é estúpido, certo?"

Então, ficou decidido assim, sem ninguém dizer uma palavra, o óbvio acabou prevalecendo. Drica e eu estávamos fixos e eu não conseguia me conter de felicidade sobre.

Embora Talles e Mila costumassem dar um pouco de trabalho para manter ambos por perto, Drica contornou o problema sempre combinando uma localidade como ponto de encontro. Feito isso, nós dois acabamos deixando eles se perderem com um pouco mais de facilidade - e acho que eles se perdiam de propósito também - e, então, ficávamos nos beijando em algum canto, antes de procurarmos o ponto de encontro. Visto que alguém sempre acabava demorando demais para chegar ao ponto de encontro por estarmos sempre aproveitando outras coisas, no segundo dia, decidimos marcar horário.

- Tô me sentindo péssimo agora - murmurei para Drica, enquanto nós nos beijávamos em uma das ruelas transversais à Cinelândia.

A rua estava cheia, embora não fosse a principal e o bloco estivesse há algumas centenas de metros dali. Porém, dava para andar com folga e ninguém espremia ninguém - exceto os casais que se pegavam, incluindo eu e Drica.

- Ué, por quê? - Drica perguntou.

Afundei meu rosto no pescoço dela e sentia se arrepiar enquanto eu passava meu nariz pela sua pele macia, meus lábios roçando, hora sim, hora não.

- Você vestida assim, toda casta... - murmurei. Ela riu e senti suas unhas escorregarem do meu ombro para a minha nuca, me fazendo respirar fundo e estremecer - e eu cheio de más intenções com você...

Drica riu ainda mais e grudou os lábios nos meus, encerrando nossa conversa quase inexistente.

Toque de Recolher [NO MORRO]Leia esta história GRATUITAMENTE!