13.3 INVEJA

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Mila e eu levantamos cedo. Ainda estava escuro e era por volta de cinco e meia. Enquanto escovava os dentes, liguei para JP.

"Quê?" atendeu, parecendo todo perdido.

- Foi você que quis dirigir pra gente, lembra? - perguntei.

Demorou alguns segundos para ele despertar, mas, quando o fez riu abertamente e pareceu só então perceber o que estava acontecendo.

"Bom dia, linda" cumprimentou-me, de volta ao tom que ele usava para falar comigo que provocava arrepios pelo meu corpo. Respondi, meio sem jeito e ele continuou: "Que horas vocês querem sair?"

- Você pode chegar aqui em meia hora? - ouvi o trinco do banheiro estalar e eu sabia que Mila logo estaria do meu lado, provavelmente me zoando ou me empurrando para cima de JP. - A gente pode tomar café junto e aí sair.

"Claro. Já chego aí" me mandou um beijo e desligou no mesmo segundo que Mila apareceu do meu lado.

Mesmo que eu não estivesse mais falando no telefone, ela estava me lançando aquele olhar esperto de que sabia o que eu estava fazendo.

- Então, você e o João, ein? - riu, perguntando.

Só revirei os olhos enquanto eu começava a fazer a minha cama. Mila me imitou imediatamente, mas não parecia disposta a encerrar o assunto.

- Você não me falou o que aconteceu depois que você fugiu, simplesmente apareceu com ele lá - reclamou. - Não vai me contar?

- Minha mãe chamou ele - respondi.

- E só? - perguntou.

Bufei e uma mecha de cabelo embolado acabou flutuando no ar, antes de cair pateticamente pesada sobre o meu rosto.

- Ele disse que eu faço o que eu quiser na hora que eu quiser - meu estomago se embrulhava só com a lembrança das palavras dele.

- Isso é bom - ela sorriu.

- Sim, é.

Empilhamos nossos travesseiros e com as camas forradas, Mila se apoiou no pé da minha cama e virou-se para me olhar.

- E você quer fazer?

- Mila! - reclamei, fazendo-a rir.

- Está bem, está bem. Não tô nem mais aqui!

Para ilustrar que não estava mais, ela saiu do quarto e desceu as escadas espirais comigo em seu encalço. Sem fazer muito barulho e com tudo escuro, alcançamos a sala. Talles dormia sem camisa e eu tive que reparar que ele tinha um físico menos definido que o de JP, mas o pensamento me fez olhar para o lado oposto.

Ele dormia de lado e com os braços cruzados no peito (quem dormia com os braços cruzados, gente?) Mila sentou ao lado dele e o sacudiu levemente. Talles despertou com facilidade e sorriu ao ver Mila e lá estava eu caminhando até a cozinha para deixá-los se beijar com privacidade.

Minha mãe tinha deixado as coisas semi-prontas. Provavelmente, quando fechou o bar, a padaria estava abrindo, então ela deixou o pão na mesa e todos os quitutes na geladeira. JP chegou quando Talles finalmente se levantou e foi até a cozinha e Mila foi abrir o portão.

Comemos rapidamente, mas conversa vai, conversa vem, acabamos saindo bem mais tarde do que eu havia planejado. Mudamos o cronograma, então, fomos ao Jardim Botânico primeiro porque imaginei que seria um passeio mais rápido. Almoçamos cedo e fomos ao Corcovado. Duas horas de filas depois, conseguimos subir o bondinho e JP e eu nos sentamos em uma das lanchonetes, deixando Talles e Mila correrem ao redor do Cristo Redentor como duas crianças perdidas.

Depois de cerca de três mil fotos, descemos e fomos ao Pão de Açúcar. E foi melhor do que planejado porque vimos o pôr do Sol lá de cima, simplesmente esplêndido.

Descemos de bondinho já de noite e morrendo de fome. Paramos em um Bob's de rua porque foi a primeira coisa que encontramos de comer.

Talles e Mila, como durante todo o dia, fizeram questão de pagar. Eu estava um pouco sem jeito porque eles já tinham me dado um bolo de dinheiro de manhã, para pagar meus serviços de guia-turístico e apesar de eu não ter contado, eu sabia que era muito mais que o que eu poderia cobrar. Antes que eu pudesse reclamar, porém, Mila disse que era para uma boa causa. Então, eu acabei aceitando, envergonhada, e guardei, tirando algumas notas para me custear durante o dia, mas não tinha usado nenhuma até o momento.

Os lanches dos dois saíram antes e eles foram procurar uma mesa. Sozinhos, JP me abraçou e senti seus lábios em meu pescoço, me fazendo soltar um muxoxo de aprovação.

Eu não sabia o que estava acontecendo, mas era certo que eu estava me sentindo cada vez mais confortável com a presença dele. E era claro que eu nunca tinha avançado tanto com outra pessoa, física ou emocionalmente, e ao contrário do que eu pensei, eu não estava em pânico. Nervosa, sim, estava, mas tinha alguma coisa que simplesmente me amarrava e não deixava que eu fugisse e não descobrisse o que podia acontecer. Eu achava que essa coisa era a minha eu de doze anos, mas não tinha certeza.

- Tá cansadinha, né? - perguntou-me, ao que eu encostei meu corpo no dele. Queria dizer que não, que eu não estava procurando apoio e sim um pouquinho mais dele, mas não era exatamente verdade, então só concordei com a cabeça. - Vai sentar lá, eu levo o seu.

Com um sorriso, beijei-lhe os lábios e fui.

Talles e Mila não perceberam que eu estava ali, acho eu. Os dois estavam em uma espécie de bolha particular e os lanches nem havia sido tocados. Sentei discretamente do outro lado da mesa e abaixei a cabeça ao ver que ele parecia estar sussurrando alguma coisa na orelha dela e ela mantinha os olhos fechados.

Peguei meu celular para checar minhas redes sociais e quando meu celular começou a apitar as notificações de resposta das mensagens que eu enviava, eles pareceram sair do transe - com Mila dando um belo de um tapa no peito de Talles e empurrando de volta para o lugar dele, ao que ele fez às gargalhadas.

Fingi não perceber e continuei mexendo no celular tal como estava antes, mas estava me corroendo de inveja. Eu sempre fugi de qualquer cara que eu pudesse me afetar e querer me envolver e nunca tivera a oportunidade de desenvolver aquele tipo de intimidade, não o que eles estiveram fazendo no banheiro, mas as brincadeiras e as brigas de mentira e toda aquela ceninha de se agarrarem toda vez que ficavam sozinhos. Eu queria aquilo.

Quase como se estivessem lendo meus pensamentos, enquanto eu sentia minha garganta embargar pelo sentimento, JP sentou-se ao meu lado com nossos lanches e sorriu para mim.

E surpreendendo-o, eu me estiquei para grudar seus lábios nos meus. Ele sorriu quando eu me afastei e eu sorri de volta.

Era a primeira vez que eu me dava a chance de me envolver. Não pretendia desperdiçá-la, não mais, com meus medos.

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